Nº 56 | março / abril 2014
História

Um panorama sobre mídia impressa de Guaratinguetá | Lauro Lam

Assim como um livro enfileirado na biblioteca, o jornal impresso perde espaço diariamente para as novas tecnologias. Até mesmo grandes publicações do País estão saindo com edições minguadas e as redações vêm se transformando em desertos de monitores e mesas. Se a crise atingiu os líderes do setor o que diríamos das pequenas publicações? Hoje é a vez da Internet e seus aplicativos abocanharem o mercado editorial. Reviravoltas que exigem muita criatividade para manter vivo o papel na mão de quem busca informação e prestação de serviço. Mas, lá atrás das rodas do tempo, o jornal reinou por décadas e décadas como o principal meio de comunicação. E as cidades do Vale Histórico Paulista tiveram preponderante participação através de seus veículos, contribuindo para o desenvolvimento da região ou de determinada ideologia partidária.

Registros históricos que se mantém em alguns museus, como no Frei Galvão de Guaratinguetá, onde há 70 diferentes jornais arquivados, em centenas de edições, inclusive do período Imperial, mas com muitos exemplares em más condições. Aliás, alguns estão deteriorados e quase não se consegue folheá-los. Situação precária que exigiria uma adequada digitalização por meio de parcerias público-privadas. Atividade que pouco tem despertado interesse político. Críticas à parte, o que vale neste artigo é voltarmos ao tempo. A imprensa guaratinguetaense do período Imperial refletia os debates de uma minoria, sendo uma verdadeira porta-voz ideológica dos políticos e seus respectivos partidos, como, por exemplo, era aliada ao partido Conservador ou Liberal.

O primeiro jornal a surgir na cidade foi “O Mosaico”, em 1858, sendo o quarto a ser lançado no interior de São Paulo, ficando atrás apenas de Sorocaba, Santos e Itu. Tendo como proprietário Valentim Ribeiro da Fonseca, era um semanal de quatro páginas. Publicava diferentes tipos de notícias desde as regionais como jantares, missa fúnebre, novenas, até internacionais como a presença de um vampiro em um trem francês, ou a morte de um parisiense, chegando a ladrões que estavam atuando na Califórnia. No exemplar de 1869 já há a presença de propagandas (livraria e loja de fazenda) e anúncios (venda de ventiladores e selins). Os dois exemplares que se encontram no Museu Frei Galvão estão em um estado ruim de conservação, um deles está em pedaços.

Somente no período Imperial, Guaratinguetá chegou a marca de 51 periódicos circulando em diferentes épocas, muitos de vida efêmera, como acontece até hoje em dia.
Outras cidades do Vale Histórico também se destacaram na mídia impressa durante o período. Lorena teve 23 jornais, Pindamonhangaba, 37, Bananal, 19, Areias, 15 e Queluz 4. Era o auge da produção cafeeira, a escravidão dava o tom da rotina e os fazendeiros mantinham suas posições a ferro e fogo. Até mesmo anúncios sobre fugas de escravos saíam nos periódicos. Foi o que aconteceu na edição de 1878 do jornal “O Cinco de Janeiro”, veículo do partido Liberal, de propriedade de Antônio Franco dos Reis, que tratava de assuntos literários e poéticos:

“Fugirão da fazenda do abaixo assignado, no dia 3 de setembro, do bairro da Roseira município desta cidade os escravos seguintes: Cosme, côr fula, barba raspada...”.

Interessante observar que alguns jornais possuíam duas edições semanais, circulando sempre às quintas e domingos. Era o caso do “Gazetinha” e “Correio do Norte”. O primeiro era oposicionista e fazia críticas a política vigente, principalmente cobrando saneamento básico em Guaratinguetá. Rafael Mafra e Ernesto Castro tocavam o veículo, tendo como colaborador Benedito Meirelles. O Museu Frei Galvão conta com exemplares de 1892 a 1898 do “Gazetinha”. Já o “Correio do Norte”, começou a circular no dia 30 de dezembro de 1888, sob responsabilidade de Antônio Vellozo Nogueira. Publicava assuntos da Câmara, do Matadouro, casamentos, notas humorísticas, falecimentos, classificados, anúncios e poesias. Era partidário da Prefeitura, imprimindo os balancetes de receitas e despesas mensais da cidade. Sempre estava na mira das críticas do “Gazetinha”.

