Nº 59 | setembro / outubro 2014
Editorial

Sísifo e as eleições | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Qualquer pessoa de cultura clássica mediana conhece o mito de Sísifo enquanto expressão do esforço inútil. Também reconhece na figura de Sísifo a personificação da astúcia e da malícia, o que lhe permitiu enganar a própria morte e também lhe valeu a danação eterna. Não obstante, essa seria uma primeira leitura a qual acrescentaríamos outra: a de Sísifo como representação do ciclo da existência e de nossa condenação ao recomeço, a cada geração, ou seja, o mito como uma alegoria de nossa parcial, mas significativa incapacidade de assimilar a sabedoria amealhada por gerações anteriores e, em consequência, nossa sina prometeica ao sofrimento.

Mais que no passado, talvez tenhamos perdido a capacidade de aprender, no plano da vivência cotidiana, com a experiência amadurecida pela reflexão dos "mais velhos", e, no plano mais amplo da existência, com a hermenêutica construída pela ciência histórica.

A premissa aqui contida, teórica evidentemente, de que ciência e experiência nos credenciam para a formulação de juízos mais consistentes, não nega a inevitabilidade da renovação, a condiciona. Entretanto, dizendo que a inovação legítima das estruturas exige formação. Do contrário, nada se terá além de uma forma nova de apresentar um conteúdo velho. De outro modo: o novo pode estar apenas na forma, em um modo diferente de repetir as práticas e reproduzir as ideias.

E aqui, quando o assunto são as eleições no Brasil, nos reencontramos com Sísifo quando, de tempos em tempos, uma nova leva de jovens eleitores cuida de promover uma espécie de amnésia social em relação a antigos políticos e suas práticas, fazendo-nos dispensar o saber histórico, renunciar ao saber vivido e retornar a modelos já experimentados. O mais curioso é que isso se faz sob a égide da renovação. Seduzidos pelo discurso do novo e desprovidos de um saber que só poderiam angariar com os mais velhos e com a história, trilham caminhos já percorridos, não avançam, empurram, colina acima e sobre solo gasto, a pesada rocha que rolará do alto tão logo percebam o quanto de "esforço" dispenderam em vão. Junto a esses jovens, "desmemoriados tradicionais" e "tradicionalistas interessados" em recuperar privilégios perdidos.
Numerosos são os exemplos de velhas práticas retomadas em nome do novo e de soerguimentos de velhos nomes e projetos em nome da mudança. Em alguns casos raros, bom que se diga, pode significar uma retomada de rumo, mas quase sempre é apenas uma mudança de pano de fundo sem qualquer vestígio de alteração das estruturas.

Nas eleições de 2014, parte do eleitorado brasileiro demonstrou ainda estar tomado pela resistente nódoa do entendimento de que se trata de uma disputa entre o bem e o mal, tomando as primeiras impressões de informações duvidosas como critério para decidir acerca daquilo que exigiria informação de qualidade e análise rigorosa e nada apaixonada dos perfis de candidatos e grupos, seus programas e realizações. Da qualidade do voto depende a qualidade dos escolhidos.

A decisão de um pleito eleitoral vai muito além da simples escolha entre o "novo" e o "velho", entre o "bem" e o "mal". Exige uma leitura de mundo capaz de perceber os caminhos e descaminhos das mudanças de estrutura - se as mesmas são desejáveis -, mesmo que os momentos conjunturais possam obscurecer-nos a visão e tirar-nos, ainda que temporariamente, a capacidade de enxergar.

Importante lembrar que há sempre pessoas e grupos dispostos a fazer uso da passionalidade do eleitor. O ódio e a idolatria cegam-nos igualmente. E, o que é pior, em nada ou muito pouco contribuem para a solução dos problemas que nos afetam. É da análise de estrutura que carecemos. De um voto daí resultante.

Enquanto esse eleitor distante não se apresenta, sem a orientação de uma Ursa Menor que seja, continuaremos à deriva e a depender da sorte.

Não há égide a nos proteger. Que nossas orações alcancem os céus.
 
 
 
 
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