Nº 58 | julho / agosto 2014
Letras Valeparaibanas

As primeiras letras de Monteiro Lobato: o caso da Revista do Brasil | Renata Rufino da Silva

A participação como colaborador da Revista do Brasil e, posteriormente, sua aquisição e sua atuação como diretor foram decisivas nos primeiros anos da vida intelectual de Monteiro Lobato. Fundada em São Paulo, em janeiro 1916, por um grupo do jornal O Estado de São Paulo, liderado por Julio de Mesquita, desde o terceiro exemplar há textos assinados por Lobato. Ela funciona como uma espécie de laboratório de sua literatura em formação. O estudo desse periódico é fundamental para qualquer reflexão da obra lobatiana. Dessa maneira, procuraremos analisar os primeiros anos de Lobato na Revista do Brasil até a sua aquisição, em maio de 1918, quando se tornou diretor do mensário e fundou sua primeira editora: Monteiro Lobato & Cia. Editores.

Segundo Tania de Luca, o mensário teve sua primeira fase compreendida entre os anos de 1916 e 1925 (ao todo, 113 números), encerrada com a falência de Monteiro Lobato. Nela, há um projeto político-cultural explícito e uma forte atenção às grandes "questões nacionais".1 Formada como sociedade anônima, até 1918, contou com muitos colaboradores, sendo Monteiro Lobato, embora no início não figurasse entre os sócios, o recordista de textos da primeira fase (ao todo 40).

No primeiro número, a Revista, que se declarava uma publicação de "sciencias, letras, artes, história e actualidades", apresentou um programa de ações. Marcada pela diversidade ("nenhum de nós é homem de uma só profissão"), a proposta era que a inteligência brasileira deixasse de estar sob a tutela do estrangeiro ("pensamos pela cabeça do estrangeiro, vestimo-nos pelo alfaiate estrangeiro (...) calamos em nossa pátria") e que a Revista se constituísse um núcleo de propaganda nacionalista2. Ela se proclamava como difusora de novos valores culturais e morais, porém procurando origens que marcariam o povo brasileiro. Nessa busca, destacam-se a história dos bandeirantes e, por sua vez, do Estado de São Paulo, que se apresentariam como exemplos para a história nacional: "A nossa história, com dois ou três lances de epopéia dos quais o maior e mais belo é talvez a arremetida dos bandeirantes para o sertão". Para tanto, os estudos dos acontecimentos do passado se tornavam indispensáveis:

[a revista do Brasil] entendeu que podia realizar essa obra de patriotismo, provocando estudos do passado que nos desvendarão, nas coisas e nos homens, uma larga fonte de inspiração, de amor e de orgulho, e estimulando todas as energias actuaes para um trabalho de observação e criação scientifica e literária, que nos patenteie a todos a profundez e a riqueza dos nossos thesouros intellectuaes.3

Desse modo, o mensário não seria exclusivamente de história ou de literatura, mas tanto de uma quanto de outra, ao mesmo tempo, já que ambas teriam a nacionalidade como questão central. Sobre esse aspecto, Mônica Velloso, em seu artigo "A Literatura como espelho da nação", atentou para o fato de como "ao longo de nossa história político-institucional, as mais diferentes correntes de pensamento tenderam a conceituar a literatura enquanto instância portadora e/ou refletora do mundo social."4 Essa concepção, de matriz positivista da literatura, e a obsessão pela captura do "real-nação" e pela "caça ao documento" teriam, segundo Velloso, confundido muitas vezes os discursos histórico e literário dos intelectuais brasileiros.

As considerações de Velloso são importantes no que se refere à Revista, uma vez que essa ideia da literatura que representa a nação se faz presente, especialmente na produção de Lobato. Contudo, ela não é regra em todos os textos de literatura da Revista. Convém ressaltar que isso não nos parece tampouco uma subordinação da "ficção" à "verdade histórica": um aspecto importante é que os textos de cunho literário - contos, novelas, poesias, romances - estiveram presentes em todas as edições. Os diferentes discursos ali veiculados têm o mesmo objetivo: compreender o Brasil.

