Nº 55 | janeiro / fevereiro 2014
Artes

Museu Casa da Xilogravura
Arte e História em Campos do Jordão | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

"Algo de belo é uma alegria para sempre". John Keats (1795-1821)

Adentrar em um museu significa transportar-se intelectual, sensorial e, por vezes, emocionalmente, a universos de significações distintas no espaço e no tempo. Estar em um museu é permitir-se estabelecer um diálogo silencioso com objetos que falam pelo que representam. É, no silêncio da observação, encontrar pontos de ancoragem para que aprendamos sobre nós mesmos olhando para o outro. Neste sentido, exceção feita aos museus de ciências naturais, não há museu que não seja histórico bem como não o há sem que seja expressão de uma cultura determinada.

Dentre os vários, mas ainda poucos, museus existentes na região, o Vale do Paraíba é uma região privilegiada por abrigar, em sua porção serrana, o único museu brasileiro especializado em gravuras obtidas através da arte da impressão por pressão de uma matriz sobre uma folha de papel ou outro suporte: o Museu Casa da Xilogravura.

Nascido da dedicação por mais de trinta anos de um amante desta arte, a Casa da Xilogravura reúne um respeitável acervo de gravuras adquiridas em diferentes estados brasileiros e diversos países do mundo.

Hoje, são mais de 5.000 gravuras de mais de 600 artistas de várias regiões do planeta. Parte deste acervo está exposta na antiga casa, construída em 1928, por Floriano Rodrigues Pinheiro, e que, antes de se tornar museu, abrigou um mosteiro fundado por quatro monjas beneditinas de origem dinamarquesa.

Com esmerada organização didática, as trinta salas que compõem a Casa da Xilogravura permitem um educativo e agradável passeio histórico, estético e técnico pelo mundo das artes gráficas em geral e pela arte da xilogravura em particular. Tamanho cuidado se justifica pela constatação de que, mesmo atualmente, conforme levantamento feito pela administração do museu, somente uma em cada trinta pessoas que visitam o local sabe, com segurança, o que é uma xilogravura.

Assim, as salas estão dispostas de modo a conduzir o visitante a um objetivo muito bem definido: o de conhecer a história das gravuras em seus aspectos utilitário e artístico, bem como, sob a perspectiva estética, conhecer diferentes escolas existentes em diferentes partes do globo.

Nos diversos espaços do museu, adaptados ou anexados ao prédio original, é possível, além de xilogravuras, apreciar outras técnicas de impressão com matriz em relevo tais como: o linóleo, a tipografia, o clichê metálico, a linotipo e a flexografia. Quanto às técnicas de impressão com matriz a entalhe são encontradas calcogravuras (gravuras em metais) e rotogravuras (impressão rotativa). A litogravura e a offset representam a impressão de matriz plana, e a permeação, também presente, inclui estampo, serigrafia, estamparia rotativa de chitas etc.

A riqueza do acervo se amplia em uma tipografia completa instalada no interior do casa e sua presença se justifica por ser a tipografia considerada a primeira “filha da xilogravura” e, na opinião do idealizador e diretor do museu, tão ou mais importante que as gravuras de Oswaldo Goeldi ou Lasar Segall.

Um capítulo especial deste “livro pra se ver” que é o Museu Casa da Xilogravura está na sessão destinada aos folhetos de cordel onde se encontram trabalhos de verdadeiros mestres da xilogravura popular no Brasil.

A impressão offset e a litografia, sua tributária, também encontram lugar neste envolvente museu que pode nos deter por horas e despercebidos do tempo que escoa. Principalmente se nos dermos a conhecer um pouco ma-is da história de sua própria origem e de como seu acervo foi reunido.

Inaugurada durante a temporada de inverno de 1987, a Casa da Xilogravura de Campos do Jordão mereceu “generoso noticiário” da imprensa escrita de São Paulo e de outros estados. O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Diário Popular, Folha da Tarde, Notícias Populares, Shopping News, Família Cristã, Diário do Grande ABC, além do jornal baiano A Tarde, do capixaba Gazeta de Vitória, do maranhense O Estado do Maranhão, do paranaense Jornal do Estado e do pernambucano Diário de Pernambuco informaram a inauguração ocorrida no dia 17 de julho.

Inicialmente, o museu reunia o acervo pessoal de seu idealizador e ocupava apenas três cômodos da casa que o mesmo havia comprado, dez anos antes, para ser sua residência. Ficava aberto ao público aos sábados, das 14 às 17 horas, e aos domingos, das 9 às 12 horas. O interesse do público e o estímulo de amigos, visitantes e jornalistas fizeram com que o museu se ampliasse e, aos poucos, exigisse outros cômodos da casa até tomá-la por inteiro.

À medida em que a Casa da Xilogravura crescia – e cresce – outras exigências se impuseram – e se impõem – para que sua gestão a torne cada vez mais eficiente na produção dos resultados pretendidos: organização e exposição do acervo, adequação dos ambientes, qualificação técnica de pessoal, promoção de eventos, política de relacionamento com a comunidade e outras necessidades.

Atualmente, gestores e funcionários ocupam-se com o conteúdo do museu que, após completados seus 25 anos de existência, está perto de alcançar a maturidade institucional planejando suas ações “com o objetivo de enquadrar a Casa da Xilogravura em sua melhor e mais eficiente feição museológica”.

Para tanto, um Plano Museológico tem sido o guia e sua sustentação se encontra em quatro pilares: a gestão do acervo, ações de divulgação, ações educativas e ações de relacionamento.

