Nº 60 | novembro / dezembro 2014
Entrevista

João Marcelo e Gabriel: sertanejos de raiz | Da Redação

O Lince - Como foi que vocês se iniciaram na música?

João Marcelo - Minha iniciação musical começou aos 13 anos, cantando e tocando violão. Aprendi com meus tios, em Ritápolis, uma cidadezinha mineira de aproximadamente cinco mil habitantes e que fica a 14 km de São João Del Rei. Ritápolis mudou os livros de história, pois foi lá onde nasceu Tiradentes. Como meus tios, comecei a me familiarizar com os primeiros acordes e educar minha voz cantando música sertaneja.
Nós morávamos numa modesta casinha de pau-a-pique e de chão batido às margens do rio das Mortes. Meus pais eram literalmente mineiros, viviam da mineração do ouro na cachoeira do pombal.

O Lince - E como foi que você veio parar no Vale do Paraíba?

João Marcelo - Foi quando meus pais, na década de 1970, vieram trabalhar em Aparecida, na Serveng. Um de seus proprietários, o Sr. Vicente de Paula Penido, era padrinho de minha mãe e a convite dele minha família veio para a região. Moramos na vila dos funcionários e por algum tempo alternamos idas e vindas entre Aparecida e Ritápolis até que, em 1977, ficamos definitivamente em Guaratinguetá.

O Lince - E você, Gabriel?

Gabriel - E sou da zona rural de Guaratinguetá. Cresci no bairro Pingo de Ouro em um tempo que nem energia elétrica havia. Nasci em uma família bastante musical e isso contribuiu para que desde muito cedo eu começasse a aprender música. Meu avô era violeiro, meu pai até hoje toca acordeão e minha mãe toca violão. Não tinha como eu não aprender alguma coisa. Mas sempre como autodidata. Geralmente é assim que se aprende na roça.

O Lince - E como foi que vocês se conheceram e formaram a dupla?

João Marcelo e Gabriel - Fomos contratados para um mesmo show... rsrsrs

O Lince - Como assim?

João Marcelo - Uma casa noturna de Aparecida nos chamou para cantar na mesma noite...

Gabriel - ... e nós cantávamos solo.

João Marcelo - Foi então que decidimos cantar juntos e dividir o cachê. Foi a decisão mais acertada. A sintonia foi tão grande que decidimos formar a dupla.

Gabriel - Isso foi em 1997 e estamos juntos até hoje.

O Lince - E...

João Marcelo - ...e começamos a cantar na noite e em outros espaços da região. Os proprietários da churrascaria Gramado (Pindamonhangaba-SP), se me permite mencionar, deram grande apoio no início de nossa carreira. Cantávamos lá com muita frequência.

O Lince - Mas vocês estavam decididos a não parar por aí, não é mesmo! O que aconteceu depois?

João Marcelo - Pouco tempo depois, em 1999, estávamos gravando a música "Me apaixono e me complico" de Fátima Leão. Para nós foi muito importante gravar uma música assinada por ela. Fátima Leão é um verdadeiro ícone da música sertaneja, uma compositora espetacular que contribuiu para o sucesso de muitas duplas. Zezé Di Camargo & Luciano, Chitãozinho & Xororó, Leandro & Leonardo, Bruno & Marrone, Sandy & Junior, João Paulo & Daniel e Rionegro & Solimões são algumas delas. Também gravamos a música "Diversão" usada na trilha sonora da novela "Laços de Família", da Globo.

O Lince - O primeiro CD de vocês, em 1999, teve produção de Fátima Leão. É isso mesmo?

João Marcelo - Exatamente. E o nome era "Me apaixono e me complico". Para nós era uma grande oportunidade e o início da carreira que sempre foi o nosso sonho.

O Lince - Vocês já trabalhavam na divulgação do CD e os primeiros contratos para grandes shows já começavam a aparecer quando o inesperado aconteceu.

João Marcelo - Isso mesmo. Em 2001 sofri um acidente. Fui atropelado por um maverick (logo um maverick com aquela lataria dura!... rsrsrs) e tive uma de minhas pernas esmagada pelo carro. Passei por várias cirurgias e fiquei dez anos sem poder andar.

O Lince - Que provação!

João Marcelo - Rapaz! Vi a morte de frente. Fiz mais de vinte cirurgias, minha perna ficou cheia de parafusos que atravessavam de lado a lado e teve uma hora que realmente achei que não iria resistir. Após uma das cirurgias, a coisa complicou a fui parar na UTI com embolia pulmonar. Segundo os médicos, apenas 20% do meu pulmão funcionava e fui dado como óbito. Como eu disse, vi a morte de frente em uma cena em que aparecia um túnel de fundo azul com uma porteirinha de madeira (porque sertanejo é sertanejo até no sonho. Tinha que ter porteira, uai... rsrsrsrs). E eu já ia passando pela porteirinha quando voltei com minha mãe que chacoalhando na cama. Minha mãe percebeu que estava acontecendo alguma coisa de anormal e me acordou.

