Nº 58 | julho / agosto 2014
Artes

Olhos que escutam: Os Músicos de Jorge Azeredo | Angélica Sansevero Rodrigues

Assim, tal como as sinfonias se apresentam como marcos na carreira de um compositor, os "Músicos" do artista aparecidense Jorge Azeredo representam o culminar de uma visão artística, a dado momento de sua carreira.

Os títulos Violonista I, II e III, Guitarrista, Baterista, Sanfonista, Saxofonista, entre outros, são confirmados logo ao primeiro contato do olho-leitor com a superfície das telas (fig. 1).

Uma sonoridade interior1 configura-se em meio às formas geométricas pintadas pelo artista, ora em tons claros, ora em tons escuros.

Essas formas geométricas construídas teriam força por si só, mesmo que não estabelecessem conexão com objetos do mundo natural. Entretanto, no caso dessas obras, as formas geométricas constituem a relação músico-corpo-instrumento.

Pablo Picasso, a partir de 1912, inseriu na tela o que havia sido o campo habitual da pintura, pedaços de papel e pano, rótulos de charuto, corda e madeira - texturas diversas que não eram produzidas pelo pintor, mas importadas. Esses elementos estranhos foram, então, colocados em contato com outros bem diferentes (fig. 2).

Segundo Meyer Schapiro

uma nova série de pinturas foi dominada pelo tema de instrumentos musicais, especialmente instrumentos de mão - bandolins, violões, violinos -, e por objetos de mesa - itens para fumantes, livros papéis -, diversos elementos que pertencem a uma esfera de manipulação, porém, instrumentos musicais, principalmente. (2002, p. 38)

Essa fase incluiu também a introdução da escrita e de objetos, a colagem. Percebemos então, "o desenvolvimento da ideia de aplicar à pintura, que é uma coisa do mundo, objetos do mundo no mesmo nível do caráter de ?coisa?". (idem, p. 39)

Esses "textos visuais", criados por Picasso, mostram que o artista se apropriava de letras, fragmentos de texto de jornal, partituras musicais, tirando-os do seu contexto e dando a eles outro significado: são textos-escrituras, sem o objetivo de comunicar uma mensagem, mas existindo como uma realidade em si mesma. A letra volta então a ser desenho, contribuindo para eliminar os limites entre o texto e a pintura.2

Na série "Músicos", Jorge Azeredo apropriou-se do cromatismo da cor vermelha, fazendo-a expandir como cor quente em oposição ao cromatismo da cor azul fria que se contrai, na superfície das telas.

Com as linhas negras, o artista criou inúmeras oposições, que ao mesmo tempo em que se equilibram, também emolduram os fragmentos de cor e colagem das composições. (fig. 3)

Tanto as cores quanto as linhas empregadas pelo artista nos deixam pistas de diversos movimentos traçados por pincéis e sobrepostos na materialidade do óleo sobre as telas. A matéria tinta óleo mostra-se então recorrentemente trabalhada na gestualidade do pintor.

As partituras despontam com uma função diferente em relação aos outros itens que compõem as obras dessa série. Mais do que a forma dos recortes que delimitam o papel, esse mesmo material, exibe-se como fragmentos de cultura. (fig. 4)

Na ação de cortar as partituras, a tesoura, acionada pela mão do artista, constrói a forma dos recortes desejados e a cola como mediadora do processo, mantém a aderência dos fragmentos, por meio do gesto de alisar e pressionar as mãos sobre eles.

Dessa forma, os "Músicos" se tornaram objetos de si mesmos construídos pelo artista com elementos que ele descobriu por meio da análise dos procedimentos e recursos da realização das pinceladas e das colagens que constroem os diversos signos das obras observadas. (fig. 5).

São pinturas em que o artista desfruta os reflexos e seu próprio poder de manipular estágios diferentes do que chamamos realidade: o objeto real, o objeto simulado, a conjunção destes, e diversas construções que os unem.

Ampliar imagens

Os "Músicos" de Jorge Azeredo fragmentados em sua forma e materialidade expressam alegria em sua mobilidade, sua presença anônima e na intensidade de suas atuações, mostradas na veemência dos contrastes, nos ângulos pronunciados, na sagacidade dos detalhes e nas surpreendentes variações de cada parte que reaparece, como olhos, nariz, mãos, instrumentos.

O artista os apresenta para nós como novas maneiras de abordagem do espaço pictórico, pela utilização de diferentes procedimentos artísticos que, associados livremente, quebram modelos, rompem estruturas e abrem novas perspectivas para o diálogo entre texto e imagem.

NOTAS
1O termo "sonoridade interior" sugere a analogia com o universo sonoro. O artista plástico Wassily Kandinsky, despretensiosamente, aplica esse termo como uma maneira mais eficaz de relacionar o princípio da necessidade interior com outros códigos além do sonoro (sonoridade interior da cor, da palavra, da forma e do som de uma nota musical). Desse modo, o artista procura relacionar esse sentido interior da música, não tangível, com outras artes e seus meios (GUEDES, 2011, p. 53).
2VENEROSO, Maria do Carmo de Freitas. Cubismo e Bricolagem. In: O diálogo imagem-palavra na arte do século XX. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v.14, jul-dez, 2006, p. 150.

REFERÊNCIAS
BUORO, Anamelia Bueno. Olhos que pintam: a leitura da imagem e o ensino da arte. São Paulo: Cortez, 2002.
GOMEZ, Filipa. A música na obra de Kandinsky. Faculdades de Belas Artes de Lisboa, Mai. 2003. Disponível em: < http://www.arte.com.pt/text/filipag/musicakandinsky.pdf> Acesso em: 20 mai. 2014.
GUEDES, Ângelo Dimitre Gomes. Wassily Kandinsky: Do espiritual da arte a proposta da sonoridade interior. Dissertação de Mestrado - Universidade Plesbiteriana Mackenzie, São Paulo: 2011. Disponível em: http://tede.mackenzie.com.br/tde_arquivos/6/TDE-2011-10-21T154854Z 1234/Publico/Angelo%20Dimitre%20Gomes%20Guedes.pdf> Acesso em 28 mai.2014.
SCHAPIRO, Meyer. A unidade na arte de Picasso. São Paulo: Cosac&Naify, 2002.
VENEROSO, Maria do Carmo de Freitas. O diálogo imagem-palavra na arte do século XX. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v.14, jul-dez 2006. Disponível em: file:///C:/Users/Admin/Downloads/1365-4246-1-PB.pdf Acesso em: 26 mai.2014.

SITIOGRAFIAS
jornalolince.com.br/galeria/azeredo/azeredo
Acesso em: 26 mai. 2014.

istoe.com.br/reportagens/129068_O+CHOQUE+DO+NOVO
Acesso em: 26 mai. 2014.
 
 
 
 
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