Nº 58 | julho / agosto 2014
Focus

De escritor para escritores | Percival Tirapeli

Escolhido para dirigir aos colegas, no "dia do escritor", algumas palavras alusivas ao ofício de escrever, o Prof. Dr. Percival Tirapeli encantou aos presentes com seu discurso do qual O Lince subtrai alguns extratos:

"Nestas breves palavras que dirijo a vossas senhorias gostaria inicial-mente de agradecer à vereadora Márcia Filippo, pelo convite e pelo interesse demonstrado pela cultura neste Dia do Escritor.

Escrever é uma arte, ou seja, um domínio do idioma para esclarecer e emocionar aquele que busca na leitura uma forma de cultura e prazer. As palavras escritas permanecem apenas latentes até que os olhos as revivam, ora abertos com brilho, ora cerrados com devaneios ou incertezas. Os lábios podem balbuciar ou se fechar com as frases na busca da verdade, ou suspiros no encontro com os sonhos.

As imagens se formam e o encontro entre o escritor e o leitor completa-se neste mistério entre as palavras impressas, agora revividas ao serem lidas, consumidas e deglutidas.

Não se viveria sem a literatura, e o mundo, com certeza, seria por demais pequeno sem a sua História, antes apenas recontada oralmente. Logo, codificada na escrita e em seguida interpretada pelas teorias e hipóteses.

Hoje, minha fala norteia-se em parte pela publicação Aparecida, A multiplicidade do Olhar (2000), organizada por Alexandre Lourenço Barbosa, na passagem para este século, As leituras que aqueles autores fizeram sobre a cidade de Aparecida explicitam o olhar de cada um deles sobre o mesmo tema: análises históricas, com dados, datas e nomes daqueles que construíram, em um tempo e espaço, o caminhar da cidade e da sociedade; outros, serviram-se da memória afetiva, da vivência, dos fatos filtrados pela emoção, reconstruindo assim a história imaterial que norteou a vida. É o olhar do observador dos fatos, dos mais simples, do dia a dia, até os atos milagrosos ou heroicos de que se ouviu dizer.

Ainda há aqueles outros escritores, pesquisadores, instrumentalizados por teorias que podem ver além do real, interpretar o inconsciente e explicitá-los à luz esclarecedora das intenções e mesmo previsões sobre os atos humanos.

Olhar a cidade sobre a colina, de pequena capela até hoje desaparecida, a velha basílica entre as massas dos edifícios, verdadeiros paralelepípedos verticalizados, não é olhar apenas ao passado mas antever futuros.

Cada autor deixa sua marca, sua melhor forma expressiva. Crônica, conto, romance e poesia fazem parte deste mundo da escritura, expressão máxima para o esclarecimento dos sentimentos humanos.

Aparecida não caberia apenas na literatura, nascida que foi de fatos milagrosos - encontro da imagem e seus desdobramentos - e, em consequência de políticos - a passagem do Conde de Assumar por Guaratinguetá. Esta gênese da cidade instiga tantas outras formas expressivas para explicitar e mesmo louvar aquele fenômeno nascido entre o popular e o erudito, o religioso e o político, marcas que até hoje envolvem a leitura do verdadeiro fenômeno que é Aparecida.

Assim, Aparecida ressurge além das palavras impressas para visualizar-se ainda no início do século 19 em desenhos de Thomas Ender (1817), Julien Pallière (1821) e Jean Baptiste-Debret (1827). Os viajantes cientistas como Saint-Hilaire (1822) já escreviam sobre a imagem milagrosa e Emilio Zaluar (1860) já falava da repercussão da imagem em grande parte do país.

Ampliar imagens

A imagem da Virgem ganharia logo gravuras, estampas e, no final do século 19, fotografias divulgando a Velha Basílica, iniciando assim um ciclo de fixação imagética de Aparecida no imaginário do povo pau-lista, mineiro e por fim o brasileiro. Seguiram-se as modas de viola, as preces cantadas e as infindáveis cantigas de louvações ritmando as romarias primeiro pelas águas, depois caminhos entre as montanhas, a ferrovia e o asfalto.

Palavras ritmadas que apenas o mistério da mente do escritor poeta po-de captar. Tão válidas ainda hoje, que o escritor sabe pontuar a caneta como espada, o teclado como detonador.

Recorro agora à alma pura de Ariano Suassuna, morto ontem, que suspensa ainda entre a terra e o céu, domínios do terreno da materialidade e da imortalidade espiritual, vagueia na busca de compreensão dos nexos ancestrais: os fatos miraculosos com aqueles reais; os atos religiosos com os políticos; aqueles culturais do povo na busca nebulosa da imaterialidade e dos eruditos a orientar com ilumina-ção, instrumentalizados pela frieza da razão.

Suassuna lutou por esta união das desigualdades culturais que assola a realidade de nosso país, o abandono e silêncio do sertão e o urbano ruidoso e sobrecarregado. A literatura, a poesia musicalizada, nos dão a dimensão tanto do isolamento como a sensação do convívio com as almas conectadas na virtualidade. Ir até o altar da Virgem e apenas mostrar o olhar nos dá a profundidade do abismo ao redor dos caminhos dos escritores, na busca do esclarecimento do acúmulo dos fatos que devem ser discernidos por teorias, números e imagens.

Materializar em frases, sequência de pensamentos, aquilo que nos remete ao significado da vida e a busca de um lugar no universo, assim situa-se o escritor. Solitário no pensamento que será público. Olhar fixo no documento antigo, amarelado e que requer novas interpretações. A dúvida do acerto naquela mensagem que ganhará a velocidade dos meios de comunicação. São as agruras do escritor que entusiasmado inicia a obra. Sisudo entre os escritos e extenuado na correção final. Ansioso na busca do patrocínio, na qualidade da publicação, e incerto no sucesso da obra. Solidão, angústia, fazem parte deste prazer intelectual, incompreensível aos voltados apenas às buscas materiais e imediatismos.

Finalizo estas palavras a homenagear hoje a todos aqueles que constroem a cultura aparecidense e, em especial, com os quais tive a honra de conviver, mesmo que pelo breve período de 1964 a 1971, como Conceição Borges Ribeiro Camargo, José Luiz Pasin e Zilda Augusta Ribeiro. E os artistas: meu primeiro professor de desenho, Guido Machado Braga, o amigo Antônio Valentim Lino e José Roberto dos Santos, para quem, em nosso primeiro encontro, eu ainda com 14 anos, tive que fazer uma cópia de Mona Lisa. [...]

Obrigado pela atenção de todos.
 
 
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