Outro jornal do período Imperial que circulou em Guaratinguetá foi “A Estrella Paulista”. A primeira edição saiu em dezembro de 1863, voltado exclusivamente aos interesses dos fazendeiros. Tanto é que no dia cinco de fevereiro de 1865 um dos textos trazia uma notícia tanto quanto duvidosa:

“Suicidou-se na fazenda do sr. Capitão Manoel José Bittencourt Junior, um escravo de nome João, pendurando-se em um sipó.”

Informações históricas que podem ser acessadas no que ainda resta no Museu Frei Galvão de Guaratinguetá e que também constam em um breve resumo de cada publicação contido no trabalho de iniciação científica “Perfil da Mídia Impressa de Guaratinguetá”, elaborado há 13 anos por meio de uma bolsa de iniciação científica do Departamento de Comunicação Social da Universidade de Taubaté, sob coordenação do professor Dr. Robson Bastos da Silva e fotografias do professor João Rangel. São sinopses com fotos dos 70 jornais que estão arquivados no local.

CAVALO PARAGUAIO



Passado o período Imperial, Guaratinguetá continuou mantendo a tradição de lançar jornais. O problema é que a grande maioria não chegava na décima edição. Muitos não saíram da primeira, como é o caso do jornal do Pedregulho. Fundado no dia 12 de novembro de 1988, trouxe na capa uma matéria retratando um ano da queda da ponte metálica:

“Um jornal, uma ponte... Estamos a um ano da queda da ponte metálica sobre o rio Paraíba, em Guaratinguetá, aos 90 anos de existência...”

Assim como a ponte caindo, registrada pelas lentes de Petrônio Vilela, o veículo afundou logo em sua estreia. Francisco Fortes, então jornalista responsável, disse que o principal problema enfrentado foi a falta de incentivo financeiro. Outro veículo que também abordava o bairro em suas edições foi o “Voz do Bairro”, de 1958, que teve mais de cinco edições.
Mas, bem antes da década de 80, os esforços eram homéricos para manter as publicações rodando. Havia jornais de vários ramos de atuações. Das escolas e grêmios recreativos ao apoio de candidaturas a Prefeitura, de poesias aos interesses rurais, das badalações ao esporte e até os charmosos e pequeninos de bolso faziam sucesso. Cada veículo estampava bem claro qual era sua linha editorial. Pouco se praticava da chamada imparcialidade. E será que algum dia ela foi realmente levada à risca?
“A Campanha”, por exemplo, já estampava em sua capa: Partido Republicano Paulista. Consequentemente, criticava o Constitucionalista, como mostra este texto publicado na edição do dia seis de outubro de 1934:

“Significativo contraste... O celebre P.C., organizado em sua maioria de antigos elementos do P.R.P., com o sejam os que subscreveram grosseiro convite ao eleitorado local pelo seu directorio nesta cidade, usa de uma linguagem impropria a gente educada e cáe no terreno da falsidade, affirmando aquilo que elles muito bem sabem que não é verdade.”

Em contrapartida, “A Nossa Folha”, do Partido Constitucionalista, rebatia no dia sete de outubro de 1934:

“Operarios, à postos! o Partido Republicano Paulista foi o maior inimigo do operario, a desgraça da República passada! Têm amor nesses pobrezinhos inocentes? Votem só no Partido Constitucionalista.”

Quando determinado jornal investia na campanha política de determinado candidato ao Executivo municipal, a posição era totalmente aberta. Foto na capa e textos recheados de adjetivos vangloriavam o nome de quem bancava a publicação. Foi o que aconteceu no dia 12 de agosto de 1959, no jornal “A Cidade”. A manchete trazia as seguintes palavras: “Solução para problemas de Guaratinguetá: Lauro Abranches Moreira.” Mesma linha do “Folha Popular”, que em sua primeira edição do dia 24 de novembro de 1996, trazia um forte apelo a candidatura a prefeito de Benedito Geraldo de Carvalho. Exemplos de uma mídia provinciana que pouco se importou em investir em qualidade e independência jornalística. Para o jornalista Geraldo Dimas Carvalho Rosas, em depoimento no trabalho “Perfil da Mídia Impressa de Guaratinguetá”, o que influenciou na decadência foi a vaidade.

