Nº 56 | março / abril 2014
Letras Valeparaibanas

São José do Paraíba | Augusto Emílio Zaluar

A vila de S. José dos Campos, ou do Paraíba, fica dez léguas além da vila de Caçapava, seguindo sempre a estrada geral de S. Paulo em direção à capital.

O caminho corre por terrenos mais ou menos ondulosos, e, já em grande distância antes de entrar na povoação, por cima de imensos aterrados, que, á custa de muitos trabalhos e sacrifícios, se conseguiu fazer nos brejos e enormes pântanos que se estendem a perder de vista, formando o leito de caprichosos vales.

Apesar da uberdade do solo e das muitas condições vantajosas que o lugar oferece a seus moradores, a vila de S. José do Paraíba está ainda em notável atraso, e é um centro de pouco movimentação, em relação, como dissemos, aos recursos de que dispõe.

Eis o que sabemos a respeito de sua fundação.

Os jesuítas escolheram êste ponto à margem direita do rio Paraíba, e nêle edificaram um colégio, onde doutrinaram, nos fins do século passado, grande número de Índios. Expulsos os jesuítas dos domínios portugueses, diz Milliet, a quem nos referimos nesta notícia, agregaram-se aos Índios alguns brancos, e o governador D. Luís Antônio de Sousa Botelho Mourão, segundo as ordens que do Marquês de Pombal havia recebido, lhe conferiu o título de vila em 1767.

A povoação está situada dezessete léguas ao norte da capital da província, em um alto que domina os grandes campos que os rodeiam, e demora em 23º 12 minutos de latitude e em 48º 4 minutos de longitude ocidental. Seu distrito compreende quatro léguas de largura sôbre cinco de comprimento. Confronta ao oeste com a Atibaia e ao sul com Jacareí.

Tem dois rios importantes, que são o Buquira e o Jaguari, que nascem nas abas da serra da Mantiqueira e percorrem o município até desaguarem no Paraíba, sendo ambos navegáveis em canoas mais de cinco léguas por êste rio adentro, e produzem abundantes peixes.

Os campos, que compreendem uma área de pouco mais ou menos quatro léguas quadradas, são excelentes para a criação do gado muar, cavalar e vacum.

O aspecto dêstes campos é realmente das vistas mais agradáveis que se pode imaginar! É um ar calmo de verdura luxuriante, entremeado de mil arbustos e bosques pitorescos, onde os caçadores encontram abundantes perdizes, a ciência muitas ervas medicinais, o naturalista peçonhentas cascavéis e outros reptis, bem como o viajante observador o tema eloquente para revestir com a imaginação as mais poéticas e curiosas descrições da opulenta e original natureza americana.

Trataremos mais tarde de fazer uma pintura dêstes campos naturais ou primitivos, que são uma das belezas mais curiosas desta parte da América Meridional e se estendem por tão vastas zonas de sua superfície.

O terreno agrícola é aqui o mais próprio para a plantação do café, cana, fumo e tôda a espécie de mantimentos, com especialidade o arroz e o milho, que tão bem produzem nos terrenos baixos.

Os sertões, ainda na maior parte incultos neste município, fornecem magníficas madeiras, que são cortadas em grande quantidade e conduzidas para as povoações do norte até à cidade de Lorena, a qual fica umas vinte e cinco léguas distante da vila.

Aqui existe muita caça de diferentes espécie, e é êste um dos motivos que mais têm concorrido para os hábitos nômades de uma grande parte dos moradores dêstes contornos, que acham inútil procurar outros meios de subsistência, tendo êste tanto à mão.

A vila, apesar de achar-se edificada sôbre uma belíssima eminência, não sobressai muito nem mostra grande desenvolvimento, pois as casas são quase tôdas baixas, as ruas desiguais e mal alinhadas, e os dois largos que nela se encontram não têm as necessárias saídas, e falta-lhes o adorno de alguns edifícios que atualmente se acham em construção, como a cadeia, casa da câmara e igreja matriz.

Perto da povoação, para o lado do Paraíba, existe uma capelinha chamada Santa Cruz, que é o lugar para onde costuma afluir o povo da vila, e que muito tem aumentado ultimamente em construções de casinhas, de modo que breve unirá êste ponto com o primeiro povoado.

