Nº 55 | janeiro / fevereiro 2014
Letras Valeparaibanas

Província de São Paulo
Pindamonhangaba | Augusto Emílio Zaluar

De Pindamonhangaba à cidade de Taubaté vão três léguas de caminho.

Fiz esta deliciosa jornada em companhia dos meus distintos amigos os Srs. Dr. juiz de direito da comarca, Marcelino Gonzaga, e do Dr. Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo, tendo ocasião de apreciar em tão estimável companhia as imensas campinas que se abriam diante de nossos passos, douradas pela vermelhidão do ocaso, oferecendo-nos a esta hora um dos quadros mais soberbos que se podem desenhar à imaginação de um artista.

Os últimos raios do sol tropical, inundando a atmosfera de vagos lampejos de luz melancólica, casavam-se ao doce e meio clarão da lua, que em plenitude se erguia esplêndida no azul imaculado do firmamento.

Nem uma nuvem, um ponto, uma mancha se descobria no horizonte, onde apenas refulgia tímida, dali a pouco, uma ou outra estrela solitária!

Que poética tristeza a dessa hora tão santa! A última despedida do dia que se reclina voluptuoso e mórbido, depois de seu triunfante e vitorioso giro, nos braços lânguidos da rainha da noite, é como uma canção amorosa que o guerreiro feliz murmura aos pés de uma formosa amante! É um hino de sentir e de esperança, de harmonia e de amor, que vibra em nossa alma, que repercute em sensações dulcíssimas nas fibras mais íntimas do coração, e nos traz à memória a lembrança dos que nos são queridos, e aos olhos as lágrimas involuntárias de profunda e indizível saudade!

Nunca vi um tão maravilhoso efeito de luz! Era um crepúsculo de trêmulas oscilações, um ambiente onde se destacavam dentre as ondas de pó luminoso faíscas mais vivas e cintilante, que se cruzavam no ar e faziam vacilar a vista, como nos mundos vaporosos das criações de Milton.

E por tôda a parte o deserto, o êrmo, a solidão! Nós éramos os únicos viventes no meio desta natureza tranquila e majestosa. À direita, no extremo do horizonte, o vulto imenso e anfractuoso da serra da Mantiqueira, escuro e sombrio, a seguir-nos e acompanhar-nos por tôda as circunvoluções da estrada, que mais é um trilho rasgado entre a relva macilenta da planície, destacando-se imponente no fundo magnífico de um céu ainda inflamado! Em frente de nós e sôbre nossas cabeças o infinito, o espaço; e o caminho a descortinar-se, desenrolando-se ora em campinas rasas, ora em cômoros desiguais, como as vagas do oceano quando arquejam fatigadas depois dos arrancos da procela e se começam a espreguiçar no primeiro sono da bonança!

Oh! como é triste a esta hora o silêncio do descampado! Nem o rumor do arvoredo, porque as florestas ficam distantes, nem o trinar das aves da espessura, nem o éco longínquo da povoação agitada, nem ao menos as vozes dos sinos, que são o espírito da vida vibrando no ar e confundindo-se às sensações da alma, ao sentimento religioso, que se despertam neste momento mais poderoso, nada disto se ouvia em tôrno de nós, e apenas as passadas de nossos animais e o som de nossas palavras interrompiam o sossêgo letárgico da natureza calma, porém grandiosa e solene.

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O meu amigo Dr. Homem de Melo deixou-nos em pouco menos de metade do caminho e regressou a Pindamonhangaba.

Nós continuamos a nossa marcha, e já era bastante noite quando começamos a ver as primeiras casas de pobríssimo aspecto que se estendem pela beira da estrada ao entrar em Taubaté, e que, é forçoso confessar, bem mostram a miséria de seus tristes habitantes.

Algumas velhas casinhas de caipiras e choupanas de mendigos formam êsse prolongamento da cidade, que lá mais adiante contém talvez uma das povoações mais numerosas e compactas de quantas vimos bordar o comprido trajeto do norte da província.

Taubaté é uma cidade grande, populosa, ativa, porém triste e pesada, como tôdas as povoações fundadas sob a influência do espírito monástico.

Ruas muito compridas, adornadas de um e outro lado por casas de aspecto sombrio e de uma regularidade monótona, são cortadas por outras tantas vielas onde as construções arquitetônicas não se afastam, por via de regra, da forma estabelecida, e vão em praças em que domina o mesmo estilo, tendo apenas estas a diferença de se observar nelas alguns templos dignos de atenção pela sua vetusta e religiosa grandeza.

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Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
 
 
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