Nº 60 | novembro / dezembro 2014
Grafias

Crônica
Filomena | Sônia Gabriel

Lucas tinha uma secreta ambição, levantava todos os dias, de segunda a sexta, quatro e meia da manhã, tomava café, trocava a roupa e saia. Esperava dez minutos no ponto de ônibus matutando seu segredo. Barba por fazer, cabelos ralos, quarenta e cinco anos, vinte só de metalúrgica. Imaginava novamente aquela cena aonde o antagonista, com a arma apontada para o sequestrado, dava a gargalhada fatal, como prenúncio da desgraça alheia.

O ônibus chegava, Lucas entrava, sentava e continuava imaginando. Quem já se acostumou, nem liga, sabe que sua ambição se aquieta na linha de produção, mas o caminho é longo... Lucas coça a barba e se lembra de que a história de Filomena é muito boa, se aconchega na poltrona do ônibus e a consegue ver protagonizando a esposa dedicada. Resmunga que ela nem o olha na cara quando é cumprimentada, mas tem fogo na alma, é só olhar com cuidado que dá para ver o incêndio. Considera sussurrando: _ Ela pensa que não vejo que toda vez que vai lá em casa, o primeiro olhar, fingindo que não, é na minha direção, não que me atraia, tem porte é verdade, mas não é bonita. Isso mesmo, beleza ela não tem. É por isso, como não tem beleza, precisa compensar, então anda por ai com o corpo em ebulição. Mulher é tudo igual; Maria Rita, sempre tão implicante, não se dá conta disso. Acho que vou colocar Filomena na minha história, vai ficar com um pouco mais de picardia. Maria Rita vai rachar de raiva.

Uma lombada mais espaçosa, movimento brusco, Lucas se afasta de Filomena. Acomoda o corpo sonolento novamente e se ocupa do marido da quase personagem de seus devaneios: _ Será que o marido nunca percebeu? Coitado do Amadeu, o sujeito merecia coisa melhor, está sempre reparando no comportamento da mulher dos outros e nem se dá conta da fulana. Vive repetindo que mulher bonita é para homem que tem vocação para corno, que mais vale a feia sossegada como a dele. É isso mesmo, Filomena vai dar uma boa personagem. Coçou de novo a barba rala, se ajeitou em outra posição, concluiu que a mulher seria mais que uma personagem, ela dava uma história inteira sozinha. Aquele jeito regateiro de chegar, andando manso que nem gato, sentando como se não soubesse se comportar, a maneira como puxa o vestido mais para baixo, puxando as pontas como que querendo esconder o que já deixou ver-se.

Pobre Filomena! Tanto esforço para ser notada, mas é feia. O ônibus para e Lucas volta, descontente, para a realidade. Desce, corre até seu armário, pega um caderno todo amassado e rabiscado, faz algumas anotações antes que se esqueça. Guarda as linhas cheias de ortografia ruim e vida silenciosa. Passa o dia pensando, mesmo que ninguém note. A cabeça fica pensa de tanta ideia que ameniza o apertar dos parafusos eternos. De quando em quando, escuta uma voz insistindo em lhe falar: _ Filomena é feia. A mesma voz responde antes que ele possa refletir: _ Mas aonde ela é feia? As pernas grossas e bem torneadas nada têm de feias. As mãos? Não. As mãos são delicadas, com dedos finos e longos. O que será que faz Filomena tão feia? Seus seios fartos em blusas recatadas nada têm de feios. O andar de mar não é feio. O rosto! Pode ser... Verdade, não é tão bem feita de rosto, mas os cabelos longos e cacheados são bem tratados, ajudam a emoldurar a face pouco favorecida. Enquanto tenta se concentrar no trabalho, fabricando os carros que ainda não conseguiu comprar, continua transformando Filomena em personagem.

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Entre o café e o almoço, lembra-se de Amadeu e suas máximas, aprendidas em algum bar, sobre as mulheres; aquelas velhas considerações superficiais que tentam encobrir o que alguns homens não conseguem atentar e justificam-se 'defeituando' aquelas que lhes causam as incompreensões. Final de expediente, voltando para a casa, Filomena está no portão. Ela lhe sorri como sorria para todos, quase tendo um êxtase, Amadeu que também chegava de sua labuta, lá mesmo do meio da rua dá um grito: _ Filomena, não tem o que fazer? Já para dentro. A mulher foi em direção ao marido se sacolejando toda como se molas lhe sustentassem. Lucas também entrou, beijou Maria Rita e dois dos três filhos. Depois do jantar e as histórias domésticas do dia, sentou-se na poltrona do quarto e voltou aos seus pensamentos.

Tentando conciliar com o pouco que sabia os verbos, advérbios, pronomes e crases; escutava ao longe o falatório da mulher e dos filhos, o som o ninava, as pernas cansadas o convidavam ao sono. A modorra lhe induziu delírios com o futuro grandioso que teria quando fosse descoberto como o grande escritor que era. Dormiu. Pela manhã, levantou-se, trocou-se, tomou café e seu segredo como companhia. Na fábrica, no quadradinho 384 lhe esperava uma brochura, uma caneta e uma oportunidade de ser Lucas. Assim que a sirene tocou, ele começou a ter dúvidas. Será que aguentaria mais um dia? Será que terminaria mais uma história? Não sabia. Caçoando de sua rotina, considerou que era melhor sonhar menos, que Filomena nem era tão feia, e, Amadeu, sim, Amadeu não era nem um pouco estúpido.

Sônia Gabriel é autora dos livros Mistérios do Vale, Ventos Antigos e No Quintal da Bruxa.

 
 
 
 
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