Nº 58 | julho / agosto 2014
Grafias

Festa no céu
Crônicas | Ana Lygia dos Santos

Foi numa tarde de maio que, sem jeito, Ele a chamou:

- Vem, D. Ruth, suba e junte-se aos bons!

Ela chegou acanhada, benzeu-se, depois entrou. Zizito foi recebê-la; Ruth, então, serenou. No fundo, ela sabia que "a gente nasce, cresce, e morre. Não sai disso. Mas enquanto cresce e enquanto vive, quantas coisas acontecem!". E com ela aconteceu... Saiu da cidadezinha e foi viver na capital, formou-se, depois se casou com Zizito, foi mãe, professora e avó. Mas o que ela gostava mesmo era do seu quintal, na chacrinha. E assim foi até o chamado.

À vontade d?Ele obedeceu. Afinal de contas, "as coisas, quando tem que ser, Deus não revoga". E com a humildade dos puros e a altivez de uma rainha, que bem cumpriu sua missão, sentou-se diante d?Ele e passou a ouvi-Lo, que lhe sorria, prazenteiro:

- Então, me diga, D. Ruth, agora que me está diante de mim, é como ver o mar?

Ela assentiu: "Era tão bonito e tão grande... tão diferente e tão maior do que tudo" quanto já vira.

- A vida foi boa, D. Ruth, não lamente os que ficaram, a saudade é um fato. Convivível. A senhora sabe, "coisa que a gente vê menos é o que faz sentir mais falta".

Ela concordava, meneando a cabeça grisalha.

- Daqui vejo o seu jardim, seu legado de palavras e perfumes, semente sempre a germinar, rosas estão sendo plantadas. A senhora ia gostar! É mister saber que "as coisas, quando tem que acontecer, tem muita força" e a terra da chacrinha é boa.

Ela sorriu, orgulhosa de si. Ela sabia que "as coisas mais bonitas são as mais repetidas" e que sempre haveria flores e bons leitores.

- Sabe, D. Ruth, não sou tão onisciente quanto dizem. Preciso aprender um pouco mais sobre as gentes, essas gentes e suas crendices, aquelas gentes que ainda se benzem ouvindo causos de visagem em noite de lua cheia, essas gentes de alma boa: as gentes de cidadezinha.

D. Ruth sorriu um riso branco de São Benedito e contou, e contou...

Aos poucos se aproximaram João, Pedro e Paulo, sempre homenageados nas chamas juninas do quintal da chacrinha. A Virgem, sempre louvada nos causos contados e nos escritos. Uma legião de anjos e arcanjos, de serafins e querubins. Todo o celeste atento, qual criança no berço, a ouvir histórias de ninar.

E ela contou sobre as gentes e sobre os bichos, sobre o coração bom das pessoas, sobre uma inocência cativante da roça. Descreveu o reino encantado dos bichos e sua natureza falante. A Virgem lembrou-se dos remendos no casco do jabuti e, vez ou outra, a turba divinal ria com as anedotas do povo, dos Malazartes tão comuns aqui e ali, cochichava desfechos outros, quiçá uma bela lição de aprendizado!

D. Ruth desfolhou o rosário de crendices do seu povo, falou das visões quiméricas e das rezas de benzeduras e de quebrar encanto, dos chás de ervas, das cobras grandes, corpos secos e mães d?ouro, de figueiras à beira da estrada e de redemoinhos que ventam sacis.

Todos atentos aos contos de encantamentos, os anjinhos nem piscavam diante da diegese de Ruth, que dava conta de sonhos que se sonham dormindo e acordado: restos das ilusões do homem e de milagres divinos.

E no meio da contação, de sorriso largo e desarmado coração, eis que surge o homem dos ipês amarelos, pedindo licença para tomar assento em roda de tão boa prosa.

- Dá licença, Mestre?

"Deus é leve e ri":

- Sê bem vindo Seu Rubem, estávamos a lhe esperar. Conte-nos, pois, suas histórias de jardineiro de flores e gentes.

O bom homem sorriu a alegria de passarinho que aprende a voar, sempre em comunhão com o Sagrado, tinha-os em grande conta desde os tempos de seminário. Tomou seu lugar para ouvir o que a senhoria contava.

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Conheciam-se, D. Ruth e ele, almas gêmeas que eram, feitas de florações e passaredos e da simplicidade de quem busca uma coisa só: o concerto para o corpo e para a alma. E foi sua vez de falar... E falou de escolas que prendem e libertam, falou do dom de educar, da beleza que é saber ouvir, de pássaros pousados em dedos e lagartas que aprendem a voar.

Aquilo era lindo! No puro-puro, honesto e sem gabolices. Ruth, Rubem e a nobreza do simples. Deus orgulhava-se (vaidoso que estava) pelo que criara.

E a prosa corria fininha, cada qual na reverenda sapiência de ao outro escutar. Quando avisa, bonachona, conhecida voz de tenor:

- Ô de casa, tô chegando!

- Se achegue, João Ubaldo! Venha que a prosa é boa. Todo o céu é louvação, pela graça de quem das letras fez sagração. Fale-me, também das gentes, do seu povo brasileiro.

João ri seu riso rouco, coça o dorso da cabeça e prepara a narração. Entrementes ouve-se, ao longe, som de pífaros armoriais e o arrastar das sandálias do agreste venerando. E João, com ditosa ironia, cita o recém chegado: "Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre".

A Virgem, compadecida, antecipa-se na recepção:

- Ariano, filho amado, que a mim tem devoção, chegue em paz, sinta-se em casa, a mãe lhe estende a mão.

- "Valha-me Nossa Senhora, Mãe de Deus de Nazaré!", meus amigos deem licença à minha profissão de fé.

Burburinho na assembleia com um quê de indignação: Ruth, Rubem, João Ubaldo e Ariano, tudo junto e ao mesmo tempo, o Eterno errou a mão? E as boas letras, como ficam, há peça de reposição?

D. Ruth resignada, consolando a si e aos outros, dizia que "Deus sabe o que faz e a gente não sabe o que diz (...) Se aconteceu, é porque era bom que acontecesse.". Rubem concordou, justificando que "a morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A reverência pela vida exige sabedoria para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir". João Ubaldo filosofou que "muito daquilo que os desavisados chamam de sobrenatural é, na verdade, outra das incontáveis faces do natural, não percebida pelos sentidos rudes ou mirrados da grande maioria.". E Ariano, sobre o acerto (ou o erro) do Senhor ao reunir tal quarteto, no mesmo tempo e lugar, a discussão encerrou:

- De tudo posto, certo ou errado, "não sei. Só sei que foi assim!".

E o céu pareceu mais bonito.

(Todas as citações em itálico são de autoria de Ruth Guimarães, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna)

Ana Lygia dos Santos é bacharel em Letras com habilitação em Literaturas e Produção Textual.

 
 
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