Nº 56 | março / abril 2014
Entrevista

Marcus Llerena e a obra musical de Arnolfo de Azevedo | Da Redação

Nascido em São Paulo-SP, Marcus Llerena começou seus estudos de violão com Norberto Macedo, em 1971, no Rio de Janeiro. Estudou com D. Áureo e Rocio Herrero, na Espanha, e Oscar Cáceres, na França. Em 1982, teve o privilégio de tocar para Andrés Segóvia, em Nova Iorque.

Em seu currículo, constam importantes prêmios em concursos realizados no país, como o Violões de ouro, organizado pela Rede Globo de Televisão (1978) e o Concurso Internacional de Porto Alegre (1981).

No exterior, conquistou os primeiros prêmios no Conservatório de Madrid (1976-77), Sablé sur Sarthe (1983), e o prêmio Prèsence de la Musique, pela Fundação Yehudi Menuhin(1988), durante os oito anos que morou na França.

Reside em Joinville desde 2002, onde ocupou o cargo de coordenador de música da Fundação Cultural de Joinville e da Sociedade Cultura Alemã até início de 2005. Além de violonista, Marcus é fundador e Regente da Orquestra de Cordas Juventude Joinvilense, com quem vem se apresentando em várias cidades do norte de Santa Catarina. Em dezembro de 2005 lançou seu sexto CD, intitulado "Levanta Poeira", pelo selo music & arts programs com sede na Califórnia, USA, e também o CD Germânia com a soprano Rosenete Eberhardt.

Em fevereiro de 2006, o violonista com sua esposa, a soprano Rosenete Eberhardt, realizaram turnê por cinco países Europeus.

Em 2012, coordenou todo o trabalho de produção do CD "Arnolfo de Azevedo - Obras selecionadas.


O Lince – O que você sabe da forma-ção musical de Arnolfo de Azevedo?

Marcus Llerena - Pouco se sabe sobre a formação musical de Arnolfo de Azevedo, até mesmo seus descendentes desconhecem essa informação, mas tudo leva a crer que foi autodidata, dono de um talento extraordinário para o piano e a composição; não descarto a hipótese dele ter tido um professor quando ainda morava em Lorena, que lhe ensinou harmonia, contraponto e estética musical, matérias que nem sempre se aprende sozinho, ainda mais no seu caso, que tinha uma vida familiar intensa além de suas ocupações com a fazenda e a política.

O Lince - Como se deu seu primeiro contato com a obra de Arnolfo de Azevedo?

Marcus Llerena - Durante quase dez anos que morei na França. Em 1985, voltei ao Brasil pela primeira vez e nessa ocasião, minha mãe convidou um grupo de amigos para me ouvir tocar um recital de violão em sua casa. Entre os convidados estava Paulo Bertazzi, um empresário que toca violão como hobby e que me falou sobre Arnolfo de Azevedo, seu tataravô, que era compositor além de ter sido fazendeiro e político, mas o contato real com sua obra só se deu vinte e seis anos depois quando já morava em Joinville-SC.

O Lince - A que contexto musical pertenceu Arnolfo de Azevedo?

Marcus Llerena - Arnolfo teve o privilégio de viver durante a passagem do séc. XIX para o XX, que representou uma época de grandes mudanças nos costumes e na arte universal, sua música reflete o romantismo de Chopin, Schumann e da ópera italiana. Percebe-se também a influência de Gabriel Fauré que revolucionou a música adotando novas fórmulas harmônicas, mas mantendo-se fiel à linha melódica romântica que era uma de suas características. Além das músicas consideradas de concerto, Arnolfo também escreveu músicas ligeiras, estilizadas à maneira brasileira, muito em voga no começo do século XX como polkas, valsas, schottish que eram tocadas geralmente em família, nos cafés, cinemas mudo e bailes populares.

O Lince - Que qualidades você ressalta nas composições de Arnolfo de Azevedo?

Marcus Llerena - A principal seria sua integridade de quem sabe o que está fazendo e para onde está indo. Em nenhum momento sua música cai na vulgaridade e na mesmice de alguns compositores brasileiros da primeira metade de séc. XX. Mesmo suas músicas mais simples merecem a atenção do ouvinte, seu discurso é fluido e suas melodias contagiantes.

O Lince - Você chega a comparar Arnolfo de Azevedo a Ernesto Nazareth. Em que eles se assemelham e em que se distinguem?

Marcus Llerena - Em 1903, Arnolfo de Azevedo mudou-se para o Rio de Janeiro, capital da república, representando o estado de São Paulo como deputado federal. Tanto ele como Nazareth vivenciaram um momento de grande efervescência cultural naquele período. Nazareth tocava em cafés e cinemas, era um músico profissional que exercia sua profissão compondo músicas que se adequavam ao seu ambiente de trabalho, Arnolfo de Azevedo também compôs com propriedade este gênero alegre e dançante, porém, como político, a música era praticada de forma diletante e lhe dava maior liberdade para escolher a forma e o gênero de suas composições, muitas vezes visando o público conhecedor e não tão receptivas ao gosto popular.