O Lince - Em algum momento você chegou a pensar em desistir?

João Marcelo - Se existe uma coisa que eu tenho bastante é paciência. Sempre mantive o otimismo e a esperança de que iria superar aquela situação e foi o que aconteceu. Sofri muito, passei muitas dificuldades, cheguei a ficar sem dinheiro até para comprar remédios, perdi amigos e pessoas que gosto ao longo do caminho, mas consegui, afinal, retomar meu sonho que é cantar. Meu sonho não é ficar rico. Meu sonho é poder levar minha música para as pessoas. Isso é o que me mantém no caminho.
Sabia que em algum momento voltaríamos, eu e Gabriel, a cantar juntos. A nossa história enquanto dupla é de superação e amizade sincera.

Ampliar imagens

O Lince - E o que aconteceu com o Gabriel durante este período?

Gabriel - Quando João Marcelo sofreu o acidente fizemos um acordo de que eu esperaria sua recuperação. Enquanto isso, fiquei fazendo alguns bicos, tocando na noite.

O Lince - Parabéns! Isso é um gesto raro nos dias de hoje. E a retomada da dupla? Quando aconteceu?

João Marcelo - Retomamos no ano passado com o lançamento do CD/DVD "Quase me chamou de amor", lançado no Itaguará Country Club e com a presença de quase 2000 pessoas. Um retorno bastante movimentado em nossa avaliação.

O Lince - Certamente. E agora? O que estão fazendo e planejando?

João Marcelo - Agora estamos divulgando nosso trabalho em emissoras de rádio e TV e preparando nosso quarto CD/DVD que será lançado no início do próximo ano. Já participamos de vários programas de televisão em várias emissoras e nosso trabalho tem tido boa aceitação do público.

O Lince - Vocês tem tido algum apoio para esta retomada? Gostariam de fazer referência a algum nome em especial?

João Marcelo - Sim. Temos recebido apoios de muitos amigos e profissionais, mas não podemos deixar de citar, de um modo especial, nossa madrinha Fátima Leão. Ter uma madrinha como ela significa muito pra nós e a ela seremos eternamente agradecidos.

O Lince - Não falamos ainda sobre suas influências e preferências musicais. O que vocês têm a dizer sobre isso?

Gabriel - Fazemos um sertanejo de raiz, música para o caboclo da roça, para o homem simples. Nos identificamos com ele, somos como ele. Por isso gostamos das composições de Fátima Leão e das canções de Tião Carreiro & Pardinho, Felipe & Falcão, Xitãozinho & Xororó, Athaíde & Alexandre e Christian & Ralph. Cantamos o romantismo do sertanejo clássico.

O Lince - Recentemente, vocês foram convidados para fazer um quadro em um programa de televisão voltado para o público caipira. Podem falar um pouco a respeito?

João Marcelo - É verdade. Todos os domingos, na Band TV, no programa "Tempero Caipira", de Zéca Portella, um grande cara, apresentamos o quadro "A música e a saudade". O programa começa às oito e meia da manhã.

O Lince - Que palavras vocês gostariam de deixar para encerrar esta entrevista?

João Marcelo - Nossas palavras são todas de agradecimentos. De agradecimento a todos que confiaram e confiam em nosso trabalho e que em nenhum momento deixaram de acreditar e apoiar o nosso sonho. São companheiros de jornada que nos fortalecem diante de qualquer dificuldade. Um carinho especial aos nossos familiares, aos fãs que nos acompanham e aos assessores artísticos Salatiel Araújo e Claudiana Ribeiro, pela dedicação e empenho.
Sobre a dupla
João Marcelo e Gabriel formam uma dupla sertaneja que passou por um verdadeiro teste de superação quando um atropelamento interrompeu, prematuramente, o flerte com uma carreira promissora no início dos anos 2000.

Surpreendidos pelo acidente que adiou por dez anos o projeto da dupla, os cantores decidiram pactuar a volta numa raríssima demonstração de amizade e fidelidade um ao outro.

A dupla prepara o lançamento de seu quarto CD/DVD para o início do próximo ano. Cantando sertanejo de raiz, João Marcelo e Gabriel tem conquistado espaço na mídia televisiva e radiofônica divulgando o CD/DVD "Quase me chamou de amor".

Em 2013, João Marcelo recebeu, na capital paulista, o prêmio "Homem do ano", na categoria superação, e, em 2014, um novo prêmio: "Mãos e mentes que brilham".

Nas manhãs de domingo, a dupla apresenta-se no quadro "A música... e a saudade..." do programa "Tempero Caipira", apresentado por Zéca Portella, na TV Band.
 
 
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000