Nº 57 | maio / junho 2014
Meio Ambiente

BASF patrocina Atlas Ambiental de Guaratinguetá | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

No último mês de abril, os alunos do segundo ciclo do ensino fundamental das escolas públicas estaduais e municipais de Guaratinguetá-SP receberam o Atlas Ambiental Mata Viva como parte de um programa educacional que compreende materiais didáticos para alunos e professores e também uma capacitação para professores de Ciências e Geografia. No início de maio, no dia 7, aconteceu a solenidade de lançamento da proposta de projeto.

Concebido pela Fundação Espaço Eco e patrocinado pela indústria química BASF, o atlas, com impressão colorida em papel couché de muito boa qualidade e acurada preocupação com a forma, alcançou um excelente resultado visual que, juntamente com os conteúdos gerais apresentados constituem os aspectos positivos do material.

Sua fragilidade fica por conta da forma standard de inserção das informações referentes ao município de Guaratinguetá, da falta de pertinência de alguns temas em relação a um atlas que se propõe ambiental e da ausência de uma orientação didático-pedagógica que alinhave o conjunto, o que é percebido ao verificar-se que a bibliografia não traz qualquer referência às ciências da educação. Neste último caso, nada a observar se o atlas não trouxesse consigo a proposta de orientar um "programa educacional". Mais parece, como se encontra no próprio site da Espaço Eco, uma proposta de "educação customizada" que, a partir de um formato padrão, insere algumas informações locais, nem sempre ambientais, sob o pretexto da contextualização.

Após apresentar noções gerais de uso e de cartografia, o atlas estrutura-se em três partes: espaço, ambiente e cultura.

A secção reservada ao Espaço, constituindo quase um terço da obra (pp. 18-49), apresenta quase 55% das páginas destinadas a apresentação de imagens de satélite, dispensando formas cartográficas de representação, o que tornaria o material didaticamente mais adequado e condizente com a finalidade básica de um atlas. O leitor é posto diante da informação bruta, fotográfica, sem que uma análise ou síntese cartográfica seja apresentada.

A segunda secção, Ambiente, justificadamente a mais extensa do livro (pp. 50-93), representa mais de 42% do atlas. No entanto, somente dois mapas e algumas informações incipientes fazem referência ao município de Guaratinguetá, ou seja, menos de 5% do conteúdo apresentado sobre meio ambiente refere-se diretamente ao município.

Finalizando o atlas ambiental, uma secção sobre Cultura engloba temas como o passado histórico, as origens da cidade, uma linha do tempo local/nacional, a diversidade cultural, os "saberes locais" – talvez uma referência ao pensamento antropológico de Clifford Geertz –, direitos humanos, divisão dos poderes e símbolos cívicos. Cultura reaparece como subtema homônimo da secção em que se insere, o que contraria regras básicas de classificação. Estas inserções ad hoc evidenciam duas lógicas presentes no atlas: uma estabelecida a partir de elementos gerais pré-formatados ao estilo de um atlas geral clássico, e outra, menos estruturada, que compõem um quase almanaque com uma diversidade de informações bem ao estilo pseudo-descritivo que caracteriza a pedagogia tradicional.

Ampliar imagens

Um aspecto a ser enaltecido no Atlas Ambiental é o projeto gráfico e a apresentação visual muito bem cuidados, com infográficos, ilustrações, fotografias, mapas, gráficos, imagens de satélite, na maioria das vezes bem trabalhados e colocados. O resultado geral é agradável, embora fuja às características de um atlas enquanto coleção de mapas. Talvez uma tentativa de ressignificação do termo que carece ser melhor analisada, especialmente quanto aos seus potenciais usos em sala de aula.

O projeto fomentado pela maior indústria química do mundo – indústria com alto potencial de degradação ambiental –, faz parte de uma política compensatória da empresa e é visto pela mesma como um "presente para a cidade". Entretanto, dados mais precisos sobre o município não são sistematicamente abordados tais como médias térmicas, índices pluviométricos, poluição industrial e contaminação ambiental, características e usos do solo, comparativos referentes às relações entre área verde e habitantes e inúmeros outros dados que certamente exigiriam pesquisas mais onerosas e demoradas e implicariam na alteração do formato pré-estabelecido que reserva pouco mais de 25% do conteúdo apresentado para a localidade que confere título ao atlas, sendo que das 27 páginas destinadas a Guaratinguetá, 16 (15,84%) são fotos de satélite que não exigem qualquer sistematização de dados. Restam, portanto, pouco mais de 10% do conteúdo voltados para assuntos guaratinguetaenses, mas não necessariamente ambientais, o que permite dizer que Guaratinguetá ainda carece de um atlas ambiental.
 
 
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000