O Lince - O que representa o resgate de Arnolfo de Azevedo para a música brasileira?

Marcus Llerena - Quando seu nome for mais conhecido do meio acadêmico e público apreciador teremos aí uma justa comemoração em torno de seu nome, é muito pouco provável que alguém com o mesmo potencial que o seu, venha à tona com músicas do passado nos dias de hoje para nos surpreender como a obra de Arnolfo. Impossível não é, mas acho muito difícil.

O Lince - Como se deu o processo de produção do CD?

Marcus Llerena - Meu amigo Paulo Bertazzi me enviou dois cadernos de música de Arnolfo de Azevedo, em 2009, mas foi apenas em 2012 que resolvemos por adiante a ideia de gravar um CD com obras selecionadas. Escolhemos dez peças para piano solo gravadas pelo pianista Flávio Augusto de Oliveira e seis músicas para voz e piano interpretadas pela soprano Rosenete Eberhardt, sendo que a última com a participação da violinista Tammy Soares Citadin. Dezesseis faixas no total.
As músicas de piano solo foram gravadas no Rio e as demais em Joinville. Vale citar que alguns acompanhamentos da voz foram gravadas pelo pianista Eriberto de Carvalho.

O Lince - O lançamento foi noticiado por algum órgão de imprensa? Quais?

Marcus Llerena - Até o momento, não houve ainda um lançamento oficial desde que o CD ficou pronto. Saiu apenas uma matéria no jornal Notícias do Dia aqui em Joinville e nada mais, acredito que um compositor desta envergadura que foi senador da velha república, vale uma ampla divulgação em rede nacional, seus CD´s estão sendo vendidos em lojas do eixo Rio-São Paulo e distribuídos como cortesia, quando necessário. Então, tudo ainda está por acontecer.

O Lince - Como foi a aceitação do CD no meio musical?

Marcus Llerena - Como falei, o CD não foi ainda distribuído amplamente mas aqueles que tiveram a oportunidade de ouvi-lo, gostaram muito.

O Lince - Há mais composições de Arnolfo no caderno que não constam do CD?

Marcus Llerena - Sim, tem outras peças para piano solo, outras com voz e violino e uma grande quantidade de músicas sacras, natalinas e cívicas para uma, duas e três vozes. Uma dessas músicas foi gravada no CD pela Rosenete que também canta a parte do contralto dobrando a si mesma na música Novena de Natal cantada em latim.

O Lince - Em livro biográfico sobre Arnolfo de Azevedo, seu filho Aroldo, então professor da USP, relata que por ocasião do aniversário de 70 anos de seu pai, os filhos prepararam um caderno manuscrito com 43 músicas compostas pelo respeitado político lorenense. Seria este o caderno que chegou em suas mãos?

Marcus Llerena - Tenho quase certeza que sim pois esse caderno contém suas músicas copiadas por um copista profissional a partir de seus manuscritos originais e na contracapa de uma delas se encontra uma dedicatória de seus filhos a ele na ocasião de seu aniversário.

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O Lince - O mesmo livro fala de composições sacras que parecem ter ocupado o Arnolfo da maturidade. Você tem alguma informação a respeito?

Marcus Llerena - Ele pode ter se dedicado às obras sacras mais intensamente em sua maturidade, mas tudo indica que também tenha composto neste gênero ao longo de sua vida ao mesmo tempo que as obras ligeiras e de concerto, as datas inscritas nas partituras também comprovam meu argumento.

O Lince - Arnolfo compõe com a mesma qualidade as músicas sacras e não-sacras? Como podemos notar isso?

Marcus Llerena - Com certeza sim, um bom compositor vai sempre deixar o traço de sua genialidade e conhecimento, não importa em qual partitura mas somente ele poderia responder em qual terreno se sentia mais à vontade para compor. Eu, pessoalmente, vejo esta qualidade impressa em todas partituras por mais simples que sejam.

O Lince - Sabemos que a primeira música, Arnolfo compôs com tenros 13 anos. Pode-se dizer que ele foi um virtuose?

Marcus Llerena - Pode-se dizer que tinha talento e jeito para compor, mesmo as primeiras obras que Mozart compôs mostravam seu talento precoce, mas acho um pouco exagerado dizer que Arnolfo fora um virtuoso quando jovem. Se eu conhecesse melhor essa partitura, poderia dar uma opinião mais exata sobre seu conteúdo.

O Lince - Dentre os gêneros musicais das composições de Arnolfo de Azevedo, qual o de sua preferência, como músico? E por quê?

Marcus Llerena - Tenho a impressão que Arnolfo desenvolvia suas obras para piano solo com o esmero de um artesão, cuidava bastante da forma, da estética, do contorno das melodias por isso, gosto muito de suas músicas mais sérias para piano solo, ali ele está mergulhado numa esfera privilegiada, que nem todos alcançam. Considero que Arnolfo era abençoado neste sentido e merecia ocupar este espaço.