Em relação à estrutura da revista, até 1918, na capa, constava um sumário, em destaque, com os nomes dos autores do mês, em que se mencionava a instituição do colaborador - geralmente, "Academia Brasileira [de Letras]" ou "Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro". Na contra-capa, além da atenção ao fato de a Revista só publicar textos inéditos e fornecer dados sobre os seus diretores e secretários, havia ainda informações relativas à coluna "Resenha do mês". Nessa, apresentava-se um panorama do movimento artístico e cultural brasileiro, predominando o lançamento de livros e exposições, além de transcrições de artigos de jornais brasileiros e estrangeiros, principalmente franceses e italianos.

Quanto à participação de Lobato, dos 29 volumes publicados antes de se tornar diretor, ele participou de 17. Quando a revista teve o primeiro número lançado, no dia do aniversário da cidade de São Paulo, 25 de janeiro, Lobato encontrava-se na Fazenda Buquira (propriedade herdada de seu avô paterno, o Visconde de Tremembé), localizada no município de Caçapava, no interior de São Paulo. De lá - onde o carteiro passava "dia-sim-dia-não" - ele escreveu o texto "Velha Praga" (1914), considerado o seu primeiro artigo para o grande público, dirigido à seção "Queixas e reclamações" d´O Estado de São Paulo. Em "Velha Praga" Lobato criticava a prática das queimadas dos caboclos.5

Lobato estreou na Revista do Brasil com o conto "A vingança da Peroba", que depois comporia o livro Urupês, lançado em 1918. Nele, Lobato apresenta a rivalidade de dois sitiantes, João Nunes e Pedro Porunga, sendo que o primeiro era dominado pelo vício da cachaça e indolente, enquanto o segundo um monjoleiro respeitado. Tomado pela inveja do vizinho, Nunes decide construir um monjolo - conta com a ajuda de um deficiente físico, Teixeirinha Maneta - e corta a árvore que dividia as duas propriedades. Isso aumenta a contenda entre os dois vizinhos. O monjolo não funciona direito e é apelidada de "ronqueira". No fim, a família Nunes é acometida pelo "pau de feitiço" - uma árvore se vingaria pelas outras derrubadas: o filho único, Pernambi, que aos 7 anos bebia cachaça e pitava, é morto pela engenhoca. Revoltado, João Nunes destrói a máquina: "durou muito tempo o duello trágico de demência contra a inércia da matéria bruta".6

Numa carta a Rangel, Lobato comentou essa sua primeira participação:

[Na] Revista do Brasil apareço com a Vingança da Peroba - um conto de monjolo e monlojeiros que termina sangrentamente. Acho que o sangue em golfos trágicos e o amor são as únicas coisas que nunca saem da moda em todas as literaturas. A idéia desse conto me veiu há pouco tempo, quando mandei um monjoleiro da zona fazer um monjolo cá para a fazenda. Eu passava horas na "obra", vendo aquele serviço de escavamento a enxó e provocando conversa com o carapina e o seu ajudante. Eles fizeram-me o monjolo e eu fiz o conto.7

Como pode ser observado, sua experiência pessoal, vivendo na fazenda, era matéria para seus textos. Na seção "Resenha do Mês", ainda no 3º número, há outro texto de Lobato, "Cidades Mortas", extraído d´O Estado de São Paulo. Trata-se de um artigo no qual o autor lamenta que "um grupo de cidades moribundas arrasta um viver decrépito, gasto em chorar na mesquinhez actual as saudosas grandezas de outrora." A população dessas cidades seria formada, sobretudo, por caboclos, "verdadeiros vegetaes de carne", "descendência roída de preguiça e álcool"8. O pessimismo, em torno da "degenerência" da raça, é marcante na sua pena.