“Muita gente da comunicação aqui da cidade não pensa em termos profissionais e esquece que o jornal não é feito para os jornalistas e, sim, para o povo. As pessoas do ramo se colocam em um pedestal de fantasia, atrapalhando o desenvolvimento da mídia escrita, ou seja, já tentamos criar alguns diários, mas nunca chegamos a um consenso. Dessa maneira, cada produtor jornalístico acha que seu veículo é o melhor, aquela coisa provinciana. Tipicamente sucupiriana”, criticou Rosas.

Vale ressaltar que antigamente havia mais esforços para colocar jornais na rua. Tanto é que até mesmo as escolas públicas tinham seus veículos. “Infância”, de 1948, era dos alunos do Grupo Escolar Dr. Flamínio Lessa, publicando inclusive a classificação por porcentagem da frequência dos professores, uma atitude ousada. “Costa Braga”, de 1956, feito pelos estudantes da escola e ainda impresso na tipografia da unidade situada no bairro do Pedregulho. Já faziam pedidos de doações de livros para a biblioteca municipal da cidade. O grêmio Lítero Recreativo tinha seu jornal assim como a Escola Normal, com “O Repentino”, dedicado a mocidade guaratinguetaense. “O Radar” era a voz do Centro Estudantil na década de 40. A Faculdade de Engenharia da Unesp também manteve vários periódicos, como “O Vetor”, de 1968, e “Pesquisando”, de 1973.
Lutando pela emancipação político-administrativa, Aparecida contava com a força do jornal “A Liberdade”, fundado no dia 16 de março de 1924, por Júlio M. Braga. No dia três de junho de 1928 publicava:

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“Essa personagem ilustre que é o Exmo. Sr. Dr. Júlio Prestes saberá fazer justiça, dando a César o que é de César. Elle não se deixará illudir pelas lágrimas de um crocodillo peçonhento, que de lobo faminto vestir-se-há com pelle de ovelha, para mais uma vez vedar o caminho do nosso progresso.”

Lá na década de 50, o “A Garça” já criticava um problema que persiste pelas ruas de Guaratinguetá.

“...Sr. prefeito, precisam ser cuidados êsses calçamentos. Nossas ruas mostram um aspecto miserável e nossos passeios são buracos com alguns ladrilhos. Ruas centrais, ruas adjacentes, envergonham nosso povo pela crítica dos visitantes...”.

Os esportes também tinham vez nos jornais e eram destaques no “Jornal da Esportiva”, feito por Gilberto Braga e Carlos Marcondes; “Jornal do Skate”, administrado por Antônio Carlos Junqueira Ribeiro e Leonardo Quissak e “O Bolão”, tocado por José Mário de Oliveira. Notícias rurais tinham espaço garantido no “A Lavoura”, de 1924, e “Jornal da Terra”, de 1993. Nos anúncios, muitos sem imagens, a criatividade era uma marca registrada. Na edição do dia 16 de julho de 1905, “A Gazeta Paulista” publicou um texto que chega a soar como irônico para vender o licor de cacau Xavier.

“O salvador das créanças!!! O rei dos lombrigueiros!!! Gosto agradável, sem dieta, não precisando purgante. O único medicamento que faz expellir as lombrigas sem irritar os intestinos. Preço 1$500.”

POLITICAGEM



No campo político, logo no início do século 20, as rivalidades aconteciam entre os Partidos Republicano e Constitucionalista. Ou também entre famílias que lutavam para manter o poder na cidade. Logo no começo da República, a família Rodrigues Alves assumiu o comando da política local e o jornal da situação era o “Correio do Norte”, tendo como principal rival o “A Gazeta Paulista”, que era oposicionista e administrado por Américo Mascate. Quando começaram as constantes divergências entre os “alvistas” e “camarguistas”, surgiu “O Pharol”, comandado por políticos do Partido Republicano Paulista, tornando-se o líder dos oposicionistas locais. “O Pharol” participou da história política de Guaratinguetá, fazendo oposição aos Rodrigues Alves, ao lado do Dr. João Batista Rangel de Camargo, que liderava a partidária contra os chefes da época. Naquele tempo só existia o P.R.P. “o frondoso e robusto jequitibá” a que todos pertenciam. A partir de 1927, nasce “O Eco”, com bons redatores, como o autodidata Ferreira Júnior, que aos nove anos de idade fundou o jornalzinho “A Gaivota”, publicando em sua primeira página a poesia “Oh Brasileira”. Também foi um dos fundadores da Associação Paulista de Imprensa.

