Nº 57 | maio / junho 2014
Letras Valeparaibanas

Jacareí | Augusto Emílio Zaluar

O vivo desejo e a necessidade que tínhamos de chegar a S. Paulo depois de tão demorada excursão não nos permitiu obter informações minuciosas, como até aqui havíamos feito acêrca das diversas povoações que visitamos, e por isso estes nossos apontamentos naturalmente se tornarão de ora em diante mais deficientes neste sentido. Além disso a falta completa de obras ou documentos a consultar, porque os não pudemos encontrar em parte alguma, é ainda mais poderosa dificuldade para quem intenta dar notícia conscienciosa e verdadeira da importância dos municípios desta província.

Se quiséssemos fazer dêste trabalho um tecido de singulares aventuras e de episódios romanescos, talvez nos não faltasse assunto: mas preferimos traçar nestas linhas algumas notas apenas que sirvam de guia ao viajante curioso que, como nós, aprecie instruir-se ao passo que se deleita fazendo uma jornada.

Todos os dias nos chegam da Europa livros recheados das mais ridículas e mentirosas fábulas acêrca dos costumes singulares do interior do país, e desta grandiosa natureza com que a Providência mimoseou os povoadores da terra americana, enquanto bem poucos são os escritores sérios que se tenham dado ao trabalho de pintar com suas verdadeiras côres a magnificência e a beleza destas regiões! Alguns escrevem até de improviso a respeito de um mundo cujos prodígios mais parecem sonhos àqueles que os admiram do que pasmosas realidades! Imagine-se que bárbaras pinturas, que desenhos caricatos, que descrições infiéis e grotescas, que apreciação falsa e descorada farão do Brasil aqueles que nunca contemplaram o brilho dêste céu, a imponente arrogância destas cordilheiras inacessíveis, o arrojo destas penedias, a soberana majestade destas matas infinitas que se debruçam às margens dos maiores rios do mundo, ou se ostentam contornando lagos imensos como o oceano e profundos como o firmamento!

O viajor que se embrenha por estas paragens caminha de maravilha em maravilha. Não há um acidente de solo, a forma caprichosa de um morro atrevido, como em sua pitoresca linguagem lhe chamam os caipiras, o aspecto sempre majestoso e sempre variado de uma floresta, o curso mais ou menos assoberbado de um ribeirão ou de um rio, e o espetáculo magnífico das cachoeiras que de tempos a tempos se oferecem à nossa vista, despenhando suas águas em lençóis de prata, que não tenha um cunho de soberana grandeza, de curiosa originalidade, enleando a mente em contemplações filosóficas, ou inspirando a imaginação e despertando o sentimento nas almas artísticas, cismadoras e poéticas!

Ó, natureza, tu és o degrau por onde a humanidade se aproxima do Criador! Não era debalde que os filhos das primitivas raças disputaram palmo a palmo aos conquistadores as recônditas solidões de suas matas e os infinitos e prodigiosos tesouros de seus vastos domínios! Êles bem compreendiam, no meio de sua ignorância selvagem, que os monumentos da civilização não podiam ombrear com os prodígios da natureza! E de fato, que lhes deram em troca de suas rudes habitações e de seus arcos e suas flechas independentes, que valesse o esplendor dêstes céus e a fertilidade de terra virgem?

Hoje, essas raças, sacrificadas em holocausto do progresso universal, como outrora e por antítese os povos do ocidente foram avassalados pelas legiões dos bárbaros do norte, estão dispersos e vão aos poucos extinguindo-se do solo que Deus lhes deu por pátria, e dêste imenso continente de cujas riquezas foram por tantos séculos os legítimos, mas ignorantes depositários.

Quando nos remontamos em espírito à época da conquista do novo mundo, não sabemos realmente que nos deva causar maior assombro, se os íncolas que defendiam com a rude coragem de seus instintos ferozes o berço de suas gerações e a liberdade de sua independência tradicional, se a inabalável e perseverante audácia dos novos descobridores, que, vencendo inconcussos todos os perigos que podem acobardar a inteligência humana, caminharam de terra em terra, de tribo em tribo, de região em região, à conquista do espaço, da imensidade e do desconhecido!

Que têmpera a dos robustos homens daquelas eras! Que ambição insaciável e audaz! Quem não se lembra ainda com pasmo da viagem de Orellana, que transpôs quase duas mil léguas por entre as brenhas, os rios caudalosos, os despenhadeiros horríveis, lutando com as tribos que o assaltavam como enxames rompendo de suas inumeráveis colmeias, ou dando-lhe caça nas águas dentro de pirogas ou canoas ligeiras como as zagaias que disparavam de seus arcos? Quem se não recorda com assombro da temerária audácia de Hernando Rivera, que, ouvindo falar no país das Amazonas, corre aventureiro através das mais inóspitas regiões, andando oito dias com os da sua comitiva, dentro d’água até o joelho e muitas vêzes até a cintura, por terrenos alagados, arcando com a fome, a nudez e a miséria, e recebendo em prêmio de sua ambição desvairada as cadeias e os cárceres? E mais do que todos estes, porque não eram geralmente inspirados pelas paixões torpes e as ambições mundanas, que diremos dêsses heroicos missionários que, arvorando nas plagas da América os primeiros estandartes da cruz, foram os apóstolos e tantas vêzes os mártires de sua fé religiosa, e os mais ardentes e fervorosos propugnadores do catolicismo?

