Nº 57 | maio / junho 2014
Focus

Francisco de Assis Barbosa, o repórter que sonhava | Antonio Arnoni Prado

A admiração de Francisco de Assis Barbosa (1914-1991) pela obra e personalidade de António de Alcântara Machado (1901-1935) remonta aos anos de juventude, quando, ainda estudante na Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, em 1933, ele se apresenta como voluntário para a defesa da causa constitucionalista junto à Bancada Paulista por São Paulo Unido, então empenhada nos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, reunida na capital federal.

Chico e os quatro rapazes que o acompanhavam foram recebidos pelo próprio Alcântara Machado, que presidia a Bancada. Como recordará mais tarde, aquele foi um momento de grande emoção, particularmente porque – mais que adesão política de voluntário, a cuja causa “não era muito afeiçoado”, – o que de fato o movia naquela decisão de moço era no fundo a oportunidade de conhecer pessoalmente o jovem criador do “Gaetaninho”, que ele aprendera a admirar, ainda adolescente, na sua querida Guaratinguetá.

O encontro seria decisivo para a vida intelectual do futuro escritor, pois foi justamente através de Alcântara Machado que Chico se convenceu de sua vocação literária, a ponto de tornar-se um dos grandes estudiosos da obra de Alcântara. Este, por essa época exercendo no Rio atividades políticas que o acabariam elegendo deputado federal, dirigia então, a convite de Assis Chateaubriand (1892-1968), o jornal Diário da Noite, para o qual criara recentemente a seção “Literatura & Cia”, muito apreciada pelos leitores. Pois foi nessa coluna que se deu a “conversão literária” de Francisco de Assis Barbosa, mais precisamente, num concurso nela promovido para eleger “o príncipe dos escritores brasileiros”, em substituição a Coelho Neto, recentemente falecido. Chico, se lembra, quase comovido, do incentivo que recebeu de Alcântara Machado para inscrever-se no certame.

O episódio, que lhe valeu como estímulo, veio mostrar que ele não se enganara em relação às expectativas literárias implícitas na convivência, mesmo que temporária, com um dos grandes modernistas de São Paulo. Durante o tempo em que permaneceu colaborando com a Bancada Paulista, em geral à noite, após o expediente, não era raro que Alcântara Machado fosse visitado por alguns “monstros sagrados do modernismo”, que Chico pôde ver de perto em animada palestra com o narrador de Pathé-Baby (1926), gente como Manuel Bandeira (1886-1968), Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), Dante Milano (1899-1991) e tantos outros. Conversas, é bem verdade, de que não participava como seria o seu desejo, dado que Alcântara era um tipo “fechadão” e pouco disposto à expansão de sentimentos com quem não fosse da sua intimidade.

Hoje, a tantos anos de distância daquele primeiro contato, é possível recompor, na trajetória de Chico, a intensidade com que ele se valeu da aura de Alcântara Machado para ensaiar a sua própria identidade, na tentativa de fazer vingar os estímulos daquela “conversão” que desde então o destinava às letras.

Um de seus primeiros escritos sobre o contista da Pauliceia, derivado daqueles encontros, é um pequeno esboço que apareceu no ano seguinte, justamente na Revista Oficial dos Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Nele, desde logo fica claro o seu grau de adesão à prosa de Alcântara, para Chico o principal prosador do movimento modernista. Não que o sobrepusesse a um Mário de Andrade (1893-1945), por exemplo: a este, creditava – na linha de frente da ação de vanguarda – a projeção estratégica dos novos rumos da estética moderna. Alcântara Machado, menos abstrato, segundo ele, “agia direto e construía definitivamente, criando um estilo num sentido artístico”.

Sobre esse estilo, o jovem Assis Barbosa chega inclusive a tecer algumas impressões críticas, identificando, na prosa de Alcântara, a realidade inegável de um “escritor imediato”, de estilo “enxuto, sem superfluidades”. Este o fator que dava à sua prosa – nos diz ele – “o encanto [de um] fogo vivo que se oculta nos montões cor de ouro das cascas de arroz postas ao sol”. E adiante: “a sua técnica de prosador é importante não só pelo estilo como também pela introdução de um elemento diferente, o intaliano (sic), “novo mameluco”, que veio para ocupar o lugar “da surrada exploração do português e do mulato”.

