Nº 55 | janeiro / fevereiro 2014
Memória

Funeral do Presidente Rodrigues Alves em registro fotográfico da Revista Fon-Fon | Da Redação

No dia 16 de janeiro de 1919, há 95 anos, falecia, aos 70 anos, após contrair gripe espanhola, o então Presidente da República eleito Francisco de Paula Rodrigues Alves

O cronista e crítico literário Brito Broca assistiu ao cortejo fúnebre e o registrou em suas Memórias, referindo-se ao acontecimento como um dia que abalou Guaratinguetá:

"Logo depois, aquela manhã úmida e meio chuvosa, em que o sol custou muito a aparecer. Levantei-me às pressas, quando soube que o trem especial, trazendo o corpo do Conselheiro, já estava chegando à estação. Na rua, ia um grande movimento. Do largo da Matriz pude apreciar toda a grandiosidade do espetáculo fúnebre, que não parecia, no entanto, infundir nenhuma tristeza. Da estação até o largo formava a Guarda Civil de São Paulo em uniforme de gala: azul, cinto branco, luvas e o capacete semelhante ao dos guardas de trânsito ingleses, com penacho branco. O enterro aproximava-se lentamente da igreja onde devia ser rezada a missa de corpo presente. O som dos pistões, ao compasso da marcha fúnebre, feria o ar da manhã. E davam mais a impressão de um hino as notas estridentes daqueles instrumentos. Quando o povo começou a precipitar-se para dentro da igreja, reconheci o vulto de Lauro Müller, de sobrecasaca e guarda-chuva, ao lado de Rodolfo Miranda, de fraque. O grande ministro de Rodrigues Alves perguntava ao senador paulista, indicando a residência para onde se encaminhavam:

– De quem é essa casa?
– De Virgílio Rodrigues Alves – respondia Rodolfo Miranda.

E ali, no velho casarão da esquina do Largo da Matriz, desapareceram ambos, enquanto na igreja tinha início a missa.

Dentro de uns quarenta minutos, o enterro saía em direção ao cemitério. Fomos, eu e minha mãe, à casa de D. Madalena, assistir-lhe a passagem, da janela, com todo conforto. Muita gente, porém, querendo tirar melhor partido do espetáculo único na vida da cidade, depois de ver o enterro numa esquina, corria a vê-lo mais adiante. Ficamos longo tempo à espera de que chegasse onde nos encontrávamos, porque a urna, muito pesada e carregada à mão, impunha um ritmo excessivamente vagaroso ao desfile e constantes paradas para o revezamento dos que disputavam a honra de conduzi-la. Finalmente, penetrou na Rua Monsenhor João Filippo aquela massa enorme de gente, estacionando de dois em dois minutos. Bem atrás da urna, coberta com a bandeira nacional, o vulto ereto de Altino Arantes, então presidente do Estado e criatura de Rodrigues Alves, pelas mãos do qual subira ao posto. O rosto fino, de acentuado prognatismo, tornava-o inconfundível, no meio da multidão. Ao lado, o Núncio Apostólico, D. Ângelo Scapardini, de solidéu vermelho, militares de dragona, figurões da política, gente célebre, que procurávamos identificar pelas lembranças dos retratos nos jornais.

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Foi, em suma, um grande dia em Guaratinguetá. E minha mãe que tinha horror a enterros e ficava profundamente nervosa, quando acontecia vê-los, passara a dizer mais tarde:

"Ah! Enterro bonito como o do Rodrigues Alves, isto sim, não impressiona a gente."
Rodrigues Alves faleceu em sua residência, na rua Senador Vergueiro, no bairro do Flamengo-RJ, antes de tomar posse para o exercício de seu segundo mandato presidencial.

Seu corpo, embalsamado, foi velado no Palácio do Catete-RJ e, em seguida, transportado para sua terra natal.

Os funerais na Capital Federal e em Guaratinguetá receberam a cobertura fotográfica de uma das mais importantes revistas da época: a Revista Fon-Fon.

A edição n0 4 (a numeração era reiniciada a cada ano), de 19 de janeiro de 1919, traz imagens históricas das cerimônias que antecederam a inumação deste vale-paraibano que foi uma das mais importantes figuras políticas do final do Império e início da República no Brasil.

O Lince publica algumas destas fotos juntamente com um texto de Brito Broca que lembra, com certos detalhes, o funeral em Guaratinguetá-SP.

Abaixo, uma breve cronologia da carreira política de Rodrigues Alves:
Vereador em Guaratinguetá (1866-1870)
Deputado Provincial de São Paulo (1872-1884)
Deputado Geral (1885-1887)
Presidente da Província de São Paulo (1887-1888)
Conselheiro do Império (1888)
Deputado Federal Constituinte (1891-1893)
Senador da República (1893-1899)
Ministro da Fazenda (1891-1892 e 1894-1896)
Presidente de São Paulo (1900-1902 e 1912-1916)
Presidente da República (1902-1906)
 
 
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