Iam procurar os indígenas no âmago das florestas, segundo as expressões de A. de Saint-Hilaire, afrontando sua crueza, animando-os com presentes, consolando-os em suas aflições, curando deles quando enfermos, e chamando-os ao grêmio da igreja. As crianças, como se fossem fascinadas por seus cantos, acompanhavam-nos, agrupavam-se em tôrno deles, e os padres da Companhia de Jesus lhe ensinavam os princípios da religião, a leitura, a escrita, a contar, a música e as artes mais úteis.

Assim cumpriam estes piedosos romeiros a sua espinhosa missão. Quem procura conhecer nas tradições históricas da província de S. Paulo os primeiros anos do seu descobrimento encontra por tôda a parte, tanto nos códices escritos como nos livros de pedra, tanto na cruz tôsca e humilde dos descampados como nos monumentos sombrios, mas imponentes de suas cidades, os nomes dos dous grandes levitas, o padre Manuel da Nóbrega e José d’Anchieta, cuja memória se conserva há três séculos pairando como um gênio benfeitor sôbre os campos férteis e abençoados dos antigos Piratiningos.

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Anchieta, o taumaturgo do Brasil, é uma das mais poéticas e divinas figuras das legendas cristãs. A fama de suas virtudes e o esplendor de sua inteligência enchem a página mais brilhante dessa odisseia de prodígios com que o gênio da Europa inoculou no mundo de Colombo os primeiros e fecundos gérmens de sua civilização.

Foi a um tempo poeta, naturalista e guerreiro, diz o autor já citado, falando de Anchieta; para se tornar útil, revestia tôdas as formas: era mestre de escola para as criancinhas, comandava as tropas, compunha cânticos, sarava os enfermos, e nunca desprezou o trabalho, por mais vulgar que êle fosse. Pode contar-se entre os homens mais extraordinários de seu tempo.

Quando mais o viandante se aproxima dos lugares que foram teatro das glórias dêstes mártires e dêstes santos, mais parecem crescer em respeito e magnitude a sua lembrança e os padrões eternos de suas milagrosas conquistas. E no entanto tudo mudou desde o seu tempo até hoje, exceto o templo majestoso desta natureza!

Entremos finalmente em Jacareí e saudemos o desenvolvimento animador desta nascente e pitoresca povoação.

A quinze léguas da cidade de S. Paulo, e três afastada da vila de S. José dos Campos, fica a bonita cidade de Jacareí, recostada na margem direita do rio Paraíba.

O que mais notável salta à vista a quem, passando algumas poucas ruas, entra no largo principal, é a magnífica matriz, acabada de reparar e aumentada de novo, e que em grandeza e gosto arquitetônico tem, depois da de Pindamonhangaba, o primeiro lugar entre as do norte da província, bem como o magnífico palacete do Sr. Barão de Santa Branca, que ocupa uma das faces inteiras desta não pequena e bem edificada praça.

A vila de Nossa Senhora da Conceição do Rio Paraíba de Jacareí, diz Pedro Taques, foi ereta no tempo do donatário Diogo de Faro e Sousa, pelos anos de 1652, e dela foi povoador o Paulista Antônio Afonso, com Bartolomeu Afonso e Estevão Afonso.

Esta povoação conservou-se por muito tempo em atraso, até que nestes últimos anos, pelo desenvolvimento de sua lavoura, e por consequência do seu comércio, tornando-se mais numerosos os seus habitantes, foi elevada a cidade, e muito tem prosperado e desenvolvido tanto no progresso moral como no seu aformoseamento material.

A casa da misericórdia, que ainda não está concluída, e cuja descrição minuciosa sentimos não poder dar aqui, é um edifício digno da filantrópica missão a que está destinada, e que muito honra o Sr. Dr. Moutinho, que não só iniciou tão louvável idéia, mas que tem empenhado com inabalável constância todos os seus esforços para que êste pio estabelecimento se finalize e satisfaça cabalmente os fins de sua instituição.

Além de outros prédios que merecem atenção pela sua regularidade e bom gôsto, devemos notar a elegante casa do Sr. A. I. Leitão, acabada com todo o esmêro, e cujos pintados e dourados salões poderiam receber com orgulho a sociedade mais seleta da capital do império.

Os edifícios públicos, contando neste número a casa da câmara e a cadeia, não desdizem dos mais que temos observado, e mostram claramente o impulso que em poucos tempos tem recebido a povoação.

A produção do café tem prosperado neste município em virtude da excelência de suas terras; mas não podemos dizer ao certo o número de arrobas que já colhe por ano, pois nos faltam inteiramente as informações necessárias. Sabemos apenas que se cultiva o tabaco ou fumo, assim como os gêneros alimentícios, em proporção suficiente para o consumo local.

A população do município pode orçar-se em 16 a 18.000 almas.

O comércio é próspero, se bem que poucas ou nenhumas indústrias se tenham desenvolvido no lugar. O caráter dos Jacareíenses é franco e sociável. Tivemos ocasião de apreciar algumas de suas amáveis reuniões e passar aí agradáveis momentos.

Os arrabaldes da cidade são pitorescos e aprazíveis. Mais de uma vez passei de tarde a cavalo, e em companhia do meu bom amigo Júlio Guimarães, acreditado negociante desta cidade, que tão cordialmente me acolheu, e apreciamos juntos a fertilidade dêsse solo, fazendo votos para que a mão da indústria envide seus esforços para que produza em breve os resultados que promete.

Êstes votos renovo ainda traçando estas linhas, e lembrando-me do excelente companheiro a quem devo, além da hospitalidade, as informações que se acabam de ler sôbre Jacareí.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
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