Nº 57 | maio / junho 2014
Editorial

Novos ébrios | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Inebriados de tecnologia, vivemos, senso comum e ciência, um novo período de encantamento com a virtualidade. A ciência triunfante do século XIX alcança, pouco mais de século e meio depois, seu mais elevado estágio de interferência na vida do homem médio.

Acopladas às tecnologias “pesadas” da produção seriada de bens de consumo “duráveis”, as novas tecnologias, postas como “inteligentes” (o que não faz o marketing!) atingem-nos por completo impondo a necessidade de melhor conhecermos os seus impactos na formação da inteligência e da personalidade humanas.

Sobre os limites desta razão instrumental, pragmática, inspirada pela utilização imponderada da técnica já alertavam, na década de 1920, os frankfurtianos do Instituto para Pesquisa Social. Entrementes, tal uso só se fez acentuar. Não se trata, evidentemente, de negar a tecnologia, embora parte dela se coloque no âmbito da superfluidade, mas de repensar seu uso sob a ótica de uma razão crítica capaz, mais que perceber, de estabelecer seus limites. Não se trata de questionar a técnica em si, mas o modo como nos relacionamos com ela. É à cultura embutida e trazida pela tecnologia que devemos nos voltar, o que exige, especialmente nos países educacionalmente seduzidos pela cultura do consumo, repensar os sistemas educativos em suas diferentes esferas de realização.

Hoje, crianças, jovens e não tão jovens estão seduzidos pelos note, net e ultrabooks, pelos aparelhos celulares e seus mais exdrúxulos aplicativos, pelos canais de TV pagos, cada vez mais parecidos com os canais de TV abertos, enfim, não há quem questione que instaurou-se um novo modo de sermos humanos a partir da exacerbação, pela maioria, do uso nada criterioso de recursos de alto poder transformador.

Inseridos neste contexto, incipientes são os estudos que buscam compreender as alterações provocadas pelo uso desmedido da tecnologia. Aliás, mal se sabe qual é a medida que permitiria falar em desmedida. Há uma noção intuitiva de que há excesso e de que isso não é bom. Julgamento de valor. Fato é que pouco sabemos dos efeitos provocados em nossa psiquê enquanto combinação de inteligência, mente, emoção e ação.
Não temos ainda respostas mínimas para questões elementares como: qual o impacto do uso das tecnologias da informação e comunicação, nas mais diferentes idades, no desenvolvimento da inteligência? Se existe um uso inteligente dessas tecnologias, qual seria? Uma criança que faz intenso uso dessas ferramentas deixaria de desenvolver certas capacidades de pensamento? E que outras desenvolveria e de que modo? É possível um desenvolvimento moral com o uso intenso dessas tecnologias? Se sim, que tipo de moralidade é desenvolvida? De que modo o uso cotidiano da tecnologia nos transforma? Ou será que apenas nos amplia? E o tempo livre decorrente das facilidades criadas, como são dedicados?

Há pesquisas de grande monta a desenvolver. Piaget e colaboradores são bom exemplo de vida dedicada à pesquisa dos fundamentos epistêmicos e morais de nossa individualidade. No entanto, o quadro em que pensou era outro. A sociedade high-tech ainda não havia sido instituída. E como a ciência é um pensar sobre o existente, tais questões sequer foram ventiladas e hoje carecemos de novas sistematizações, embora a pós-modernidade as rejeite.

Enquanto isso, tempo passará até que a ciência e o senso comum compreendam o impacto da tecnologia sobre nossas vidas. Por ora, encantados, vibramos com cada novo aparelho, aplicativo ou software que nos embalam em um mundo de potencialidades virtuais que criam um novo sentido de realidade e de existência.

Não se pode pensar o mundo sem a técnica, sem dúvida, mas o que vemos são pessoas vivendo as virtualidades produzidas sem pensar, o que leva a crer (e que seja apenas uma crença) que a tecnologia da informação deverá publicar seus efeitos mais nefastos, se é que serão percebidos como tais, antes que seja analisada com a acurácia necessária.

E aqui a urgência de se repensar nossos modelos educativos – se é que conseguiremos o distanciamento necessário para isso – para redimensioná-los em torno de uma razão crítica capaz de orientar uma nova pedagogia pautada pela capacidade de pensar e de agir a partir de um forte desejo prévio de compreensão. Nunca como agora, a pedagogia precisa se fazer ciência.
 
 
 
 
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