Nº 55 | janeiro / fevereiro 2014
Focus

Cine Clube de Lorena 50 anos divulgando a sétima arte | Olga Arantes

“O cinema era a gruta dos Mistérios iniciáticos para minha geração. Ao nos transportar a um estado semi-hipnótico, o cinema nos iniciava em uma vida superior, mágica, sublime. Ele nos projetava na Antiguidade, nas Cruzadas, nas guerras do passado, no submundo do crime, na África das explorações ao som dos tambores, na Ásia das salas de jogo e dos amoks, nas tragédias amorosas, no adultério, no amor. Ainda que fantasmagóricas, as imagens da tela davam vida a seres hiper-reais.” Morin (1997, p.16)

O cineclubismo foi uma das principais marcas do movimento cultural universitário dos anos 60 e nesta época eu cursava a escola das irmãs salesiana de Lorena.

Tudo começou em 15 de setembro de 1964, em uma iniciativa de Ir. Iracema Noemia Farina em ter como suporte às suas aulas teóricas com os alunos da faculdade, projeções e debates de filmes com a finalidade de difundir a arte e a cultura cinematográfica aos alunos e à comunidade interessada. Na época também funcionava como um espaço para integração e exercício da cidadania dos estudantes.

Ao lado da dinâmica professora, a iniciativa contou com um grupo de aproximadamente cinquenta alunas e durante quatorze anos Ir. Iracema foi membro representante do corpo docente e Presidente do Cine Clube ao lado de diretorias executivas formadas por alunos da Faculdade. De 1967 a 1968 atuei como tesoureira da entidade e depois assumi como diretora do Cine Clube.

Paralelo à criação do Cine Clube que teve sua publicação no D.O. do Estado, em 27 de abril de 1965, pág. 91, 3ª coluna, nascia um movimento de Cine Fórum para as alunas normalistas do Instituto Santa Teresa, convidadas também para frequentar as sessões do Cine Clube.

Durante a ditadura militar, os diretórios acadêmicos estavam fechados. Por isso, os cineclubes foram o meio possível para estudantes e setores da sociedade discutirem a realidade do país. O cineclubismo foi, sem dúvida, uma das principais marcas do movimento cultural universitário dos anos 60.

“Com as cassações, censura, repressão aos partidos, imprensa e organismos representativos da sociedade civil, a cultura teria seu papel revalorizado pelos grupos de oposição, servindo como ponto de contato entre aqueles agrupamentos políticos colocados na ilegalidade e a população civil. Buscando comunicar-se com um público que já não podia ser mais alcançado pelas vias políticas tradicionais, artistas independentes, ou ligados a grupos organizados de oposição, procurariam driblar a censura e a repressão promovida pela ditadura militar transmitindo suas mensagens de forma explícita, através do cinema, da música e do teatro”. (Almeida, p.1996)

No início as sessões aconteciam no Auditório do Colégio São Joaquim, uma vez que as Irmãs Salesianas, Filhas de Maria Auxiliadora eram as responsáveis pela sub-sede da Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena. Posteriormente as sessões passaram a acontecer nos cinemas da cidade: Cine Rex e depois Nosso Cinema. Além dos estudantes e professores as sessões eram abertas a toda comunidade de Lorena e região; e assim o Cine Clube foi reconhecido como Serviço de Utilidade Pública do município.

Em 1982, o Cine Clube de Lorena foi registrado na Embrafilme, sob o número 157.

Em 1995, o Cine Clube passou a funcionar dentro da FATEA – Faculdades Integradas Teresa D’Ávila como unidade colaboradora do Centro Cultural Teresa D’Ávila, exibindo, semanalmente, suas sessões no telão do Auditório São José, com entrada franca e com o mesmo espírito de suporte às aulas teóricas de Linguagem Cinematográfica.

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Nesta época, eu ministrava cursos na área de cinema como professora da FATEA e o Cine Clube continuava como um espaço privilegiado de manifestação e formação cultural, literalmente um espaço alternativo de aprendizagem.

Atualmente dois projetos são realizados no mês de outubro: Cinema Criança (em sua 18ª edição) destinado à exibição de filmes infantis para as crianças da rede pública e privada de Lorena e cidades vizinhas e Festival Gato Preto (em sua 9ª edição) festival amador de animações, mini curtas, curtas e documentários. O CINEFEST/ Lorena – Prêmio Gato Preto já trouxe para Lorena, grandes nomes como a diretora de cinema Suzana Amaral e o grande montador Mauro Alice.

Cabe ressaltar que o Cine Clube conta com o apoio incondicional da Fatea, nas verbas para a premiação do Gato Preto e no sonho “quixotiniano” de transformar Lorena numa cidade cinéfila, amiga do cinema, e no desejo de “solenizar” os 50 anos, em 2014.

O Cine Clube garante o acesso à comunidade acadêmica, comunidade do entorno da escola e também das cidades vizinhas, e com ou sem salas de exibição de cinema na cidade, com ou sem patrocínio e incentivos públicos, com ou sem divulgação do trabalho realizado, continua ininterruptamente, presente e atuante na história da vida da faculdade e dos lorenenses.

As sessões do Cine Clube acontecem todas às sextas - feiras às 19 horas, no auditório, Clarice Lispector, da FATEA, durante o período escolar. A entrada é franca e junto com uma ficha sobre o filme, o espectador, participa de um “bate papo”, e entra em contato com imagens, ideias, visão de mundo, diversidade cultural, narrativas, reais e ficcionais.

Prestes a completar 50 anos de atividades como diretora do Cine Clube, continuo acreditando nas palavras inspiradoras da precursora, Ir. Iracema, "um bom filme é uma síntese de tudo aquilo que é sonho, realidade e utopia".

Olga Aparecida Arantes Pereira é Mestre em Educação, diretora do Cine Clube de Lorena, autora do livro A imagem na sala de aula: um novo olhar e titular da Academia de Letras de Lorena.

 
 
 
 
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