Certamente que o plano não dispensa as ações já realizadas pelo museu. Cursos, palestras, oficinas, vernissages, mostras temporárias, xilo-boletins, manutenção e atualização do site, etc continuarão a ser realizadas.

Tudo isso e muito mais, entretanto, jamais seria possível sem a presença luminar de Antonio Fernando Costella, um Bacharel em Direito egresso das Arcadas e que se tornou professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

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Não fosse sua paixão dedicada à arte – e neste caso apenas paixão não bastaria –, seu desprendimento prenhe de forte sentimento altruísta, sua decisão firme e inamovível, sua competência teórica e técnica – em boa parte angariada ao longo do caminho – e seu espírito realizador, a Casa da Xilogravura teria se esboroado em sonhos.

O Prof. Dr. Antonio Costella é astro maior em torno do qual orbita a existência do museu. Parcela considerável de sua vida confunde-se com o belíssimo projeto de dar ao Brasil o seu mais importante acervo de gravuras obtidas, segundo ele (e para simplificar), “com o uso de algo equivalente a um carimbo de madeira”.

E, em razão desta reconhecida importância, o Prof. Dr. Costella, com a consciência da dificuldade de se reunir um acervo de tal monta – algo que fez por mais de trinta anos – decidiu, por disposição testamentária, doar o prédio e todo o seu conteúdo para a Universidade de São Paulo, onde estudou e foi professor por trinta anos, sob quatro condições: manter e conservar nos imóveis doados um museu de xilogravuras, aberto ao público; manter os despojos de seu cão Chiquinho no local em que se encontram no jardim; manter no mesmo jardim as suas cinzas e de sua esposa Leda; e, por fim, manter o nome Casa da Xilogravura, ressaltando que caso a USP decida pela atribuição de algum nome que seja o dele e de sua atual esposa Leda.

O cão Chiquinho é um capítulo à parte que vale a pena ser contado, embora abreviadamente.

Quando, em 1977, o Prof. Costella adquiriu a casa em Campos do Jordão para ali fixar residência, também criou a Editora Mantiqueira que, num primeiro momento, esteve adstrita à publicação de livros de interesse regional ou ligados às áreas de Artes e Comunicação, sendo alguns sobre xilogravura. Nessa primeira fase, a editora funcionava como um hobby para o autor.

A história de Chiquinho com a editora começa, em 1989, quando o autor, embora já tivesse publicado uma dezena de livros – muitos deles de natureza técnica – e depois de realizar uma viagem a Portugal, em companhia de sua primeira esposa e de seu “cão sem igual”, para ministrar um curso na Escola Superior de Jornalismo, decide escrever sobre suas “andanças pelo interior de Portugal” colocando o cão Chiquinho como o narrador das histórias. O livro Patas na Europa, publicado em 1993, foi muito bem recebido pelo público, gerou dezenas de entrevistas – inclusive no Programa do Jô Soares –, inaugurou a série Patas e fez da editora, pela primeira vez e após tantos anos, um empreendimento lucrativo.

É a partir daí que a editora, como empresa social, torna-se a principal mantenedora da Casa da Xilogravura e o cão Chiquinho tem sua efígie – desenho do ilustrador Eduardo Baptistão – transformada no logotipo da empresa.

Desde 2004, “ao término de uma longa reforma” iniciada em 2001 e que reestruturou por completo o museu, as despesas aumentadas exigiram alternativas para geração de receita. E, muito embora estabelecido um valor simbólico de ingresso aos visitantes e criada uma lojinha no interior do museu, os recursos auferidos ainda são pouco significativos para a cobertura das despesas crescentes.

Contribuição da iniciativa privada? Jamais em espécie.

Incentivo e apoio do Poder Público? Nem pensar.

Não fosse a editora...

O fato é que sem a criatividade, a disponibilidade e o trabalho do Prof. Costella, de sua esposa Leda e de seus funcionários-colaboradores, o fado da Casa da Xilogravura seria outro e, muito provavelmente, a Arte, o Brasil e o mundo teriam arrancadas importantes e irrecuperáveis páginas de sua história.

Não fosse Antonio Costella...

Ele próprio, certa vez, escreveu: “No mundo da comunicação e da arte, as técnicas nunca morrem. Todas sobrevivem ainda que com um alcance menor, às vezes infinitamente menor” (COSTELLA. O Museu e Eu. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2012). Certamente, o legado construído, ao longo de uma vida, pelo Prof. Antonio Costella é suficientemente grande para nunca permitir que a técnica da xilogravura se torne infinitamente menor.

A trajetória de vida do Prof. Costella é imagem a ser gravada – de preferência xilogravada! – indelevelmente na alma de todos nós como modelo de consciência histórica, de determinação de espírito, de dedicação ao outro e, sobretudo, de ação voltada para a perpetuação da beleza humana que ele tão bem representa.

Confira seleção de obras em nossa Galeria.
Endereço:
Av. Eduardo Moreira da Cruz, 295
Campos do Jordão-SP
Telefax: (12) 3662-1832
www.casadaxilogravura.com.br
e-mail: contato@casadaxilogravura.com.br

Para saber mais leia:
O museu e Eu: História Sentimental do Museu Casa da Xilogravura, de Antonio Fernando Costella, publicado pela Editora Mantiqueira, em 2012.

Alexandre Marcos Lourenço Barbosa é graduado em Filosofia e editor do Jornal O Lince

 
 
 
 
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