Lobato voltou a publicar no número 8 da Revista uma novela intitulada "Boccatorta". O texto também foi alvo de comentário com o amigo Rangel: "O meu horrendo Boccatorta saiu. Se eu pudesse ouvir o mal que estarão a dizer dele por aí... Na frente todos elogiam. Oh, se pudéssemos ouvir o murmurado por trás, e conhecer as restrições, a assinalação dos defeitos, que proveitoso não seria!"9

"Boccatorta", que também está presente em Urupês (1918), é considerado um conto fantástico/ terror de Lobato. A história se passa na fazenda Atoleiro, que pertencia ao Major Zé Lucas, onde vivia Boccatorta, filho de uma escrava de seu pai, "mísero, disforme e horripilante como não há memória de outro".10

No conto, Eduardo, noivo de Cristina (filha do major), curioso, propõe um passeio para conhecer a criatura. Cristina adoenta-se logo após o encontro com Boccatorta e morre poucos dias depois. Desolado, Eduardo vai ao seu túmulo e flagra Boccatorta desenterrando o corpo da noiva. Na perseguição, a criatura desparece no pântano, depois que sua "boca hedionda que babujara nos lábios de Cristina o beijo único de sua vida."11

Com um artigo sobre o pintor Pedro Américo, no número 11 da Revista, Lobato iniciou uma série de biografias de pintores brasileiros. Como crítico de arte, começou a se posicionar na defesa de uma arte genuinamente brasileira que desprezasse a produção e o gosto da elite nacional. Assim, a biografia que fez de Américo - desde seu encontro, ainda criança, com a missão do naturalista francês Luiz Brunet até a sua ida a corte, sua relação com o Imperador Pedro II que o incita a pintar batalhas nacionais - é marcada por elogios ao talento do pintor, mas também críticas "da sua pátria ser o mundo". O quadro "Carioca", por exemplo, estaria só no título, a seu ver, pois "fora d´ahi é um simples nu, uma nympha, uma banhista, uma fonte, tão carioca como as mil co-irmans que abarrotam todas as pinacothecas européias."12

Assim, Américo seria "o maior dos pintores brasileiros e o menos brasileiro dos nossos pintores" e, por essa razão, o "nosso pintor máximo" até o advento de Almeida Júnior, que teria uma arte "profundamente racial". Aliás, Almeida Júnior foi biografado por Lobato no número 13 da Revista, em que foi enaltecido o talento o pintor.13

Além das biografias, Lobato também escreveu sobre o pintor Pedro Alexandrino, no número 26 da revista. Ainda na crítica de arte, outros artigos que merecem destaque são "Dois pintores paulistas" e "O salão de 1917", ambos com ilustrações, publicados nos números 12 e 22, respectivamente.
O primeiro, publicado na seção "Resenha do mês", foi dedicado aos pintores Paulo Valle e Wasth Rodrigues, sendo que Lobato registrou muito mais o último, que foi ilustrador de seu livro Urupês. Começou observando "a maestria de traço que os distingue", porém disse acreditar que ambos fossem vítimas "da absurda orientação esthetica que o governo imprime às vocações fortes nascidas em nosso meio, consistente em desnacionalisal-as e suffocar ao nascedouro o temperamento racial..." Desta forma, para Lobato, se viveria uma "grande crise do pintor nacional educado fora do ambiente nativo", pois lhe faltaria "aquele músculo leonino do bandeirante que rasgava de extremo a extremo, implacavelmente, a carne viva das sertanias virgens."14 Contudo, essa dificuldade dos pintores em lidar com a natureza brasileira não atingiria Wasth Rodrigues. Era uma exceção, pois havia penetrado no sertão, estudado os segredos dos verdes agrestes e do "homem incontaminado, grosso de casca, intraduzível em francês". Lobato alertava para o fato de que a pintura brasileira "só deixará de ser um pastiche sem valor, um mambembe por sessões" quando "se penetrar que é mister compreender a terra para bem interpretal-a."

Já "O 'Salão' de 1917" foi sobre a 24ª exposição geral de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Lobato foi bastante crítico ao "salon": "O que se nunca abre apesar das vinte e três aperientes exposições anteriores é o apetite do publico para estas coisas de arte. Quero dizer, na minha que, como as outras, a exposição deste anno está ás moscas."15 Para ele, os salões anuais seriam de "entra um", em referência às ruas vazias das "cidadesinhas da roça" que eram chamadas de "rua de vae um". E, ironicamente, afirmou que esse "um", visitante perdido, "em namoro ante certos quadros, é de ordinário... o seu próprio autor." Por isso, um indivíduo se dedicar às artes seria "perpetuar heroísmo tangencial á loucura". Encerrou lamentando o desinteresse geral pelas artes no Brasil:

