Nº 57 | maio / junho 2014
Memória

Primeira novela em cores da TV Tupi foi gravada em Roseira-SP | Da Redação

No dia 5 de fevereiro de 1974, a TV Tupi de São Paulo, Canal 4, primeira emissora de televisão do Brasil – fundada por Assis Chateaubriand, em 1950 –, colocava no ar um de seus maiores sucessos da teledramaturgia: Os Inocentes. Sucedendo Mulheres de areia, a nova novela trazia quase metade do elenco da novela anterior e carregava a responsabilidade de sustentar a audiência obtida no nobre horário das oito.

Escrita por Ivani Ribeiro e seu esposo Dárcio Ferreira, a novela inspirada na obra do dramaturgo suíço Friedrich Durrenmatt (A visita da velha senhora, 1956) trazia como enredo a história de Juliana, uma mulher que retorna à sua terra natal movida pelo resssentimento transformado em rancor e desejo de vingança. Quando criança, vivenciou o trágico destino de sua mãe, Maria Alice (Karim Rodrigues), uma bela professora que, uma vez viúva, resistiu ao assédio de vários homens de sua interiorana Roseiral e, por isso, acabou sendo difamada e expulsa da cidade. Quando deixava Roseiral, com a filha Juliana (Milla Amaral), uma pedrada em um dos olhos cegou-a parcialmente. Pouco depois, em razão de tudo que lhe ocorrera, morreria.

O início da trama se dá com o retorno de Juliana Azevedo (Cleide Yáconis) a Roseiral. Agora mulher rica e poderosa, e movida por um desequilibrado ímpeto de vindita, adquire a propriedade de Otávio Queiroz (Rolando Boldrin), um ex-colega de escola e fazendeiro decadente, e começa, "generosamente", a conquistar a confiança da população de Roseiral.

Além de Otávio, Juliana considerava como responsáveis e alvos de sua desforra outros oito herdeiros dos algozes de sua mãe: Mário (Adriano Reis), Marina (Márcia Maria), Daisy (Elaine Cristina), Marcelo (Tony Ramos), Renato (Paulo Figueiredo), Lurdinha (Tereza Teller), Chico (Gianfrancesco Guarnieri) e Hortênsia (Maria Stela). Um a um, e a cada desafronta, foram sendo queimados os bonecos de papel que representavam os inocentes e se destacavam na vinheta da novela.

Somam-se ao inesquecível elenco nomes como os de Cláudio Corrêa e Castro (Padre João), Ana Rosa (Sofia), Luis Gustavo (Vitor), Jonas Mello (Jarbas), Laura Cardoso (Guiomar), Osmano Cardoso (Dr. Bonfim), Serafim Gonzales (Salvador), Léa Camargo (Yolanda), Régis Monteiro (Maneco), Adoniran Barbosa (Dominguinho), Jussara Freire (Gigi), entre outros.

As cenas da novela foram gravadas entre Roseira, Pindamonhangaba (Fazenda Boa Vista) e Guaratinguetá.

As tomadas de gravação, quando externas, foram, muitas delas, realizadas no centro da cidade de Roseira-SP, transformando-as em um acontecimento regional. Centenas de pessoas amontoavam-se nos espaços delimitados para acompanhar as inusitadas filmagens. Expectadores da cidade e de cidades vizinhas queriam ver de perto as atuações destes gigantes da dramaturgia brasileira que por vários meses fizeram de Roseira sua casa e dos roseirenses sua família.

A novela marcou época na televisão brasileira e foi dirigida por Edson Braga tendo como assistente de direção Antonio de Mattos, com direção geral de Carlos Zara. Foram 174 capítulos exibidos em horário nobre (20h.) durante sete meses.

Antes de terminar Os Inocentes, Ivani Ribeiro foi solicitada a escrever uma nova novela para a TV Tupi: A Barba Azul.

Ampliar imagens

Uma curiosidade é a de que a novela teve parte gravada em preto e branco e parte gravada "em cores", ou seja, a partir de 10 de julho de 1974, Os Inocentes foi a primeira novela colorida a ser exibida pela TV Tupi – Canal 4.

Outro fato interessante a registrar é o de que, em virtude do afastamento de Gianfrancesco Guarnieri da TV Tupi, Ivani Ribeiro teve que reescrever vinte capítulos já prontos e gravados para que o personagem do ator pudesse sair de cena.

Na equipe técnica, demonstrando com que simplicidade e economia de recursos eram feitas as novelas brasileiras, estavam Pedro Jacinto, na sonoplastia, César Douglas e Amilcon Queiros, na iluminação e Edu Marinho na cenografia.

No dia 7 de setembro de 1974, sete meses depois de ir ao ar o capítulo de abertura, Os Inocentes chegava ao seu último capítulo e ao desfecho de toda a trama.

Sucedendo Ivani Ribeiro, no horário das oito, seria exibida a novela Ídolo de pano, escrita por Teixeira Filho e dirigida por Henrique Martins e Atílio Riccó.

Em 1980, a TV Tupi teria sua concessão cassada e, posteriormente, adquirida, junto ao governo federal, por Silvio Santos, agora com o nome SBT.

Na internet, através do youtube, ainda é possível assistir a alguns capítulos da novela, disponibilizados pela Cinemateca Brasileira, e por eles revolver a memória e retroceder a uma cidade interiorana e bucólica de quarenta anos atrás.

Interessante e curiosa é a participação do prefeito de então, Jovem Polydoro, em uma rápida troca de palavras com Cláudio Corrêa e Castro, o Padre João. Jovem Polydoro foi duas vezes prefeito de Roseira e é pai do atual prefeito Jonas Polydoro, em terceiro mandato.

Líder de audiência, Os Inocentes bateu duas novelas concorrentes da TV Globo: O semideus e Fogo sobre a Terra, ambas escritas por Janete Clair. Depois do sucesso de Os Inocentes na TV Tupi, a emissora de Roberto Marinho levou ao ar três telenovelas inspiradas na peça teatral de Friedrich Durrenmatt: Cavalo de Aço (1973), Feral Radical (1988), ambas escritas por Walther Negrão, e Fera Ferida (1993/1994), com texto de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares.
 
 
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000