Música primorosa... intérpretes sublimes



Flávio Augusto de Oliveira

Detentor de 28 primeiros prêmios em concursos nacionais e internacionais de piano. Em 1988, tornou-se o primeiro brasileiro a conquistar o 1º lugar do Concurso Internacional de Piano “Villa-Lobos”, no Rio de Janeiro.

Iniciou seus estudos de piano aos quatro anos de idade, tendo como professores os pianistas Homero de Magalhães, Gilberto Tinetti e Myriam Dauelsberg. Concluiu os cursos de Bacharelado em Piano e Licenciatura em Música pelo Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro. É pós-graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Montes Claros-MG e Mestre em Piano – Práticas Interpretativas – pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Desde os treze anos tem sido solista das principais orquestras do país, em palcos importantes como os Teatros Municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo, a Sala Cecília Meirelles, do Rio de Janeiro, o Teatro Nacional de Brasília e a Sala São Paulo.

No Brasil, já se apresentou em quase todos os Estados, atuando isoladamente ou ao lado de grandes cantores e instrumentistas. No exterior, já se apresentou em importantes salas de concerto dos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Holanda, Suíça, Itália, Espanha, Portugal, Bélgica, Áustria, Finlândia, Inglaterra, Nova Zelândia, África, Venezuela, Peru, Chile, Paraguai, Guatemala, Caribe e Costa Rica.

Em 1990, gravou seu primeiro disco com os “Prelúdios para piano” do compositor francês Claude Debussy. Fez a primeira gravação mundial dos “50 estudos para piano” do compositor Johann Baptiste Cramer. Gravou também os CDs “Arco e Tecla” com o violinista Ricardo Amado, “Impressões Brasileiras” com o violinista Daniel Guedes e “Tributo a Guerra Peixe” com o gaitista José Staneck. É também integrante do premiado Trio Aquarius – com quem já gravou dois CDs dedicados a compositores brasileiros. Foi professor do Conservatório Estadual de Música “Lorenzo Fernandez” e do Departamento de Artes da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes, MG). Em setembro de 2004, passou em 1º lugar no concurso público para “Músico-Pianista” da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nessa mesma instituição, foi Professor Substituto de Piano nos anos de 2006 e 2007.

É frequentemente convidado para participar como jurado dos mais importantes concursos nacionais de piano, assim como para ministrar aulas de Piano e Música de Câmara nos principais Festivais de Música do país.

Rosenete Eberhardt

Soprano e pianista, também formada em Pedagogia e pós-graduada em Gestão Educacional e Empresarial, fez mestrado em Patrimônio Cultural e Sociedade; realizou seus estudos formais de música em Joinville-SC. Teve cursos de aperfeiçoamento com vários mestres de renome como Carol Mc-Davit, Saul de Almeida, Jacques Klein, Eudóxia de Barros, Osvaldo Lacerda, Ernani Aguiar, Keith Swanwick (EUA), Vera de Canto e Mello, entre outros.

Desde 1978 trabalha com corais infantis, adultos e universitários em Joinville. De 2000 a 2003 trabalhou na Escola de teatro Bolshoi do Brasil, como professora de Educação Musical e pianista acompanhante. Ainda em 2003 foi contemplada com o prêmio “Mérito Universitário Catarinense”, com uma viagem de estudos para Espanha e Portugal.

Como solista, já se apresentou no Brasil, no festival de música Vale do Café, em Vassouras-RJ, Instituto Moreira Salles em São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, na Pinacoteca-SP, Catedral da Candelária-RJ, Pró-Música, em Juiz de Fora-MG, entre outros. Em 2006 e 2007 realizou duas turnês por seis países da Europa acompanhada por seu marido, o violonista Marcus Llerena com quem também realizou o projeto Sonora Brasil pelo SESC, com 76 concertos em 19 estados brasileiros.

Tem 10 CDs gravados e vem, desde 2006, desenvolvendo projetos aprovados pela lei de incentivo municipal de Joinville contribuindo com o cenário artístico da cidade através de CDs, apresentações em ancionatos, com o Coral Babados de Saia e Vozes do Rio.


Tammy Cittadin

Iniciou seus estudos de violino aos 9 anos na cidade de Tubarão-SC. Realizou cursos de música com professores como Paulo Basisio, Maria Ester Brandão, Levon Ambart-sumian (Rússia/EUA) e Gerard Peters (Alemanha).

Obteve primeiro lugar no concurso de Música de Câmara Rosa Mística – Curitiba-PR.

Possui o bacharelado em violino pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), sob orientação do professor João Eduardo Titton, com quem continua seu aperfeiçoamento no instrumento.

Mantém intensa atividade como instrumentista sendo integrante do naipe de primeiros violinos da Orquestra Filarmônica de Santa Catarina e também integrante da Orquestra de Cordas Catarinense. Também é professora de violino na cidade de Florianópolis e integrante do Quarteto Catarina.
 
 
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