Numericamente consta o certamen de 225 obras de pintura, 19 de esculptura, 13 de architetura, 3 de gravura, afora 22 medalhas, gravuras em pedras, gesso e cera. Seria pouco no Panamá, nos Estados Unidos da Colombia ou n´outro qualquer paiz de intensa população. Cá nos nossos Estados Unidos é, indubitavelmente, muito. Não esqueçamos que somos um paiz de apenas 30 milhões de habitantes, e muito novo, tão novo como o USA.16

Além dos contos e novelas, a Revista também registrou as atividades literárias de Lobato fora do âmbito do periódico. No segundo ano da revista, em 1917, Lobato mudou-se para São Paulo e passou a participar ainda mais intensamente das publicações em que colaborava: a própria Revista do Brasil e o jornal O Estado de São Paulo. Foi nesse ano que ele promoveu o inquérito de um dos personagens mais significativos do folclore brasileiro: o Saci Pererê. Foi publicado um livro, que foi alvo de comentários dos diretores do mensário:

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O Sr. Monteiro Lobato reuniu em volume, acolchetando-lhes alguns commentarios deliciosos e emparedando-os entre um prólogo e um epilogo refulgentes de graça, os depoimentos que a propósito do Sacy Pererê obteve num inquérito aberto há tempos, na edição nocturna do Estado de São Paulo. Os leitores da Revista do Brasil dispensam, naturalmente, que lhes digamos quem é, como escriptor, o Sr. Monteiro Lobato: raro será o numero desta Revista em que sua fantasia, ora álacre, ora trágica, e sua observação, sempre aguda e quasi sempre risonha, não encantem e divirtam os leitores.17

Além do livro, Lobato promoveu um concurso de pintura sobre o Saci, que contou com a participação de vários artistas, entre eles, Anita Malfati18. O próprio Lobato escreveu um texto sobre a exposição de representações do Saci: "productos de um concurso conseqüente a um inquerito que está na memória de todos, estiveram expostos ao publico varios quadros e esculpturas onde, pela primeira vez na terra natal do Sacy, foi o Sacy guindado ás regiões da arte."19

Lobato, com o passar do tempo, estava cada vez alinhado ao programa da Revista de formar uma consciência nacionalista. Contudo, mesmo o periódico, que nascera "para trazer a tona coisas do passado e promover análise do presente, desviava-se, instintivamente, dos rumos iniciais", em sua opinião. Segundo Cavalheiro, Lobato reclamara que só ele e Medeiros e Albuquerque, da Academia Brasileira de Letras, ocupavam-se de assuntos nacionais: "Tudo mais é coisa forasteira. Anda a nossa gente tão viciada em só dar atenção às coisas exóticas, que mesmo uma ´Revista do Brasil´ vira logo de Paris ou da China. Nascida para espelho de coisas desta terra vai refletindo só coisa de fora."20

Por essa razão, quando convidado para ser diretor da revista, almejou ainda mais, a compra do mensário, como confidenciou, em carta, ao amigo Rangel: "Lá pela Revista do Brasil tramam coisas e esperam a deliberação da assembleia dos acionistas. Querem que eu substitua o Plínio na direção; mas minha ideia é substituir-me á assembleia, comprando aquilo. Revista sem comando único não vai. Mas a coisa é segredo."21

Entretanto, o Lobato que comprou a Revista do Brasil em maio de 1918 já não parece o mesmo dos primeiros contos e artigos. O caboclo, que até então era alvo privilegiado de suas críticas, passou progressivamente à condição de vítima. O problema deixou de estar na natureza homem do campo, mas sim nas suas condições de vida. A temática passou a ser a do saneamento e da higiene, algo que já podemos perceber nas últimas participações de Lobato na Revista ainda como colaborador.

