Nº 55 | janeiro / fevereiro 2014
Focus

Correio Paulista - Cem anos de jornalismo | Thereza Regina de Camargo Maia

Ressaltam os estudiosos a importância da análise, estudo e conhecimento dos jornais, “como uma especialização nova na investigação sociológica da história e do desenvolvimento social e cultural da gente brasileira”1. Nesse campo, Guaratinguetá é uma cidade que pode se orgulhar de uma tradição jornalística. Somente durante o Segundo Reinado aqui foram relacionados 51 jornais regularmente impressos. Muitos outros surgiram durante a Primeira República, todos eles estando a merecer um estudo mais minucioso. Fato mais notável, para conhecimento e análise, é quando um jornal tem a permanência de um século como é o caso do Correio Paulista, cujo título inicial data de 9 de setembro de 1934. Embora o nome Correio Paulista se inaugurasse nessa data, seu primeiro número receberia a numeração 1.179, e já se encontrava no vigésimo ano de existência.

Esse fato significa que o recém-criado Correio Paulista – orgam do Partido Constitucionalista – vinha substituir o “antigo Correio Popular – orgam dedicado aos interesses locaes”, mas que havia sido, por longos anos, devotado a uma das duas facções locais do Partido Republicano Paulista e, apesar da nova orientação política, que já estava presente na última fase do próprio Correio Popular fundado em 1914 e do novo título, o seu redator e futuro proprietário continuaria sendo o jornalista Adolpho de Paula e Silva, que permaneceria por longos anos na difícil manutenção desse semanário, numa vida inteiramente dedicada ao jornalismo, em missão insigne e honrosa que seria continuada por seu filho José de Castro e Silva, que somente no ano de 1982 passaria o jornal a seu atual proprietário Helio Naideg2.

Em seu primeiro número, o Correio Paulista estampava à primeira página a seguinte explicação:

“Em continuação ao Correio Popular, circula hoje o primeiro número do Correio Paulista, continuando também a defender os ideais do Partido Constitucionalista, cujo programa visa, por excelência, a grandeza sempre crescente do nosso Estado, somente possível com o extermínio integral da nefasta seita perrepista. E contando com significativo apoio dos nossos distintos assygnantes, illustres correligionários, e do povo, estamos dispostos à lucta, confiantes na victoria do pujante Partido Constitucionalista, para o bem de São Paulo e felicidade do Brasil”.

Não foi surpresa na cidade a mudança do título do jornal, pois o último número do Correio Popular, datado de 2 de setembro de 1934, já anunciava o fato, preocupando-se em informar que “os srs. Assygnantes que pagaram suas assygnaturas até 31 de dezembro continuarão recebendo o jornal até essa data”.

O Partido Constitucionalista, “com alistamento eleitoral fora do comum”, estava com “diretório consolidado na cidade em setembro de 1934”, tendo como apoio propagandístico o Correio Paulista e seus comentaristas políticos, entre os quais se destacava Vieira Rodrigues. Outros artigos não eram assinados, embora fossem da orientação do secretário do diretório e um dos fundadores locais do Partido Constitucionalista, Dr. Gastão de Meirelles França. Havia também cartas abertas, muito em uso na época.

Mas nem só de política trataria o jornal, que se tornou precioso documentário da vida social, religiosa, cultural, judiciária, escolar, esportiva, comercial, industrial e propagandística, cuidando de assuntos e informações os mais diversos sobre a cidade e a região. Já no primeiro número anotamos que, para uma dúzia de artigos e notícias políticas, há duas dezenas de notícias diversas, além da propaganda comercial e das seções fixas, como Governo do Município e Chronica Social, registrando os nascimentos, aniversários, hóspedes e viajantes ilustres na cidade, além dos falecimentos na semana.

Na terceira e quarta páginas desse primeiro número, encontram-se interessantes propagandas comerciais, anúncios de profissionais liberais da “advocacia em geral”, da medicina e outras profissões, e ainda, medicamentos, farmácias, papelarias, sabonetes, elixires e loções para cabelos brancos, ou ainda remédios contra “baratinhas miúdas e formiguinhas”. Essas propagandas, e especialmente os seus clichês, estão a merecer um estudo mais detido.

A vida religiosa está presente no Correio Paulista de 9 de setembro de 1934, com a “festa annual de Santa Therezinha promovida pela Irmandade da Santa de Liege” e com as tradicionais “festividades commemorativas à coroação de Nossa Senhora Apparecida já realizadas com grande concorrência na vizinha cidade”.

Quanto à vida cultural, o mesmo número registra a entrega de diplomas “às alunnas recém-formadas pelo Instituto Artístico Brasileiro – escola de corte e costura”, na sede da Associação dos Empregados no Comércio, a “annunciada conferência literária do sr. Professor Paulo de Noronha, gentilmente convidado pelos estudiosos de Guaratinguetá, a realizar-se no Clube Literário” e a festa litero-musical no salão nobre da Prefeitura, “promovida por um grupo de intellectuaes onde todas as partes do programa dizem qualquer coisa a respeito do immortal poeta Castro Alves”, festa para a qual “haverá convites especiais” – eventos estes que, descritos com minúcias, vêm atestar a intensa atividade cultural em Guaratinguetá nos anos trinta. Na mesma segunda página, noticia-se a aposentadoria compulsória de dois “assíduos funcionários da Escola Normal desta cidade” e a abertura de matrículas no Ginásio e Escola Normal de Cruzeiro, “modelar estabelecimento de ensino montado com todos os requisitos pedagógicos”.

