Nº 56 | março / abril 2014
Artes

A arte brasílica de Guataçara Monteiro | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Palmeira com folha de fieira, tucano com asa de peixe, peixe com cauda de caju, borboleta com asas de chita, cobra-grande sustentando palafitas. É inegável que a produção artística de Guataçara Monteiro carrega um universo de significâncias do povo amazônico – do qual se coloca como amanajé –, mas também uma forma tropical e popular de pintar o mundo. Este traço não acadêmico de sua obra apresenta uma dimensão onírica que, embora com certa dose de surreal, mais manifesta-se como expressão de identidade. Melhor dizendo, há uma brasilidade contida nos traços e nas cores de suas telas. Uma forma peculiar de entender e apresentar um Brasil, a seu ver – é como vejo –, multicor, básico e diverso. Nelas não há espaço para os tons pastéis, para o indiferenciado. Tudo é muito vivo, muito nítido, muito vibrante.

Sua técnica consiste em, fazendo uso de cores primárias e secundárias, aplicar a formas familiares detalhes que produzem um efeito patchwork. O figurativo de sua arte quase que invariavelmente apresenta elementos da natureza, especialmente da fauna e da flora amazônicas, mas a sua originalidade não está no apelo regional, mas na profusão de cores que se combinam sem gerar desequilíbrio. Guataçara sabe como harmonizar pigmentos e formas obtendo um efeito de arte. Mas não apenas isso. Em razão dos motivos usados, das cores empregadas e das formas desenhadas, suas telas adquirem uma ludicidade que as tornam mais próximas do universo infantil e do adulto leigo.

É uma arte carregada de mensagens não cifradas que parecem nascer de uma vontade de dizer do artista. De dizer de sua terra, de sua gente, de sua cultura, de sua cosmovisão. Quase inevitável o primeiro impacto visual chamar, em seguida, para a leitura dos detalhes. Não há quem, após a agradável primeira impressão, não atente para os detalhes de cada parte, por menor que ela seja. Parece que o artista chama para o diálogo. Um diálogo que se estende ao algo mais para ser dito. É possível passar longos minutos apreciando sua arte. Guataçara é um contador de histórias; uma contação sem uso de palavras. Sua linguagem é outra.

Ao deixar sua terra natal – a paraense Castanhal – e rumar para o centro-sul do Brasil, carregou consigo uma percepção de mundo permeada por uma arte popular e pelo espírito da floresta. Não é um artista que se faz povo, mas um povo que se fez no artista. Guataçara, ao expressar-se, expressa o modo de ser de sua gente.

Sua técnica geralmente explora o uso de dois planos: um fundo decorado com motivos e a figura principal que, por vezes é apresentada com sobreposições que permitem um efeito de profundidade embora não se utilize de pontos de fuga para produzir tridimensionalidade.

O visual lúdico dos trabalhos deste paraense – que adotou a valeparaibana cidade de Igaratá-SP para ancorar de suas naveganças pelo mundo –, juntamente com sua participação em um movimento internacional denominado danças circulares sagradas, tem sido seu passaporte de circunavegação por vários pontos do continente.

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Licenciado em Artes Visuais, não se limita – sua alma de artista não o permitiria – ao reles exercício burocrático da docência. Pelo contrário, é um empreendedor da própria arte cuidando de levá-la aos mais distintos públicos, da primeira infância à terceira idade, através de oficinas, exposições, bazares, viagens culturais e produtos artesanais, mas é na pedagogia que seu trabalho ganha relevo. Guataçara já alcançou mais de 50 mil curumins percorrendo escolas em vários estados brasileiros e propiciando o contato das crianças com as artes plásticas de um modo bastante envolvente.

Guataçara pode ser compreendido no contexto desses novos amazônicos que adotam por missão, através da arte e da literatura, aprofundar o diálogo com as demais regiões do país, dar a conhecer um povo e uma cultura que especialmente o Brasil urbano e litorâneo, em sua insolência preconceituosa, insiste em ignorar. Guataçara traz outras notícias do Brasil. Daquelas a que o poeta Milton Nascimento desta maneira se referiu:

O canto mais belo será sempre mais sincero
Sabe, tudo quanto é belo será sempre de espantar
Aqui vive um povo que cultiva a qualidade
Ser mais sábio que quem o quer governar
A novidade é que o Brasil não é só litoral
É muito mais, é muito mais que qualquer zona sul
Tem gente boa espalhada por esse Brasil
Que vai fazer desse lugar um bom país.


E assim, este viajante da amazônia, em relação profunda com o étimo de seu nome, navega com sua igaratá (do tupi, canoa alta ou canoa resistente) os meândricos igarapés (do tupi, caminho de canoa) espargindo cores e irrompendo, por caminhos alternativos, os aguapés da arte de um centro-sul historicamente acostumado a monologar no interior de salões costumeiramente vazios dos clássicos recintos acadêmicos.

Alexandre Marcos Lourenço Barbosa é graduado em Filosofia e editor do Jornal O Lince.

 
 
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