Nº 59 | setembro / outubro 2014
Artes

A arte bucólica de Roberto Mendes | Da Redação

Os traços e as cores sobre o papel de embrulho, aos poucos, iam conferindo formas aos personagens das histórias criadas por aquele jovem de 14 anos que, com tesoura e grampo dava o arremate final ao artesanal trabalho de confeccionar os próprios gibis povoados de imaginação alimentada pela leitura dos best sellers que toda a garotada de seu tempo apreciava ler.

O misterioso Fantasma e o hábil mágico Mandrake, criações de Lee Falk, o poderoso Capitão Marvel, o destemido Tex Willer e o justiceiro Zorro habitavam o mundo criativo deste adolescente de Cachoeira Paulista-SP que, em tenra idade, começava a demonstrar seus pendores para as artes plásticas.

Dessa época, Roberto Mendes ainda mantém alguns guardados cuidadosamente preservados por sua mãe. De suas lembranças dos primeiros tempos de escola, aflora, com destaque, uma experiência de ter sido o único da turma a receber, de sua professora de desenho, a nota máxima, por ilustrar a música "A praça", composição de Carlos Imperial impecavelmente interpretada por Ronnie Von, em 1967, época em que Roberto morava em São Paulo e cursava o ginasial no bairro do Ipiranga. Dona Paulina, a mestra, fazia uso das músicas de sucesso da época como motivos para os desenhos de seus alunos. Ela própria intitulou sua técnica de ensino de "Parada de sucessos", levando os petizes a conhecer e a correlacionar duas linguagens artísticas: a musical e a plástica.

"Maravilhosa, Dona Paulina! Soube depois que dava aula de desenho para presidiários no inativo e implodido Carandiru", lembra-se.

Em Cachoeira Paulista, por ocasião das férias, buscava orientações de dois artistas plásticos que destaca: Nelson Lorena e Jairo Ramos. Do primeiro assimilou "dicas valiosas":

"... eu sempre dava uma chegadinha em sua casa. Não posso esquecer os ensinamentos dos tons de pele dos retratos que Sr. Nelson fazia. Surgia uma dificuldade numa expressão dos olhos, uma mistura de pele clara ou morena, lá estava ele repassando dicas valiosas que trago comigo até os dias de hoje. Pra mim, Nelson Lorena, além do especial amigo, foi um exemplar e dedicado professor de desenho e pintura."

Do professor, artista plástico e museólogo Jairo Ramos absorveu o prazer de conviver com um jeito moleque de ser e uma irreverente forma de fazer arte.

Mas Roberto Mendes também buscou formação acadêmica em respeitadas instituições. Uma delas foi a Escola Panamericana de Arte, onde teve o privilégio de ser aluno de Mário Tabarin, fundador e primeiro diretor da EPA.

"Fiz a Panamericana de Arte, em São Paulo, em 1971, e tive um grande mestre dos croquis que foi o Professor Tabarin. Interessado no futuro dos alunos, era um pouco exigente, mas graças a esse seu método, tenho guardado comigo um desenho que foi destaque do mês, ficando em exposição no saguão da EPA. Devo muito a ele e jamais vou esquecê-lo."

Na Faculdade de Belas Artes, também em São Paulo, Roberto Mendes estudou técnicas de pintura com modelos vivos. Ali recebeu preciosas orientações sobre a proporcionalidade das formas.

Na Escola Universal de Artes foi aluno da reconhecida retratista belga Liege Jansen Kripka, também diretora da escola e grande especialista no óleo sobre tela. Dela, com seus colegas de classe e ao final do curso, ouviu:

"'Muita sorte a vocês queridos alunos, e se um dia prosseguirem a carreira de artistas plásticos, nunca deixem de pintar figuras humanas. São as mais valorizadas e, melhor, o artista se completa ao retratá-las'. Particularmente, não esqueci o conselho e sempre que posso pinto uma figura humana. Saudades da D. Liège que um dia nos honrou quando recebeu, da Assembleia Legislativa de São Paulo, uma medalha de honra ao mérito pela sua dedicação e trabalho às artes e à cultura".

Embu das Artes foi outra importante "escola" em sua formação. Lá aprendeu a técnica espatulada com Jozan e foi iniciado por Sakai do Embu nos trabalhos com argila. Voltando à Escola Panamericana de Artes, teve aulas com Manoel Victor Filho, excelente ilustrador, um dos diretores da EPA e Diretor Artístico da Editora Abril.

Ampliar imagens

Sobre suas influências artísticas, reconhece seu academicismo, mas acredita que os estilos se aperfeiçoam e mudam com o tempo. Considera que o primitivismo de Manezinho Araújo e os "incomparáveis" tons de verde de Rebolo estiveram e estão presentes em sua obra, mas suas preferências encontra, segundo ele próprio, no impressionismo de Renoir e na autenticidade de Almeida Júnior, no qual busca o apreço pelos tipos populares.

Assim, pintando e desenhando, Roberto Mendes estima já ter feito entre 350 e 400 trabalhos, isso sem contabilizar as dezenas de tiras que produziu quando, quinzenalmente e durante três seguidos anos, trabalhou para o jornal da CEAGESP.

De sua produção resultaram exposições coletivas ao lado de nomes como Jairo Ramos e Quissak Júnior, participação em cinco edições da Semana do Artista Cachoeirense, na Câmara Municipal da cidade, e do movimento artístico de Embu das Artes. Entre as exposições individuais figuram três delas na Casa do Artesão, uma no Restaurante Essencial Gourmet e outra no Centro Cultural Gertrud Schubert dos Santos, todas em Cachoeira Paulista-SP.

Em 2005, representou sua cidade natal no Mapa Cultural Paulista e, em 2014 foi um dos dois representantes de Cachoeira Paulista no III Salão de Arte na Sala São Paulo, organizado pela Secretaria de Turismo do Estado.

Quando indagado sobre sua arte e suas predileções temáticas e cromáticas, Roberto Mendes não titubeia

"Minha arte é a dos meus sentimentos. 'Mergulho' nos quadros e tento passar para a tela o que as pessoas admiram e gostam de receber, ou seja, um trabalho feito com amor e dedicação, indiferente do gosto de cada um. [...] gosto de trabalhar com luz e sombra para avolumar a obra. Dar vida na composição. Agora, as cores, assim como são infinitas, cada situação requer um estudo apropriado e harmonioso. [...]

Meu tema preferido: A vida! Cada obra sinto isso quando estou no trabalho. Um caminho, por exemplo, solitário e sem fim... procuro dar vida ao colocar uma silhueta humana. Os olhos vívidos de um retrato, uma gaivota sobrevoando uma marina ou pássaros repousados na cerca de uma estrada etc.

A arte para mim é viver com arte, uma das minhas paixões que ao iniciar a vida, não tinha noção do que Deus tinha me reservado. Um dom maravilhoso e que merece toda dedicação, estudar a arte de ver, notar o quanto que passamos para a tela é importante. Espécie de impulso que desencadeia sentimentos de prazer quando vemos a cor presente na natureza, o brilho das cores iluminadas pelo sol e as expressões humanas que emocionam e inspiram qualquer artista".

E com o espírito de agradecimento pelo "dom" recebido, enlevado com a própria arte, o ocupante da cadeira número 30 da Academia Cachoeirense de Letras e Artes continua a colocar diferentes tons de cores em sua vida e na de todos que estão ao seu redor.
 
 
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000