No artigo "O saneamento do Brasil", da seção "Resenha do Mês", que foi publicado primeiramente no jornal O Estado de São Paulo, Lobato denunciou o amadorismo da medicina no sertão do país e criticou a prática do curandeirismo. Por essa razão, o "treponema" riria das "micagens e rezas".22

Entre as mazelas dos sertanejos, Lobato diagnosticou também a mortalidade infantil e o acoolismo, "degenerência physiologica determinada pela cachaça". Ele apontou que, em todos os países do mundo, "as populações ruraes constituem o cerne das nacionalidades", sendo responsáveis pela "infiltração permanente de sangue e carne de boa tempera". Os camponeses contrabalanceariam o "desmedramento urbano": "os vícios, o artificialismo, o afastamento da vida natural, o ar impuro, a moradia anti-hygiencia..." Contudo, no Brasil, em sua opinião, dar-se-ia o contrário porque o "elemento rural é peior que o urbano". Dessa maneira, encerrou, concordando com o diagnóstico de Belisário Penna que apontava o Brasil como um país de doentes. Por isso, clamou pelo saneamento do país, referindo-se aos estudos de Carlos Chagas, Arthur Neiva, "e mais intemeratos discípulos de Oswaldo Cruz"23.

Essa mudança de postura de Lobato em relação às populações sertanejas - que deixaram de ser culpadas pelo atraso brasileiro e passaram a ser vítimas - podemos perceber também em outro texto, "As novas possibilidade das zonas cálidas", do número 29 da revista, o último antes de assumir a direção do periódico. Lobato argumentou, citando exemplos, que foi nas zonas tropicais que se desenvolveram as espécies de animais e vegetais "mais altas", onde "a vida ascende ao esplendor máximo". Entretanto, essa regra falharia com relação ao homem. Nesse sentido, ele procurou entender o porquê dessa "contradição".

Para ele, o homem, ao civilizar-se, teve um enfraquecimento biológico, o que o impediria de prosperar em regiões quentes, repletas de parasitas: "No ser fraco, porém, dessorado pela civilização, a baixa animalidade encontra todas as portas abertas, nenhuma reacção efficaz, e fazem dele hospedaria. D´ahi o estado de doença." Contudo, Lobato acreditava ser possível mudar o estado das coisas com a higiene ("defeza artificial que o civilizado creou em substituição da defeza natural que perdeu"). Nesse sentido, embora ainda tomado por teorias raciais, Lobato apresentou uma postura mais otimista em relação ao país e sua população. O problema da nacionalidade, enfim, teria uma solução:

Desfeitos todos os véus de ufania, livres para sempre da mentira dithyrambica, o caminho está desimpeçado para a cruzada salvadora. Sanear o país deve ser a nossa obsessão de todos os momentos. É a grande formula do patriotismo que se não contenta com o jogo malabar do palavriado sonoro.24

Assim, com seu programa centrado nas grandes "questões nacionais", a Revista do Brasil foi importante na trajetória de Lobato enquanto escritor e empresário da cultura. São predominantes nesse primeiro momento seus textos ficcionais e de crítica de arte, excetuando-se os últimos, cujos temas centrais eram a higiene e o saneamento Foi atuando nesse periódico que percebemos uma consolidação das ideias de defesa do "nacional", mas não podemos deixar de destacar que suas posições sobre diversos assuntos não foram, de forma alguma, constantes. Mesmo, em certos momentos, rejeitando o "modelo europeu" e denunciando os estrangeirismos nas artes, foi Lobato o responsável pela tradução e divulgação de muitos clássicos da literatura ocidental quando passou a atuar na Companhia Editora Nacional. O célebre personagem Jeca Tatu, por exemplo, num primeiro momento dominado pela preguiça e impenetrável pelo progresso, foi recuperado e alçado à categoria de bandeirante, uma vez que foram Jecas "que devassaram os sertões com as bandeiras" e responsáveis "pelo pouco de riquezas que ainda temos"25.

