Nº 57 | maio / junho 2014
Focus

Centenário de Francisco de Assis Barbosa é celebrado no Museu Frei Galvão de Guaratinguetá-SP | Antonio Arnoni Prado

O Instituto de Estudos Valeparaibanos, o Jornal O Lince e o Museu Frei Galvão renderam homenagens, no auditório do Museu, ao escritor, pesquisador e jornalista guaratinguetaense Francisco de Assis Barbosa.

Se vivo, Chico Barbosa, como era tratado pelos mais próximos, teria completado 100 anos no último dia 14 de janeiro.

Francisco de Assis Barbosa foi agraciado com o título de "Cidadão das Letras", honraria in memorian ofertada pelo IEV e pelo jornal O Lince. Placa e mimo foram entregues por Thereza Maia, diretora do museu, para Yolanda Barbosa, esposa do homenageado que partilhou com seus familiares.

Conferência do Prof. Dr. José Carlos Sebe Bom Meihy remeteu a um artigo de sua autoria publicado no jornal Valeparaibano de 15-01-1992 e que aqui reproduzimos, com a permissão do autor:

"Apesar de antigo admirador de Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), conversei com ele pela primeira vez em 1982. Na época, o professor Robert Levine ministrava um curso sobre a Campanha Civilista, na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, e me convidara para uma conferência abordando aspectos da historiografia brasileira e da brasilianista. Chico de Assis, diretor da casa desde 1977, foi me buscar no aeroporto. Feita a conferência, arrisquei perguntar o que lhe pareciam meus pontos de vista, ao que respondeu que eram “ousados” e que não esperava outra coisa “afinal, somos de Guaratinguetá”. Não entendi bem o que significavam suas palavras, mas me contentei naquele momento.

Voltei ao Rio em 83 para terminar “Introdução ao Nacionalismo Acadêmico: Os Brasilianistas”, ed. Brasiliense, 1984, e nessa ocasião avistei-me com Chico visando seu polêmico e inaugu-ral texto de apresentação da obra de Thomas Skidmore, “De Getúlio a Castelo”. Foi uma conversa animada onde ele reclamava do abusivo fechamento da intelectualidade nacional em face da contribuição estrangeira sobre nós. Não faltou-lhe entusiasmo para motivar-me à conclusão do texto e repetiu: “Seja valente afinal, somos de Guaratinguetá”.

Um ano depois recebi uma carta onde dizia: “Sebe, mande-me uma cópia de sua tese de livre-docência “Vale de lágrimas, história da pobreza em Taubaté. Finalmente alguém começa a pensar o Vale sem o pastiche rotineiro”. Inseguro, fiz uma cópia e meses depois recebi um desconcertante bilhete: “Li o seu texto, gostei da pesquisa, mas sugiro que refaça o texto para publicar”. Levei a sério e ainda hoje aguardo a oportunidade para redigir novamente esta tese.

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Em 88, estive com ele numa sessão que homenageava a obra do professor Sérgio Buarque de Holanda, amigo prezado do velho Chico. Conversamos animadamente durante um jantar inteiro sobre questões afeitas a ser acadêmico “fora do lugar”. Foi um dos encontros mais intensos de minha carreira. O Vale e a inviabilidade de ser intelectual “na terra” era o tema central da conversa. Reclamamos muito, ficamos nostálgicos e como seria inevitável, cruzamos mágoas, fundimos frustrações e amalgamamos esperanças de dias mais cultos para a nossa maltratada plaga. Ao fim da conversa, despediu-se dizendo “estamos ligados definitivamente, afinal, somos de Guaratinguetá”.

Em 89 recebi um chamado telefônico. Era o velho Chico: “Sebe, li seu texto sobre a campanha da vacina (escrito em parceria com Cláudio Bertolli Filho e publicado pelo Cedhal, em 1989), gostei muito da abordagem e a redação está ótima”. Fiquei mudo. Ter agradado o crítico conterrâneo era sinal que havia amadurecido em termos de escrita.

Em novembro último, um colega telefonou-me anunciando a morte do guaratinguetaense. Deixei-me sentar e articulei alguma explicação capaz de consolo: ironia ele morrer em São Paulo, justamente em São Paulo que ele tanto gostava apesar de viver no Rio de Janeiro, próximo à universidade e respeitado pelos pares. Pensando nas lições do mestre, ouvi suas palavras dirigidas a nossa causa comum: “afinal, somos de Guaratinguetá”, talvez agora entenda um pouco melhor o que ele queria dizer.

Para ler o texto completo, baixe a versão em pdf clicando na imagem abaixo.

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Antonio Arnoni Prado é Mestre (1975) e Doutor (1980) em Letras pela Universidade de São Paulo. Pós-doutor pela Fondazzione Gianjaccomo Feltrinelli (1986). Atualmente é professor titular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

 
 
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