É portanto êste município um fecundo manancial de riquezas naturais que a mão da indústria poderia explorar com facilidade, e conseguiria benéficos resultados, não só em favor do desenvolvimento local como da fortuna particular; mas a reconhecida indolência da maior parte de seus habitantes, e os vícios e costumes eivados de antigos prejuízos, conservam na esterilidade um torrão que parece regorgitar de seiva e pedir aos homens que o façam produzir e lhe inoculem pelo trabalho os gérmens da riqueza industrial.

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É triste realmente que um povoado tão favorecido pela natureza se veja pobre e humilhado diante dos outros municípios, e que, tendo proporções para socorrer os vizinhos, se ache forçado a recorrer a êles!

Tendo tôdas as condições favoráveis para exportar muitas centenas de mil arrobas de café, exporta apenas cem mil, tal é a falta de braços produtivos, e sobretudo de sistema e método nos processos de cultura ali empregados!

A sua população compreende talvez 8.000 almas e grande será a nossa admiração quando soubermos que 7.000 delas são consumidoras!

A’ exceção das pessoas mais ilustradas, dos fazendeiros e comerciantes, o resto da população é naturalmente indolente, preguiçosa e alheia a tôdos os regalos da civilização, contentando-se apenas com qualquer meio de subsistência, sem se importar qual será a sua sorte no dia seguinte nem donde lhe virão recursos.

Como a terra é aqui abundante e toca a todos, êsses homens, a quem se chama no lugar caipiras, cultivam a ferro e fogo o torrão que possuem, e plantam-lhe milho, feijão e a arroz. Colhido o seu produto, que sem muito trabalho podem haver, levam-no ao mercado, onde o vendem para comprar a roupa que lhes é necessária durante o ano, e regressam à casa, entregando-se outra vez aos seus hábitos de ociosidade, confiados na fertilidade do solo, que lhes fornece abóboras, aipim, batatas e outros gêneros, bem como das matas, que lhes oferecem palmitos, aves e outras muitas qualidades de caça, assim como nos rio, que os alimentam com muitos, variados e gostos peixes.

Nesta vida, quase completamente improdutiva, vão passando os anos e o tempo sem que se tire partido das grandes vantagens que promete o município, nem se desenvolva nenhum dos elementos de progresso que a natureza tão generosamente lhe confiou, “estando condenados, como observa um morador da vila que nos forneceu estas notas, a ver esvaecerem-se as nossas mais fundadas esperanças, deixando estéril o nosso solo tão fértil, e sem útil aproveitamento os nossos campos tão amenos, os nossos climas tão saudáveis, os nossos rios tão serenos, os nossos sertões tão opulentes e majestosos, tudo por falta de ação, de trabalho e de energia!”

Uma das cousas mais dignas de observar-se nesta localidade são os imensos brejos, a que dão aqui o nome de banhados, e que se estendem em grande distância aos pés da montanha em que está assentada a vila.

A vegetação descorada que nasce à superfície dêstes pantanais dá-lhes um aspecto singular, e parece que estamos em presença de um mar estagnado em perpétua calmaria. Aqui, afirmam-nos existir ainda muitos jacarés, se bem que a natureza do terreno tenda a modificar-se, de dia para dia mais sólido e compacto. Nas partes em que a terra é já firme e consistente gostam muito de pastar os animais, o que dá um realce pitoresco e agradável à monotonia da paisagem.

O município conta muitas lagoas, onde se fazem abundantes pescarias, e é enriquecido por numerosas pontes sôbre os seus mais importantes rios, como sejam o Paraíba, Buquira, Jaguari e outros.

Parece-nos êste um dos pontos da província de S. Paulo que, com tôdas as probabilidades de bom êxito, melhor se poderia aproveitar para a fundação de uma escola normal de agricultura. Nada falta no lugar para cabalmente satisfazer as exigências dum estabelecimento desta natureza.

Fica a idéia. Bom será que um dia alguém a ponha em prática.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
Valle e Azen Sociedade de Advogados ACIA
 
 
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