Nº 60 | novembro / dezembro 2014
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O reencontro do arquivo musical de João Antonio Romão, em Pindamonhangaba-SP | Paulo Castagna

Na edição de março/abril de 2014 de O Lince, publiquei o artigo "O desaparecimento do mais antigo arquivo musical de Pindamonhangaba", a pedido do seu editor, Alexandre Barbosa, que convidou-me a escrevê-lo na esperança de que a divulgação da notícia revelasse pistas sobre a localização desse que foi o arquivo musical de João Antônio Romão, de acordo com a reportagem de Luiz Ellmerich, publicada no Diário de S. Paulo em 1975, encontrada em um recorte no Museu da Música de Mariana (MG), em janeiro de 2014. E a profética expectativa de Barbosa cumpriu-se de forma quase instantânea, apontando para um caminho que vale a pena desenvolver em novas pesquisas: no exato dia em que as matérias desse número entraram online, recebi o contato, por e-mail, de Marcelo Romão (bisneto de João Antônio Romão), informando que o acervo encontrava-se sob a guarda da família e que estava à disposição para consulta!

A partir de então, iniciei o trabalho musicológico em Pindamonhangaba, contando também com a participação do meu grupo de pesquisa, o Núcleo de Musicologia Social do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (São Paulo), visando organizar o arquivo e compreender sua formação a partir das atividades profissionais de João Antônio Romão, bem como esclarecer as ações recebidas pelo arquivo a partir do seu falecimento. Paralelamente, foi estabelecida uma metodologia de trabalho que envolveu a participação dos familiares de João Antônio Romão e alguns pesquisadores da cidade de Pindamonhangaba, que desde essa época vêm colaborando com os levantamentos de informações e de documentos a respeito do músico e do seu acervo.

Em pesquisa no arquivo do jornal Tribuna do Norte, de Pindamonhangaba, com a ajuda do historiador Altair Fernandes (cujo texto sobre João Antônio Romão havia sido citado no artigo de março/abril), localizamos algumas matérias sobre esse músico, referidas na bibliografia, com importantes informações sobre sua atuação profissional, fundamentais para compreendermos a formação do seu arquivo e sua relação com a prática musical das regiões vizinhas. Também importante foi a consulta do exemplar do próprio João Antônio Romão, do livro Pindamonhangaba através de dois e meio séculos de Athayde MARCONDES (São Paulo, 1922), atualmente conservado por seu bisneto Marcelo Romão, e que inclui uma biografia do músico pindamonhangabense à p.248.

O que foi possível apurar até o momento é que João Antônio Romão (Pindamonhangaba, 13/06/1878-19/05/1972) foi filho de José Benedito Romão e Rufina da Conceição e estudou música com Benedito Gomes de Araújo (pai do célebre João Gomes de Araújo), tocando órgão, piano e helicon. Dirigiu a Banda Euterpe e foi o regente do coro da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba desde 1896 (cargo naquela época denominado mestre da capela), lá atuando - ainda que com menor frequência - até pelo menos 1970. Uma placa de bronze em sua homenagem, afixada no órgão Weissenrieder da matriz (inaugurado em 1962), informa: "Órgão / Maestro João Antônio Romão / regente deste coro por 75 anos / gratidão / de / Pindamonhangaba / 8-9-1970". O músico também é homenageado na Praça Maestro João Antônio Romão, no Jardim Santa Cecília de Pindamonhangaba (entre a Avenida Professor Manoel César Ribeiro e a Rodovia Vereador Abel Fabrício Dias/SP-062) e ainda existe alguma memória de suas atividades junto aos familiares e pessoas que o conheceram, e cuja entrevista esclarecerá aspectos importantes de sua atuação musical.

Pouco tempo após seu falecimento, o arquivo musical de João Antônio Romão foi transferido para o Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Imperatriz Leopoldina de Pindamonhangaba, tendo sido parcialmente organizado e aberto à consulta em 1974, mas por conta das reformas do Museu no final dessa década, acabou sendo devolvido à família, que o conservou até o presente. Seu reencontro junto à família Romão, 40 anos após sua primeira organização por João Laerte Salles, no Museu Histórico de Pindamonhangaba, marcou o início de um grande conjunto de ações que será desenvolvido pelo Núcleo de Musicologia Social do Instituto de Artes da UNESP nos próximos anos, destinado à disponibilização pública do acervo e ao estímulo à reintegração das composições musicais lá existentes à vida cultural da cidade e da região.

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Com cerca de 2,0 metros lineares, o arquivo Romão é constituído de fontes musicais (partituras e partes) impressas e manuscritas, abrangendo gêneros bastante variados, como a música sacra, a música para banda, o repertório para cine-orquestra, as canções e a música popular instrumental da primeira metade do século XX, em versões para piano. Entre os manuscritos de música sacra, existem obras copiadas nos séculos XIX e XX em cidades como Cabreúva, Caçapava, Casa Branca, Caxambu, Guaratinguetá, Lorena, Pindamonhangaba, São José do Barreiro, São José do Rio Preto, São Paulo, Taubaté e outras, o que dá ao acervo uma dimensão não apenas pindamonhangabense, mas também vale-paraibana, além de um interesse nacional, em função da grande quantidade de obras produzidas, copiadas ou impressas nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

O Núcleo de Musicologia Social do Instituto de Artes da UNESP está agora articulando, juntamente com a família de João Antônio Romão, uma transferência desse acervo para o Arquivo Histórico Municipal de Pindamonhangaba, que está em processo de instalação no Palacete 10 de Julho (antiga Prefeitura de Pindamonhangaba), belo exemplar da arquitetura cafeeira (construído pelos barões de Itapeva na segunda metade do século XIX), tombado em 1969 e reinaugurado em 1º de dezembro de 2014, após a restauração do edifício.

Para isso, o arquivo Romão será higienizado, organizado, catalogado, acondicionado e digitalizado pelo Laboratório de Conservação, Arquivologia e Edição Musical da UNESP, com previsão para disponibilização ao público no Arquivo Histórico Municipal de Pindamonhangaba, juntamente com as imagens digitais completas do acervo, até o final de 2018, ano em que serão comemorados os 140 anos de nascimento do mestre pindamonhangabense. Também está em planejamento uma exposição sobre João Antônio Romão e a instalação de um terminal eletrônico de consulta ao seu arquivo musical, além de ações de estímulo à pesquisa desse e de outros acervos em Pindamonhangaba e em municípios do Vale do Paraíba.

Deixo aqui os mais sinceros agradecimentos aos amigos Alexandre Barbosa, Antônio Campos Monteiro Neto, Marcelo Romão, Marcos Júlio Sergl e Altair Fernandes, que abriram os caminhos para esta pesquisa, e aos demais familiares de João Antônio Romão, incluindo seu filho Tarcísio Romão e as netas do maestro, Maria Aparecida Romão e Maria José Romão, que gentilmente vêm apoiando nosso trabalho na cidade.

Paulo Castagna é Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo e Professor do Instituto de Artes da Unesp-SP

 
 
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