Nº 58 | julho / agosto 2014
Editorial

Inocentes úteis? | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

As frequentes e quase invariáveis imposturas dos políticos brasileiros fizeram lugar-comum o entendimento de que políticos são todos iguais naquilo que há de eticamente abominável no exercício de suas funções. Sem nenhuma dúvida, os exemplos a corroborar tal sentimento são incontáveis. E parece ser este o quadro imperante para o qual contribui, de forma definidora, a grande mídia impressa e rádio-televisiva do país. Contudo, ser reticente a tal "discurso fácil", repleto de clichês, é não apenas sinônimo de prudência, mas de imposição lógica para quem visa superar as tautologias imobilizadoras.

O problema, todavia, não está apenas na universalização como verdade de uma premissa que exige verificação, mas no sofisma que ela alimenta, ou seja, "se nenhum político é honesto e todos os demais estão condenados a corromper-se ou tornam-se impotentes para transformar a situação, então nada resta a fazer e o voto torna-se inútil como instrumento de mudança". Tal forma de pensar exprime uma espécie de "ser crítico pela metade", visto limitar-se a uma descrença generalizada que nada propõe.

Fatalistas, fechamo-nos nas crenças e ao enclausurarmos a capacidade criadora da inteligência humana, única capaz de encontrar alternativas quando a história parece não oferecer saídas, tornamo-nos inocentes úteis a contribuir, com pensamentos e ações, para a perpetuação do estado de coisas que desejaríamos fosse outro.

Assim, poderíamos perguntar: a quem interessa o discurso que afirma que políticos "não prestam" a não ser aos considerados como tais e àqueles que se favorecem de tal situação? Quem, entre os que se consideram probos, se arriscaria adentrar ao universo político sabendo que, de antemão, está negativamente julgado e condenado?

Recorrente e enfadonho, o discurso da aversão à política e/ou aos políticos como sinônimo de integridade moral de quem o emite tornou-se bordão e, antes de ser uma antinomia, é um complemento da popular maneira de enxergar o fenômeno de como são estabelecidas as relações de poder em nossa sociedade. Segregacionistas, nos apartamos do mundo da polis e fazemo-nos algozes de nós mesmos, fortalecendo o astucioso modo capitalista de pensar ao abdicarmos do direito de decidir.
Quando o assunto político é democracia, somos - ou deveríamos ser? - todos timoneiros a definir o que consideramos a melhor rota, mesmo que nos equivoquemos. E esse assumir o controle é tarefa nada fácil. Renunciar a ela, contudo, é deixar campo livre aos insaciáveis e vorazes oportunistas afeitos aos caminhos aplainados pelo trabalho alheio. Consciente ou inconscientemente, é colocar-se como combustível a alimentar as engrenagens sofisticadas que perpetuam os privilégios daqueles que aprenderam, "com louvor", a péssima lição política da indiferença ao coletivo.

Resta indagar sobre a compatibilidade entre o capitalismo e a democracia. De um lado, um modelo econômico cuja hegemonia está assentada no discurso que fortalece o indivíduo e prevê a mobilidade social como possível e acessível aos mais capazes - esta crença é fundamental para tornar aceitável uma condição humana que resulta da história e não da natureza. Por outro lado, um projeto de sociedade que prevê a superação das desigualdades sociais geradas no bojo de uma estrutura desigual de distribuição de bens e benefícios.

Se incompatíveis, como fazê-los coexistir? Banalizando e submetendo a democracia a um modelo econômico aparentemente indômito; metamorfoseando-a em um conjunto de práticas de legitimação caracterizadas pela forma e não pelos efeitos transforma-dores de que possa ser portadora; e gerando, no imaginário popular, o desejo de aperfeiçoar um sistema econômico como se dele fosse resultar o estado de progresso material ideal que permitiria corrigir as disparidades geradas ao longo do tempo.

Assim nascem e renascem, diariamente, as convicções que retroalimentam as grandes massas incapazes de encontrar alternativas inteligentes para seus problemas, preferindo manter-se em seus altares de ouropel reluzindo, a partir de uma moralidade inepta, uma crítica inócua.

Inocentes úteis, se movem rigorosamente segundo as invisíveis regras de um complexo tabuleiro onde o 64, mais que um múltiplo de casas brancas e pretas, serviria apenas como expoente de um número astronômico.
 
 
Lojas Calsul Valle e Azen Sociedade de Advogados
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000