Nº 59 | setembro / outubro 2014
Grafias

O Sorriso de Bate-Seba
Miniaturas | Wilson Gorj

Inspirado numa história bíblica pouco conhecida. (II Samuel - versículo 11, de 1 a 27)

POR UNANIMIDADE, o sorriso de Bate-Seba era tido como o mais belo de todo o reino. Admiradores não lhe faltavam, raros aqueles que não cometiam o lugar-comum de compará-lo ao sol. E nisso tinham razão. De fato, quando ela sorria, o mundo ao redor parecia se iluminar. O que todos, porém, lamentavam era sabê-la inacessível, pois em sua órbita já gravitava um escolhido. Tratava-se do soldado Urias, um reles lanceiro da tropa real, por quem ela morria de amores e com o qual sonhava viver pelo resto da vida.

*
Deu-se que um dia, apreciando o reino da janela do seu aposento, no alto da torre, o Rei viu uma moça banhando-se numa cascata além dos limites do castelo. Era ela, a formosa Bate-Seba.

Fascinado por sua beleza, o soberano chamou imediatamente um dos seus súditos e, apontando-a, ordenou: "Descubra logo quem é aquela mulher".

Quando mais tarde soube tudo sobre ela, inclusive que era noiva de Urias, o Rei convocou o comandante de sua tropa e com ele arquitetou a traiçoeira manobra. Que, por ocasião da próxima batalha, expusesse certo soldado à linha de frente do combate e, se possível, ali o deixasse desamparado, entregue a sanha do inimigo.

Não tardou o novo confronto. Luta sangrenta travada durante longos dias, às fronteiras de uma nação distante.

De regresso, como era de prever, o exército real voltou desfalcado de muitos soldados. Dentre esses - como esperava o Rei - constava o nome de Urias.

Ao saber da morte do seu amado, Bate-Sabe mergulhou em profunda e pantanosa tristeza. Não sorria mais para ninguém. Da mulher de antes restava apenas uma formosura sem brilho.

Apesar disso, o Rei não se importou em desposá-la.

Por parte dela, todavia, não houve a menor objeção. Tornou-se rainha como teria se tornado qualquer outra coisa que lhe impusessem. Morta para o mundo, seus olhos viviam a fitarem o vazio, parecia uma doente mental em constante estado vegetativo.

O Rei, cansado de vê-la assim apática, e louco para ver o famoso sorriso que tantos elogiavam, procurou um conselheiro, de quem colheu esta curiosa solução: oferecer uma alta recompensa para aquele que fizesse a rainha sorrir de novo.

A sugestão foi acatada de imediato. E logo a notícia do ditoso desafio espalhou-se pela região.

Apareceram pretendentes de toda parte. O sortudo que arrancasse um sorriso dos lábios da soturna rainha seria recompensado com um baú cheio de moedas de ouro e uma bela carruagem aparelhada com os melhores cavalos do reino.

Entretanto, ao que parece, todos os candidatos, aos olhos da linda rainha, apresentavam-se desprovidos de qualquer graça. Não chegavam sequer a arrancar-lhe um esboço de sorriso.

O Rei já estava para desistir desse expediente, quando teve uma agradável surpresa. Alguém, finalmente, fizera a rainha sorrir.

Ampliar imagens

Vestido a caráter, rosto pintado, ninguém soube explicar o que aquele bobo da corte tinha de especial. Exceto por algumas cicatrizes nos braços, aparentemente era tão normal quanto os outros bobos descartados pela indiferença da rainha. Mas o fato era que só ele soube dar aos lábios de Bate-Seba a luminosidade do sorriso perdido.

O Rei, que nunca a tinha visto sorrir, ficou tão encantado, mas tanto que dobrou a recompensa do seu benfeitor e ofereceu-lhe um lugar definitivo em sua corte. O bobo, que de bobo não tinha nada, aceitou a proposta e mudou-se de imediato para o castelo real. Foi uma felicidade como nunca se viu. A rainha sorria tanto...

Ah, o sorriso de Bate-Seba.

Inesquecível sorriso. Durante muito tempo se falou nele. Mas ninguém era louco ou corajoso suficiente para relembrá-lo em público. Isso porque, depois de a rainha ter fugido em companhia do bobo, este assunto tornara-se maldito, abertamente proibido. Desde então, referir-se a qualquer um dos dois passou a representar grave ofensa à dignidade do Rei.

Mas não houve decreto que o impedisse de sonhar com ela. Todas as noites os sonhos do monarca traziam de volta a imagem daquela que fora sua rainha. E ela sorria sempre. O sorriso de Bate-Seba. Irônico sorriso.

Wilson Gorj é autor dos livros Sem contos longos, Prometo ser breve e Histórias para ninar dragões.

 
 
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000