Dentre os políticos da cidade que se destacaram, auxiliando seus trabalhos no desenvolvimento da imprensa escrita, podemos destacar o Conselheiro Francisco de Paula Rodrigues Alves, eleito Presidente da República, em 1902, com 316.248 votos. Também venceu as eleições de 1918, tendo 592.039 votos, mas não assumiu o cargo por motivos de saúde, falecendo no dia 16 de janeiro de 1919. O vice que comandou o País foi Delfim Moreira. Outro nome que contribuiu com a formação de vários jornais foi André Broca Filho. Ele apoiou muito a imprensa escrita da cidade. Sendo prefeito a partir de 1948, ele também assumiu cargos importantes, como de deputado federal e estadual. Auxiliava financeiramente o semanário “Correio Paulista”, apoiando fielmente o Partido Social Progressista, PSP. A sua liderança e credibilidade junto ao povo contribuiu com a imprensa, transformando muitos discursos em pautas. Após deixar de lado a atuação política, Guaratinguetá elegeu poucos deputados, como Zollner Machado, Lauro Abranches Moreira, Rafael Américo Ranieri, Chicarino e mais recentemente Marcelo Ortiz. Mas nenhum teve uma ampla influência na mídia impressa como André Broca Filho. Muitos profissionais que ainda atuam nos jornais do município reclamam que falta uma liderança política para alavancar os jornais, mesmo neste atual cenário de crise.

CENÁRIO ATUAL



Apesar de poucos dos antigos jornais permanecerem com edições sendo publicadas na segunda metade do século 20, nenhum mantém uma qualidade técnica casada com o atual momento em que vivemos. Perderam espaço e hoje sobrevivem graças a uma gráfica do tempo da roda mantida pelo gráfico Hélio Naideg, sem falar nos fieis anunciantes. Guaratinguetá conta hoje com poucos jornais impressos. O mais procurado é o “Notícias” por conta dos classificados. O veículo tem poucas matérias e publica mais notas sobre assuntos diversos, principalmente festas religiosas ou eventos em geral. Ainda em vida, seu fundador, Marcelus Andrade, afirmou que a ideia de seu jornal é justamente esta.

“Não adianta publicarmos uma boa matéria, retranca legal, não adianta, porque não tem quem leia o jornal. Faço um produto adequado com a realidade da população” , disse em entrevista para “O Perfil da Mídia Impressa de Guaratinguetá”, arquivado no Museu Frei Galvão.

Atualmente, a cidade vem tendo um “boom” de revistas que estão conquistando uma fatia considerável do mercado publicitário. Trata-se de uma inovação que abriu uma boa concorrência mercadológica com as Rádios e TVs. Outros jornais crescem a passos lentos, mas continuam saindo há mais de 10 anos, como é o caso do Atos. Novos se apresentam, mas poucos demonstram uma independência editorial. Já a criação de um diário na cidade é vista como uma utopia pelos profissionais que já atuaram na mídia impressa. O jornalista Arthur de Castro Fortes acha que a dinâmica do Rádio acabou com os jornais, assim como a ausência de uma liderança política nas esferas estadual e federal. Já Francisco Fortes opina que falta união.

“Creio que muita gente de fora leva o dinheiro do comércio e sobra pouco para sustentar a nos-sa imprensa. Há também uma dispersão, pois existem muitos veículos pequenos e nenhum bom, porque cada pessoa quer ter o seu jornalzinho. É aquela coisa de individualismo, não existe união.”

Para o jornalista Chiquinho Sannini, que atua na Rádio Clube e já assinou várias colunas em jornais da cidade, como “Do meu caderninho sem folhas”, “A cidade chora” e “Pena que não seja em cores”, o questionamento merece uma reflexão:

“A mídia impressa de Guaratinguetá é fraca porque não tem verbas ou não possui anunciantes em razão da má qualidade existente nos semanários?”

Com bons exemplos que ficaram arquivados na memória dos museus, resta aos jovens jornalistas a audácia para lançarem novos produtos no mercado midiático de Guaratinguetá. Seja impresso ou online, o que vale é a informação precisa, a credibilidade das fontes e do conteúdo. Caso contrário, os políticos vão continuar rindo sob os confetes que caem em forma de verbas públicas, editais ou anúncios oficiais.

Lauro Lam é jornalista.

 
 
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