Nº 59 | setembro / outubro 2014
Entrevista

A Literatura Fantástica de Georgette Silen | Da Redação

O Lince - Quando se deu sua decisão de começar a escrever?

Georgette - Eu sempre gostei de escrever, de contar histórias, de trabalhar com dramaturgia no teatro, minha primeira profissão.
Guardava muitos escritos em pastas e depois no computador, e decidi, em 2007, que enviaria alguns deles para editoras, para ver a opinião dos editores e saber se eu possuía ou não potencial para publicação.
Comecei a ter alguns resultados positivos nos feedbacks de contos em editais, e muitos negativos também. E, em 2008, veio uma resposta que me aninou: uma editora queria publicar meu romance fantástico, Lázarus, que foi editado em 2010. E a partir deste momento eu fui definitivamente cativada por esse universo da literatura e pelo contato com os leitores.

O Lince - Por que literatura fantástica?

Georgette - Eu me vejo como uma escritora de fantasia, uma contadora de causos e lendas, como uma daquelas pessoas anciãs de aldeias que se sentam ao redor do fogo todas as noites e relatam fatos fantásticos aos mais jovens. Literatura de Fantasia sempre foi o meu gênero favorito na leitura e seguir a escrita de fatos fantásticos foi natural.
Ainda pretendo experimentar escrever algo mais cotidiano, sem o fantástico, mas só depois de algum tempo. A fantasia por hora me basta, e me fornece tudo o que preciso.

O Lince - Que autores influenciam sua obra?

Georgette - Eu penso muito em Marion Zimmer Bradlley quando escrevo, a autora de As Brumas de Avalon. Sua obra foi um divisor de águas na minha vida de leitora e ela, com certeza, me motivou a buscar a fantasia aliada a fatos reais na escrita. Adoro tudo o que ela escreve, e me espelho nela sempre que possível.

O Lince - Como se dá o processo de construção de seus personagens?

Georgette - Da observação de pessoas reais, do cotidiano delas. O material de um escritor está ao seu redor, como um diamante bruto que precisa de lapidação. Escolhidos os personagens, seus trejeitos, defeitos e qualidades, o escritor os transfere para o papel e alimenta essas personagens com o que há de mais fantástico de acordo com cada um. Muita gente não sabe, mas é personagem nos meus livros.

O Lince - Como você classifica seus enredos?

Georgette - Eles variam da fantasia histórica à urbana, e também à fantasia de mundos alternativos. Sou uma escritora de gênero fantástico, e na fantasia tudo pode ser permitido e testado, ela não é estática. Bruxos podem ser bons, maus, perversos ou inocentes, e assim por diante. Gosto de cenas de ação, aventura, romance, humor e especialmente cenas que desafiam meus valores, que me deixam abalada após a escrita. Em geral, essas cenas ultrapassam o que eu acho moralmente correto, mas sempre são as melhores no resultado final.

O Lince - Quais as similitudes e as diferenças entre seus livros e outros que lhe serviram de referência?

Georgette - Eu não acredito em similaridades ou diferenças, mas sim em influências. Somos o resultado de tudo o que lemos, e é natural que partes daquilo que absorvemos surjam em nossas obras.

O Lince - O que você acha daqueles que defendem uma literatura fantástica "à brasileira"? Por que você não a escolheu?

Georgette - É verdade, eu não escolhi uma literatura "à brasileira". Eu fui escolhida por ela (risos). Sou brasileira, e mesmo escrevendo sobre fatos que podem ou não ocorrer ou no Brasil, com personagens da nossa cultura ou não, minha literatura é nacional. Sempre será. Escritores e literatura são universais, podem falar sobre fatos ocorridos em qualquer lugar do mundo, independente de sua nacionalidade. É essa liberdade que faz da profissão de escritor uma arte libertadora. Vamos do passado ao futuro, do ocidente ao oriente, de norte a sul em questão de poucas páginas e carregamos o leitor conosco. É mágico.

O Lince - E o mercado editorial brasileiro? De que maneira reage ao gênero que você adotou?

Georgette - Há 10 anos era um mercado fechado para a literatura de fantasia. Hoje o cenário é outro: na última Bienal de São Paulo, autores brasileiros de fantasia desbancaram best sellers internacionais nos stands e a tendência agora é o crescimento do gênero, que tanto agrada aos leitores. Vejo o futuro com otimismo em relação a isso.

O Lince - Há, no Brasil, inúmeros autores escrevendo literatura fantástica. Isso a faz moda? Ou algo a mais?

Georgette - Sempre houveram muitos autores escrevendo sobre fantasia, no entanto antes eles tinham dificuldade para publicar. Como o cenário caminhou para uma mudança nos últimos 10 anos, graças aos fenômenos internacionais como Harry Potter e outros, os autores que tinham originais engavetados estão tendo a oportunidade de colocar no mercado os seus escritos. E estão recebendo ótimo retorno dos leitores. Acredito que não é uma moda, a literatura de fantasia veio para ficar.

O Lince - Como você combina Amor e Terror?

Georgette - Amor e terror muitas vezes são faces da mesma moeda. E trazer isso para a literatura é um exercício. Dosar o romance, mesclar o horror que pode cercá-lo, faz parte da boa escrita. Eles são mais próximos do que pensamos.

O Lince - Lázarus e Panacéia são os dois primeiros volumes de uma quadrilogia. Dois outros volumes já estão em processo de revisão: Nênia e Zênite. Conte-nos um pouco sobre este seu trabalho.