Em um século de Correio Paulista, o jornal teve inúmeros colaboradores, muitos deles de grande destaque na literatura, na política e nas artes, sem contar o imenso número de observadores do dia a dia da vida da cidade e de sua política, especialmente na época em que o Correio Paulista deu apoio ao Partido Social Progressista, nos anos quarenta e cinquenta.

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Comparando-se seu número inaugural, o primeiro com o título Correio Paulista, de número 1.179, com um jornal cinquenta anos depois, já próximo do número 3.470, vemos que o Correio Paulista permanecia com quatro a seis páginas semanais, com pequena alteração em suas dimensões. Inicialmente tinha 37cm x 51cm, e, depois de 50 anos, estava com 33,5cm x 48cm, tendo sua impressão deixado de ser feita na antiga máquina Marinone-Paris, de tipos avulsos, igual à do centenário jornal “Tribuna do Norte”, de Pindamonhangaba.

A redação do Correio Paulista, que passou por diversos endereços como rua Quinze de Novembro (atual Pedro Marcondes), praça Conselheiro Rodrigues Alves, rua Pedro Marcondes, rua Feijó, rua Marechal Deodoro n. 60, rua Flamínio Lessa n. 140, Praça Martim Afonso n. 262, acha-se hoje à Praça Santa Rita n. , onde é impresso. Circula aos sábados, e não aos domingos como inicialmente e mesmo posteriormente. No final dos anos trinta, deixando de ser “orgam do Partido Constitucionalista”, passou a ser “orgam dedicado aos interesses do município”, com uma tiragem média semanal de 500 exemplares.

Em 1984, o Correio Paulista foi homenageado, no Dia da Imprensa, na pessoa do Sr. José Castro e Silva, pelo Departamento Municipal de Cultura, constando ainda da homenagem uma mostra retrospectiva do jornal organizada com o acervo do Arquivo Memória de Guaratinguetá do Museu Frei Galvão.

Comemoram-se assim 100 anos de jornalismo dentro da história da imprensa de Guaratinguetá, iniciada no ano de 1858, com a publicação do jornal “O Mosaico”.

Notas

1 Freyre, Gilberto. Retalhos de jornais velhos. Livraria José Olympio Editora. Rio de Janeiro, 1964, p. 109.
2 Sob esta nova direção o primeiro número a sair data de 8 de setembro de 1982, onde à primeira página o jornalista Júlio César evoca o idealismo que sempre norteou as vidas de Adolpho de Paula e Silva e de José de Castro e Silva e saúda o novo proprietário do Correio Paulista. Esse jornal é o número 3.636 do ano LXVIII de publicação do semanário.

Fontes

Coleção de jornais “Correio Popular” e “Correio Paulista” do Arquivo Memória de Guaratinguetá do Museu Frei Galvão (1934 a 1984)
Correio Paulista. 09 de setembro de 1934. 1a página.
Correio Popular. 02 de setembro de 1934. 3a página.
Freire, Gilberto. Retalhos de jornais velhos. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1964.
Marcondes, Carlos e Fortes, Francisco. História da Imprensa de Guaratinguetá, 1a edição, 1973.
Penteado, José Roberto Whitaker. A propaganda antiga. São Paulo, Livraria Pioneira Editora, 1974.
Hélio Naideg
Nascido na cidade paulista de Rio Claro-SP, Hélio Naideg mudou-se, com os pais João Naideg e Maria Luiza Naideg, para Guaratinguetá-SP, em 1957, aos 11 anos de idade.

Logo em seguida, aos doze anos, foi iniciado no ofício de tipógrafo – como se dizia à época – pelo poeta e jornalista Ferreira Júnior.

Aos 18 anos, em 1964, montou sua própria oficina chamada Gráfica Editora localizada na Praça Três Garças, onde permaneceu por 40 anos até mudar para o atual endereço, em 2004, na Praça Santa Rita, 15.

Há mais de 55 anos na profissão, Hélio Naideg já imprimiu jornais e revistas para inúmeras cidades de região.

Desde 7 de setembro de 1982 é proprietário do Correio Paulista, que faz circular semanal e ininterruptamente, às sextas-feiras.

No formato 25x35cm, o semanário tem tiragem de 1.500 exemplares e seis a oito páginas rodadas em sua impressora Hamada 800, de 1996.

Naideg que, entre outras coisas, já foi jogador de futebol da Esportiva e do Sertãozinho, Presidente da Escola de Samba Democratas (1988) e Presidente da Associação dos Amigos do Bairro de Santa Rita, é merecedor das maiores homenagens por ter conduzido o Correio Paulista por 32 anos e permitido que este jornal sobrevivesse ao centenário de sua fundação.

Thereza Regina de Camargo Maia é historiadora, folclorista e diretora do Museu Frei Galvão.

 
 
 
 
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