Nº 56 | março / abril 2014
Memória

O desaparecimento do mais antigo arquivo musical de Pindamonhangaba | Paulo Castagna

Na década de 1970 esteve recolhido ao Museu Histórico e Pedagógico Dom Pedro I e Imperatriz Leopoldina, de Pindamonhangaba (SP), um arquivo musical de singular importância histórica para o Brasil e que parece ter sido o mais antigo do gênero na cidade e provavelmente em todo o Vale do Paraíba, com cópias que remontam a 1793. No ano 2000 esse arquivo já era dado por desaparecido. Mas ainda haveria alguma possibilidade de reencontrá-lo?

A história desse arquivo é obscura antes de sua transferência para o museu, mas foi esse o fato que lhe deu visibilidade pública e acabou participando do seu destino. Fundado em 1957 e instalado em 1972 no antigo palacete que havia pertencido ao Visconde da Palmeira, como parte das comemorações do sesquicentenário da Independência, o Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina encarregou-se de preservar objetos e documentos históricos da cidade. Uma campanha pública, destinada à constituição do acervo do museu foi lançada nesse mesmo ano, visando a doação de objetos e documentos que pertencessem a colecionadores particulares da região. E um dos resultados dessa campanha foi a consignação, ao museu, do arquivo que pertenceu ao músico cujo nome é homenageado na Praça Maestro João Antônio Romão, no Jardim Santa Cecília de Pindamonhangaba.

De acordo com uma pesquisa de Marcos Júlio Sergl1, o músico João Antônio Romão (cujo sobrenome aparece às vezes como Romato) foi provisionado mestre da capela da Paróquia de Nossa Senhora do Bom Sucesso de Pindamonhangaba em três oportunidades (1899, 1900 e 1901), sucedendo nesse cargo ao conhecido compositor João Gomes de Araújo (1846-1943), que havia sido provisionado nessa função em 1872 e 1880, antes de viajar para a Itália, onde aperfeiçoou-se e estreou várias de suas composições.

Altair Fernandes2 informa que, em 1903, João Antônio Romão passou a dirigir a Corporação Musical Euterpe (que havia sido fundada em 1825 por João Batista de Oliveira), a mais antiga do gênero ainda em atividade no Estado de São Paulo. João Antônio Romão foi sucedido por José Benedito Romão (o Juca Romão), que atuou à frente da corporação até 1954. E seu filho, José Benedito Romão Junior, chegou a tocar na banda por mais de 50 anos, tendo sido saudado, à entrada do século XXI, como o mais antigo integrante da corporação.

O arquivo musical de João Antônio Romão, formado durante sua atividade tanto na Paróquia do Bom Sucesso quanto na Corporação Musical Euterpe (e que também deve ter recebido manuscritos de alguns dos seus antecessores), acabou sendo mantido pela família Romão até inícios da década de 1970, quando surgiu a campanha de doações ao Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina e foi para lá transferido, em consignação.

Nessa década, o arquivo atraiu a atenção de vários musicólogos brasileiros e foi visitado por Cleofe Person de Mattos (que em 1970 havia publicado o catálogo de obras de José Maurício Nunes Garcia), Geraldo Dutra de Morais (membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo), e George Olivier Toni (professor da Universidade de São Paulo), quem microfilmou, com o auxílio de seus alunos, uma pequena parte do arquivo, em 1975.

Uma reportagem de Luiz Ellmerich, publicada nesse mesmo ano3, assegurava a existência, no arquivo, da impressionante quantidade de “três mil partes musicais, muitas delas, infelizmente, em péssimo estado de conservação”. Entre estas, o jornalista destacava uma Missa de José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita (1746?-1805), uma Procissão de Domingo de Páscoa de José Rodrigues, datada de 1793, um Ofício de Quinta-feira Santa de [Manoel] Dias de Oliveira (c.1735-1813), as Matinas da Páscoa de Francisco de Paula Toledo (de Lorena), datadas de 1836, as Matinas do Espírito Santo de Francisco Manuel da Silva (1795-1865), copiadas em 1838, e um Te Deum laudamus de José Maurício Nunes Garcia (1767-1830), não catalogado por Cleofe Person de Mattos.

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Na década de 1980, entretanto, o Museu Pedro I e Imperatriz Leopoldina foi desativado, e o arquivo de João Antônio Romão voltou a ser guardado pelos seus descendentes. Antônio Campos Monteiro Neto, em uma reportagem publicada em um número do ano 2000 do periódico eletrônico Movimento.com (infelizmente não mais disponível na internet), foi o primeiro a noticiar publicamente o desaparecimento do arquivo. De acordo com Monteiro Neto, circulou na cidade a notícia de que as músicas haviam sido guardadas em um galpão e que o seu desabamento, após uma forte chuva, havia destruído o arquivo. Teria sido essa uma destruição total ou parcial? E onde teria ocorrido esse episódio? Talvez o esclarecimento desses fatos ainda possa revelar a existência de alguns remanescentes do mais antigo arquivo musical de Pindamonhangaba.

A única notícia concreta, até o momento, é que restaram apenas os microfilmes de alguns dos manuscritos do arquivo de João Antônio Romão, feitos por Olivier Toni em 1975, e hoje recolhidos ao Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A maioria das composições representadas nesse arquivo, entretanto, pode estar definitivamente perdida. O desaparecimento de arquivos musicais como esse não é um caso raro na história brasileira e, menos ainda, um episódio do passado, uma vez que acervos musicais continuam a ser intencionalmente destruídos em todo o país, acarretando a perda de um patrimônio cultural inestimável. Conseguiremos reverter essa tendência?
Notas
1 SERGL, Marcos Júlio. Pesquisa: Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo - Livro de Paróquias (1880-1905). Integração: ensino, pesquisa, extensão, São Paulo, ano 4, nº 14, ago. 1998, p.199-202. ISSN 1413-6147. Disponível em: ftp://ftp.usjt.br/pub/revint/199_14.ZIP
2 FERNANDES, Altair. Curiosidades da Euterpe (2): A questão da data de fundação e fundador. Tribuna do Norte, Pindamonhangaba. Disponível em: .
3 ELLMERICH, Luiz. Músicas inéditas brasileiras descobertas em Pindamonhangaba. Diário de S. Paulo, São Paulo, ano 47, nº 14.212, p. 23, 05 ago. 1975.

Paulo Castagna é Doutor em Música e professor do Instituto de Artes da Unesp.

 
 
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