Georgette - A série Lázarus surgiu de um sonho. Anos atrás, tive um sonho com uma cena específica do livro, e quando acordei eu anotei a sequência de fatos em meus diários de escrita. Daquela cena, surgiu um conto, mas eu senti que só o conto não bastaria para colocar no papel tudo o que eu já estava imaginando para a história. Minha filha mais velha, ao conversar comigo sobre isso, me incentivou: "Mãe, escreva mais! Coloque tudo para fora."
E foi assim que o primeiro volume de Lázarus foi escrito, e ele sozinho não se bastou. Seguiu-se Panaceia, o segundo volume, depois veio Nênia e Zênite, que fecha o arco dos personagens da série Lázarus.
Para os leitores se situarem melhor, Lázarus é uma série de fantasia urbana que trabalha com vampiros, lobisomens e outras criaturas mitológicas mundiais. Fiz uma extensa pesquisa sobre tipos diferentes de vampiros no mundo todo para escolher os melhores elementos para essa história de mistérios, suspense, amor e mitologia.

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O Lince - Você também tem feito um belo trabalho de organização de livros como Histórias fantásticas e As três princesas negras, reunindo contos pouco conhecidos pelo leitor comum. Como você avalia a importância desse trabalho?

Georgette - Organizar antologias é sempre um grande prazer. No caso do Histórias Fantásticas, eu selecionei autores através de um edital para publicação, e fiz todo o trabalho editorial. No caso de As Três Princesas Negras e Outros Contos dos Irmãos Grimm, eu selecionei contos menos conhecidos e traduzidos dos Irmãos Grimm, traduzi e adaptei as histórias para a língua portuguesa e organizei o livro. Participar de antologias pode ser muito bom para um autor estreante tornar seu trabalho conhecido, ser lido por mais pessoas, antes de se aventurar em um livro solo. Assim ele ganha mais público.

O Lince - Seu primeiro livro, Lázarus, foi lançado em 2010. De lá pra cá, mais oito livros somam-se ao seu trabalho. Os números impressionam e demonstram que sua literatura tem tido grande aceitação. Quem é o seu leitor?

Georgette - Meu leitor tem de 08 a 180 anos (risos). Eu escrevo para jovens, adultos, crianças, para quem quiser ler o meu trabalho. Embora haja classificação de livros na ficha catalográfica, acredito que o leitor vai além disso. Ele tem a liberdade de escolher o que vai ler, independente da classificação. A série Lázarus, por exemplo, é voltada ao público adulto, mas os maiores leitores dela são adolescentes. E meus livros juvenis têm muitos leitores adultos. Não é legal isso? Esse é o grande barato da literatura: ela é democrática.

O Lince - Como escritora, você tem participado de inúmeras feiras literárias pelo país. Em que região ou estado a sua literatura é mais bem aceita? A que você atribui isso?

Georgette - Desde o começo de carreira eu queria ser conhecida além da minha zona de conforto, que é o Vale do Paraíba. Então eu me aventurei para muitos estados, cidades, e continuo fazendo isso. Acredito que meu público esteja mais concentrado em São Paulo, o que é natural, mas recebo muitas mensagens de leitores de outros estados, especialmente os do Sul e do Norte do país. Isso é gratificante.

O Lince - Sua atuação como arte-educadora, especialmente com teatro, por mais de vinte anos, interfere de alguma maneira em seus escritos? Ou seja, há algo de teatral em seus escritos?

Georgette - Com certeza minha atuação no teatro interfere em muitos aspectos: construção de personagens, memória emocional deles, descrição de cenários, sequência de enredo, roteirização de cenas dos livros, observação do ambiente para transpô-lo para cena, enfim, sou mais teatral na literatura do que poderia imaginar a princípio. O teatro está no meu sangue, sempre esteve, e parte dele extravasou numa transfusão benéfica para a literatura.

Agora estou retomando as raízes teatrais na escrita de roteiros, peças teatrais e roteiros de musicais que, em breve, serão divulgados. Amo o que faço, e talvez por isso me sinta tão feliz trabalhando sempre.

Sobre a autora



Georgette Silen é caçapavense de nascimento. Arte-educadora e professora de teatro, publicou seus primeiros textos, em coletâneas diversas, a partir de 2009. Desde então, são quase trinta livros como autora convidada ou organizadora.

Após o lançamento de Lázarus, seu livro de estréia, esta vale-paraibana tem se firmado, a cada publicação, como expressivo nome da Literatura Fantástica no Brasil, reafirmando a tradição de bons escritores nascidos na região.

Vampiros, bruxas, fantasmas, anjos e demônios estão sempre presentes nas histórias extraordinárias contadas por esta griot americana do século XXI.

Sua presença constante em eventos e escolas dizendo de suas experiências como escritora, mas especialmente contando boas histórias fantásticas, estimula jovens leitores a buscar a literatura como forma de construção do sentido do mundo, mesmo que imaginário.

Em breve, sairão os dois volumes que completam a quadrilogia iniciada em 2010: Nênia e Zênite.


SOBRE LÁZARUS



"A leitura é madura e detalhada e nos traz uma riqueza de detalhes maravilhosa. Ela amplia o universo dos vampiros como conhecemos, trazendo desde lendas mais antigas, como as Lâmias gregas, até o conceito dos vampiros atuais. Até hoje foi um dos livros com mais detalhes que li na literatura brasileira, e tudo com uma propriedade tamanha que parece ser verdade."
Danilo Barbosa
blog Literatura de Cabeça

"A autora Georgette Silen não se limita a contar uma love story com assassinatos ao fundo. A trama ganha novo fôlego após a resolução dos casos: entram em cena mais personagens, desafios e, claro, perigos."
Helena Gomes
Coautora de Sangue de Lobo, autora de Lobo Alfa, Assassinato na Biblioteca e a saga A Caverna de Cristais, entre outros.
 
 
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