Um dos efeitos dessa novidade é, a seu ver, a ausência da paisagem, que Chico estende para “toda a nossa literatura citadina”, sem no entanto se deter nas razões desse argumento. A observação, que pode parecer destituída de interesse, ganha importância exatamente porque, sem que o notasse, o alvo crítico de seu breve ensaio vai gradualmente se descolando das observações propriamente literárias para de algum modo enveredar pela originalidade histórica da obra de Alcântara Machado. É claro que não se definem aí as opções intelectuais do futuro historiador, biógrafo, jornalista, repórter de bastidores e cronista exemplar da nossa vida literária. Mas seria um erro deixar de registrar os indícios de algumas preferências que revelam, no espírito de Assis Barbosa, um interesse menos por elucidar a fisionomia literária de Alcântara Machado, do que por registrar a lucidez do historiador que ele foi.

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Basta notar que, ao endossar a opinião de Afrânio Peixoto (1876-1947) no “Prefácio” às cartas de José de Anchieta – onde o autor de Bugrinha (1922) revela o fascínio pela “sedutora personalidade do ladino padre jesuíta [...] como artista e como homem de inteligência jogado na brutalidade da colônia”, – ao endossar essa opinião, Chico não apenas se vale da imagem incontroversa desse abandono, como decide mergulhar, ele próprio, no destino incerto da missão arriscada do padre, ao “imaginar Anchieta (só pelo prazer de imaginar) nos vagares de sua vida atormentada entre uma confissão e um parto (já que até de parteiro ele serviu), transportando-se em pensamento para uma das casas europeias da Companhia, de douto convívio e excelente biblioteca, e depois afagando o seu amor às letras no desvelo pelos brasis”. Ou seja, é como se Chico, fascinado pelo tema pesquisado por Alcântara, entrasse na própria cena do abandono virtuoso a que se devotou Anchieta e partilhasse, ele mesmo, daquela vida desgarrada e cheia de incertezas.

É verdade que, louvado em Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), nos dirá mais tarde que os textos do Alcântara Machado jornalista e comentarista político, diferentemente do que ocorria com a sua prosa literária, não possuíam grande valor; mas ainda assim – assinala – eles se mostraram de extrema importância no combate “à funesta propagação do micróbio do integralismo”, com o que destacava a dimensão política da literatura, que – como veremos adiante – será uma das marcas mais visíveis de seu ideário crítico.

Mas não é tudo. Lembremos que um ano antes, certamente encorajado por aquele “incentivo” de Alcântara Machado, Chico publicara a novela Brasileiro tipo 7 (1934), repleta de tiradas modernistas, a começar pelo “Discurso inicial”, uma espécie de introdução sarcástica à Mário de Andrade, em que ele diz ao leitor que pouco lhe interessava se o livro estivesse bem ou mal escrito: o mais importante era que e o leitor “não o levasse a sério”.
De Retratos de família [2a. ed., revista e acrescida de três novos capítulos. Rio de Janeiro: José Olympio (1968)]: “Miguel Pereira visto por Lúcia Miguel-Pereira”; “Rui Barbosa visto pela esposa d. Maria Augusta e sua filha Maria Adélia” e “Sílvio Romero visto por Edgar e Nelson Romero”; “Joaquim Nabuco visto por Carolina Nabuco”; “Alphonsus de Guimaraens visto por João Alphonsus de Guimaraens”; “Mário de Andrade visto por Carlos de Morais Andrade”.

Machado de Assis em miniatura [São Paulo: Editora Melhoramentos (1957)].

De Achados do vento [Rio de Janeiro: MEC/INL (1958]: “Nacionalismo e política”; “Graciliano Ramos, aos cinquenta anos”; “Manuel Bandeira estudante do Colégio Pedro II”; “Lima Barreto precursor do romance social”; “José de Alencar, cronista do primeiro encilhamento”; “Domingos Caldas Barbosa, o poeta da viradeira”.

“Nota sobre António de Alcântara Machado” in António de Alcântara Machado. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro: José Olympio (1961), especialmente pp. 13-48.

A referência ao Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, é de 15 de setembro de 1956.

Antonio Arnoni Prado é Mestre (1975) e Doutor (1980) em Letras pela Universidade de São Paulo. Pós-doutor pela Fondazzione Gianjaccomo Feltrinelli (1986). Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

 
 
 
 
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