Nº 59 | setembro / outubro 2014
Grafias

O elefante e a jabuticabeira
Crônica | Eliana Maciel

A primeira casa em que morei, depois de casada, ficava numa rua estreita e em declive, próxima à igreja de São Benedito. Rua Henrique Dias. Era uma casa pequena, com quatro janelas voltadas para a rua e um portão de ferro. Defronte a esta casa - e a quase todas as casas da rua -, havia um grande muro, estufado pela umidade e pelo tempo. Este muro separava a íngreme calçada do amplo quintal do casarão que ficava diante da Praça São Gonçalo. (Foi nessa Praça que eu, menina, perdi o ônibus e a esperança de levar o almoço para o meu pai.) O casarão, bem deteriorado, guardava, nos fundos, um espaçoso pomar. Não sei se havia outras árvores, só me lembro das jabuticabeiras. Da janela da minha casa - nº 57 - acompanhava durante todo o ano as mudanças das jabuticabeiras: os galhos quase nus, as folhas, as florezinhas brancas penduradas nos galhos, os tufos macios que explodiam em frutos pretos, luminosos, bem grandes. As muitas jabuticabeiras ofereciam sombra a quem passava pela calçadinha. Quando grávida, senti desejo incontrolável de provar as jabuticabas. E me entregaram bacias e bacias de lustrosos frutos, muito doces e de casca bem fina. Aquelas jabuticabeiras me pareciam eternas.

Um dia, não lembro se era manhã ou tarde, ouvi um grande alarido na rua. Abrindo a janela, notei que um cortejo alegre se aproximava: o desfile de um circo que se instalava na cidade. Peguei meu filho no colo, sentei-o sobre a janela e, segurando firmemente seu tronco, pus-me a olhar e a mostrar para ele as personagens. Na carroceria aberta de um caminhão, homens e mulheres com roupas coloridas rodopiavam, dançavam, exibiam cartolas de lantejoulas e fraques de brocado. Os palhaços acenaram para nós e meu pequeno filho estendeu sua mãozinha para cumprimentá-los. A música circense transformava a rua quase tranquila num picadeiro. Eu e meu menino ficamos ali, absortos. O último carro se aproximou. Era uma carreta que puxava uma enorme jaula. Lá dentro, um elefante, de orelhas baixas e olhos tristes. (Sempre são tristes os olhos enjaulados!) Apontei-o para meu filho, repetindo o nome do animal para que memorizasse. Neste momento, o semáforo lá embaixo passou de verde a vermelho. O cortejo todo parou sob as jabuticabeiras. Em um breve instante, flagrei o inusitado: o elefante deslizou a tromba por entre as barras da jaula e, sem nenhuma cerimônia, enlaçou um dos galhos de uma jabuticabeira desavisada. O sinal abriu, a jaula escorregou pela rua e o galho se soltou da árvore. O elefante, incontinenti, engoliu-o. E pronto! O cortejo seguiu caminho. Poucos segundos depois, a rua era a mesma. Menos por um fato: um elefante vindo sabe-se lá de onde (África? Ásia?) alimentou-se de um galho de uma jabuticabeira brasileirinha do fundo do quintal de um casarão colonial no centro de Guaratinguetá. Nenhum "flash" registrou o momento. Exceto os meus olhos e os do meu filho que, de tão novos, não guardam lembranças.

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Anteontem, passei pela Rua Henrique Dias. Derrubaram o casarão. Derrubaram as jabuticabeiras. Decerto uma enorme máquina as foi deitando ao chão, folhas sob as rodas, raízes expostas. Uma máquina com a mesma falta de cerimônia e sem a mesma inocência do elefante. O operador da máquina decerto nem soube da sombra das jabuticabeiras na calçada e na textura da casca dos seus frutos. Nem sabia do desejo de uma moça grávida ou do abraço de um elefante.

Vão construir um prédio. "Dois ou três dormitórios", diz o anúncio. "Varanda 'gourmet'". Interessante. Lembra-me Fernando Pessoa:

"Aquela senhora tem um piano
Que é agradável, mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem...

Para que é preciso ter piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza."

Eliana Maciel é autora do livro Menina dos olhos.

 
 
 
 
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