Nº 58 | julho / agosto 2014
Artes

Mãos que esculpem o divino | Da Redação

Há pouco mais de uma década, aportava no Santuário Nacional de Aparecida um jovem de pouco mais de vinte anos que trazia como currículo uma experiência de artista acumulada, intuitivamente, desde os treze anos de idade, quando transferiu-se do Rio de Janeiro para Várzea Grande, cidade contígua à capital matogrossense, onde passou a trabalhar, em um atelier, confeccionando peças em isopor e papel machê. Seu talento para a escultura já o demonstrara desde menino, na praia, modelando com areia. Daí para juntar o cimento e partir para os primeiros experimentos com esculturas monumentais não tardou.

Logo, Alexandre Lima de Morais, este jovem escultor nascido em Araruama-RJ, na região dos lagos, assumia a responsabilidade de modelar, com a técnica do concreto armado, dezenas de esculturas sacras para a ornamentação da Basílica do Divino Pai Eterno, santuário católico administrado pela congregação redentorista, na cidade de Trindade- GO, localizada a 25 km de Goiânia.

Do santuário goiano para o santuário nacional, segundo Alexandre Morais, a indicação de Padre Everson, de Trindade- GO, ao Padre Ronoaldo Pelaquim, de Aparecida- SP, valeu o passaporte.

Sua chegada ao Santuário Mariano, no final de 2002, foi ensejada pela intenção dos administradores da Basílica Nacional de construir um presépio que unisse, em uma só cena, os elementos tradicionais universalizados pela igreja a partir da criação de São Francisco de Assis, no século XIII, com os elementos de fé popular ligados ao divulgado encontro de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas águas do rio Paraíba do Sul.

Durante quase quatro anos, Alexandre Morais, orientado por padre Pelaquim, modelou mais de 70 peças que formaram um presépio permanente e a céu aberto intensamente visitado pelos romeiros que ali se veem representados por personagens da miscigenada cultura brasileira. O nascimento de Jesus e o encontro da imagem Aparecida são os episódios destacados deste criativo cenário.

Enquanto concluía, em 2006, as últimas peças que comporiam o "presépio dos romeiros", Alexandre Morais já se ocupava de um novo projeto: modelar esculturas monumentais dos doze apóstolos a serem colocadas na colunata adrede preparada para adornar a praça diante da tribuna Bento XVI.

As três primeiras esculturas - São Pedro, São Paulo e Santo André - foram feitas ainda em 2006, mas mudanças na administração do santuário abortaram a iniciativa. A retomada da ideia original só foi possível, segundo o artista, no final de 2008 e início de 2009, após o retorno à administração daqueles que a conceberam: "mandaram me buscar onde eu estivesse, e tenho muito respeito e gratidão pelo padre Darci e pelo padre Pelaquim pelo que me permitiram realizar", diz o escultor responsável pelas obras.

Alexandre também afirma que foi sua a decisão de fazer as imagens com quatro metros de altura, única maneira de assegurar a proporcionalidade das dimensões entre o espaço construído e os elementos de arte a serem adicionados. Decisão acertada quando se observa o conjunto arquitetônico-escultórico harmoniosamente disposto, avivando os personagens bíblicos sem agredir o estilo adotado pelo arquiteto quando da idealização da igreja.

Ampliar imagens

Cada peça, pesando entre 3,5 e 5 toneladas, foi modelada na posição horizontal - primeiro a frente e depois as costas - para somente após finalizada ser colocada em pé para receber o acabamento. Concluídas, as esculturas foram içadas aos seus altares no dia 10 de agosto de 2011 impactando, desde então, os olhares dos milhões de devotos que, anualmente, visitam a segunda maior basílica do mundo.

O talento incomum deste jovem artista que, ao longo dos últimos vinte anos, especializou-se em uma arte sacra de estilo rústico, monumental e, porque não dizer, popular, tem cumprido, tanto em Trindade-GO quanto em Aparecida-SP, uma função catequética fundamental, qual seja a de permitir o diálogo com os fieis menos letrados através da linguagem simples e direta da imagem.

Apenas duas décadas foram necessárias para que este escultor produzisse e espalhasse, por diferentes estados do país (Goiás, São Paulo, Mato Grosso, Rio de Janeiro, Tocantins, Rondônia etc), mais de quinhentas obras de sua autoria, o que demonstra, além de muito talento, uma enorme capacidade de trabalho, com uma média superior a duas peças produzidas por mês, algumas delas gigantescas, chegando a ter mais de 5 metros de altura, como é o caso do Sagrado Coração de José, instalado no Santuário das Aparições, em Jacareí-SP ou o obelisco da "Cidade do Romeiro", em Aparecida-SP.

Além do "presépio dos romeiros", Alexandre Morais foi o responsável pela modelagem, por três anos consecutivos, por ocasião dos festejos natalinos, de um presépio de sucata (2010), outro de areia (2011) e um terceiro de fuxico (2012). Sua versatilidade com sempre igual qualidade impressionam e fazem dele um promissor nome da estatuária popular.

Ao lado de Adélio Sarro e Cláudio Pastro, compõe a tríade de artistas plásticos brasileiros responsáveis pelo embelezamento, com obras de arte, das áreas interna e externa do santuário nacional.
 
 
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