1 Ver LUCA, Tania Regina de. A revista do Brasil: um diagnóstico para a (n) ação. São Paulo: Unesp,1999.p. 31-32.
2 Revista do Brasil, v.1, n.1, p.1, jan.1916.
3 Revista do Brasil, v.1, n.1, p.3, jan.1916.
4 VELLOSO, Mônica Pimenta. A literatura como espelho da nação. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1988. p. 239.
5 De acordo com seu biógrafo, Edgar Cavalheiro, as repercussões do texto não "provocaram rumores nem comoções", somente "meia dúzia de cartas" e "um convite para pronunciar conferências na capital". CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato: vida e obra. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955. p. 167.
6 LOBATO, Monteiro. A vingança da peroba. Revista do Brasil, v.1, n.3, p.281-295, mar.1916.
7 LOBATO, Monteiro. A barca de Gleyre. 7ed. Obras Completas. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1956. p. 69.
8 LOBATO, Monteiro. Cidades Mortas. Revista do Brasil, v.1, n.3, p.345-347, mar.1916.
9 LOBATO, Monteiro. op.cit., p. 102.
10 LOBATO, Monteiro. Boccatorta. Revista do Brasil, v.2, n.8, p.335-348, ago.1916.
11 Idem. Ibidem, p. 348. É importante destacar que outros textos que em 1918 fariam parte de Urupês foram publicados pela 1ª vez na Revista do Brasil. Foram esses: "A colcha de retalhos" (nº 12), "Gargalhada do Collector" (que em Urupês passou a ser "O engraçado arrependido", nº 16), "Pollice Verso" (nº 18), "O mata-pau" (nº 24), "O comprador de fazendas" (nº 27) e "O estigma" (nº 28). Todos abordam a temática do sertanejo e o que envolve suas tradições e crenças.
12 LOBATO, Monteiro. Pedro Américo. Revista do Brasil, v.3, n.11. p.256-271, nov.1916.
13 LOBATO, Monteiro. Almeida Júnior. Revista do Brasil, v.4, n.13. p.35-51, jan.1917.
14 LOBATO, Monteiro. Dois pintores paulistas. Revista do Brasil, v.3, n.12. p.395-403, dez.1916.
15 LOBATO, Monteiro. O "salão" de 1917. Revista do Brasil, v.6, n.22, p. 171-190, out. 1917.
16 Idem. Ibidem, p. 190.
17 Monteiro Lobato - O sacy perere. Revista do Brasil, v.7, n.26. p.178, mar.1918.
18 No texto, Lobato comenta que Anita Malfatti "também deu sua contribuição em ismo." No mesmo ano, em 20 de dezembro de 1917, Lobato publicou uma crítica à pintura moderna de Malfatti, no jornal O Estado de São Paulo, que foi decisiva para a alcunha de "anti-modernista" de Lobato. Esse texto foi publicado dois anos depois no seu livro Idéias de Jeca Tatu, sob o título "Paranóia ou Mistificação?". A partir desse episódio, amigos de Anita, como Mário de Andrade, começaram a desqualificar Lobato como crítico de arte.
19 LOBATO, Monteiro. A exposição do Sacy. Revista do Brasil, v. 6, n.23. p.403-413,nov.1917.
20 CAVALHEIRO, Edgar. op.cit., p. 194.
21 LOBATO, Monteiro. op.cit., p. 159-160.
22 LOBATO, Monteiro. O saneamento do Brasil. Revista do Brasil, v.7, n.27. p.303-305, mar.1918.
23 Idem. Ibidem, p. 305.
24 LOBATO, Monteiro. As novas possibilidades das zonas cálidas. Revista do Brasil, v.8, n.29. p.3-8, mai.1918.
25 LOBATO, Monteiro. Mr.Slang no Brasil e Problema vital. São Paulo: Brasiliense, 1948. p.313-319.

REFERÊNCIAS
AZEVEDO, Carmen Lucia de; CAMARGOS, Marcia Mascarenhas de Rezende; SACCHETTA, Vladimir. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia. São Paulo: SENAC, 1997.
CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato: vida e obra. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1955.
LOBATO, Monteiro. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1949. [1ª edição 1918].
_______________. A barca de Gleyre. 7ed. Obras Completas. São Paulo: Ed. Brasiliense.
LUCA, Tania Regina de. A revista do Brasil: um diagnóstico para a (n) ação. São Paulo: Unesp,1999.p. 31-32.
REVISTA DO BRASIL. São Paulo. 1916-1918.
VELLOSO, Mônica Pimenta. A literatura como espelho da nação. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 1, n. 2, 1988.

Renata Rufino da Silva é doutoranda em História Social pela UFRJ

 
 
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