Nº 56 | março / abril 2014
Artes

A música refinada de Arnolfo de Azevedo | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa

Que Arnolfo Rodrigues de Azevedo foi lorenense nascido de nobre estirpe, filho de abastado fazendeiro de café do Vale do Paraíba e um político influente durante a Primeira República, muitos sabem. Arnolfo foi Vereador, Intendente e Presidente da Câmara Municipal de Lorena; Deputado Estadual, Deputado Federal e Senador da República. Como Presidente da Câmara dos Deputados foi o responsável pela construção, em estilo neoclássico, do Palácio Tiradentes, então sede do Poder Legislativo no Rio de Janeiro. Entre 1927 e 1930 exerceu o mandato de Senador, retirando-se da vida pública quando da revolução de 1930.

O que poucos sabem, porém, é que Arnolfo também foi um excelente pianista e compositor.

Recentemente, em Joinville-SC, o violonista Marcus Llerena organizou, em um CD, uma seleta de músicas compostas por Arnolfo no final do século XIX e início do século XX.

A produção reúne dezesseis obras cuidadosamente escolhidas e primorosamente interpretadas pelos pianistas Flávio Augusto de Oliveira e Eriberto de Carvalho, pela violinista Tammy Citadin Soares e pela soprano Rosenete Eberhardt, esposa de Llerena.

Arnolfo de Azevedo era de uma versatilidade e de uma profundidade típicas daqueles que possuem sólida formação musical. Curiosamente, boa parte desta qualidade foi adquirida por autodidatismo. O que se torna um mérito se considerado o refinamento de sua obra.

O jovem músico lorenense compôs polcas, valsas, tangos, mazurcas, hinos, scchotishs e músicas sacras.

Em 1962, por ocasião dos 20 anos de falecimento de seu pai, o geógrafo Aroldo de Azevedo, emérito professor da USP, publicou, pela Companhia Editora Nacional, a primeira de três plaquettes sobre as origens, vida e obra de Arnolfo de Azevedo.

Os três abreviados tomos abordam a biografia de Arnolfo de Azevedo em três períodos distintos: I - Infância e adolescência (1868-1887); II - Acadêmico de Direito (1887-1891); e III - Início da vida pública.

Logo no primeiro volume, Aroldo apresenta seu pai como dotado de certo gênio para a música:

“... adorava a música e começava a elaborar suas primeiras composições, mesmo sem que tivesse conhecimento dos segredos da Artinha Musical. Despontava, no menino de 14 anos incompletos, o futuro compositor”. (p. 25)

“Com menos de 14 anos, Arnolfo de Azevedo já compunha polcas e desejava vê-las impressas...” (p. 26)

Com o apoio de sua mãe, Dona Eulália, viu sua primeira polca impressa, em 1882, quando havia acabado de completar 14 anos. “Ao mundo novo” era o título da música.

Segundo Aroldo, o tema música era recorrente nas cartas da época, utilizadas como documentos para sua pesquisa, o que demonstra que até os dezesseis anos, Arnolfo produziu com regularidade.

Ao se tornar acadêmico de direito, em 1887, Arnolfo brindou seus colegas de turma com uma polca para piano intitulada “Seu calouro”, música esta que se encontra no CD produzido por Llerena.

O segundo volume da trilogia, em seu capítulo II, diz de um artista por temperamento, um verdadeiro criador de músicas:


“Arnolfo Azevedo tinha, inegavelmente, um temperamento de artista, que se exteriorizou bem cedo [...] É verdade que essa precocidade artística prejudicou sua vida de estudante, obrigando o pai severo a escrever-lhe cartas sobre cartas, alertando-o durante anos a fio, para a necessidade de dedicar-se com maior seriedade e com melhores esforços aos estudos.

Não resta dúvida, porém, que a verdadeira vocação para a Música e para a Poesia, tão cedo de-monstrada, representa um traço marcante em sua personalidade.” (vol. 2, p. 34)

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De suas composições impressas restaram alguns poucos exemplares de: O Novo Mundo; Marcha Triunphal, oferecida ao Dr. Menezes Vieira, diretor do colégio carioca onde estudava; Priminha; as valsas Hermínia e Cabelos louros e as polcas Seu calouro e Oh! Que primo!

Manuscritas (não publicadas) permaneceram:
Valsa para piano;
Sem pretenção [sic], quarteto em ré maior para flauta, violoncelo concertina (ou violino) e piano;
Ave-Maria;
Entre dois tragos, cançoneta oferecida a Dr. Augusto Barboza (6 de dezembro de 1889);
Dulcita, mazurca (3 de maio de 1890) em homenagem à sua namorada quando ela completou 18 anos;
La soledad, noturnino (2 de julho de 1890);
Mirinha, polca;
Dou-lhe o resto, polca;
Siempre, mazurca;
Hino escolar;
Criançada, schottisch;
Por que não?, tango;
De ponta a ponta, tango; e
Viver sonhando, valsa.

Arnolfo prosseguiu compondo

“melodias, ‘romanzas’ e, particularmente, músicas sacras Ladainhas de Nossa Senhora, Ave-Maria, Salve Maria, Tota Pulchra, Eia Mater, Novena de Natal, Glória, Cantos da Verônica - muitas delas cantadas na velha Matriz de Lorena e na Capela de sua ‘Fazenda da Conceição’...” (vol. 2, pp. 35 e 38)

Por ocasião de seu aniversário de 70 anos, em 1938, um fato interessante, e que o liga ao presente, estava por acontecer. Seus filhos prepararam um álbum com manuscritos de 42 de suas composições. Reunidas, elas foram entregues ao talentoso pai.

Aroldo, com a prudência que a ciência exige, é cauteloso ao dizer da produção musical de Arnolfo. Diz ele, com distanciamento, que o álbum é um testemunho da atividade do pai como compositor. E adverte:

“Terão algum valor artístico?
Não nos cabe julgar, nem competência teríamos para fazê-lo. Que o digam os entendidos, se um dia lhes for dado conhecê-las.” (p. 38)

Quase meio século depois, em 1985, provavelmente, este mesmo álbum (não se sabe se mais de um foi feito) chegaria às mãos de um respeitado violonista (um “entendido”) que reconheceria o seu valor artístico. Ainda assim, 25 anos ainda se passariam até que Marcus Llerena reunisse as condições para concretizar o desejo de tornar a fazer ouvir a boa música de Arnolfo de Azevedo.
Tais músicos são nomes a reverenciar. A música brasileira e o Vale do Paraíba lhes devem ser eternamente devedores por dar-nos este “tesouro”.

Alexandre Marcos Lourenço Barbosa é graduado em Filosofia e editor do Jornal O Lince.

 
 
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