Nº 53 | setembro / outubro 2013
Letras Valeparaibanas

Província de São Paulo
Capela de Nossa Senhora da Aparecida | Augusto Emílio Zaluar

As lendas poéticas do cristianismo, que derramam tão misterioso perfume nas tradições dos povos do antigo continente, encontra-as o viajante que percorre as vastas regiões da América Meridional, mais vivazes e por ventura eloqüentes nas povoações espalhadas no seio dos desertos, ou escondidas nas dobras das florestas, como salmos truncados de um poema divino que se ouve levantar a Deus a criação inteira.

Aqui, no interior dêstes imensos e majestosos descampados, nestes recônditos sertões cuja penumbra se começa a abrir agora ao sol da civilização, a imaginação popular, longe dos grandes teatros do mundo, compraz-se em revestir de formas maravilhosas não só os sucessos que a razão explica, quanto mais aquêles que, não tendo uma decifração verossímil, escapam à inteligência e ao raciocínio vulgar.

O sentimento religioso, o fervor da crença em sua primitiva pureza, que o ceticismo do século de dia para dia destrói nas nossas grandes cidades civilizadas, tem entre as povoações centrais um sentido mais elevado, um influxo mais grandioso e sublime, porque o requinte da corrupção ainda lhes não fêz gerar a dúvida, nem o egoísmo fanático mercadejar com a consciência, como acontece aos filhos degenerados das sociedades que se dizem polidas.

E para quem há de levantar os olhos o infeliz que sofre ao desamparo no meio das solidões? A quem invocar no transe das amarguras supremas aquêle que não tem senão o céu que o ampare, e a religião que o console e o proteja contra o destino?

A mão do Criador está patente por tôda a parte nas obras da natureza. O rio que murmura pelo leito caprichoso dos vales, a cachoeira que se despenha ruidosa no leito escalvado dos rochedos, as matas que segredam aos ventos frases misteriosas, as aves cujos gritos selvagens ou hinos melodiosos erguem concertos no silêncio recatado dos ermos, as nuvens que se enovelam na aurora e no oceano em formas fantásticas no horizonte, tôdas estas grandes cenas devem forçosamente atuar sôbre o espírito do povo e dar um colorido poético e religioso à sua imaginação.

Todos os cultos da antiguidade, se excetuarmos o misticismo tenebroso de alguns ritos primitivos, procuraram a eminência das colinas ou a coroa das montanhas para edificarem os seus templos religiosos. A Grécia, mais do que nenhum outro país antigo, nos dá o exemplo dessas construções por assim dizer aéreas, onde o pensamento, mais desprendido da terra, se abstrai despreocupado nas contemplações do infinito, e se embebe todo na adoração do Criador.

O cristianismo, religião da alma, não podia deixar de procurar para a sua oração os lugares que estivessem mais próximos do céu. Nas montanhas mais inacessíveis, nos píncaros gelados dos Alpes, ergueram os apóstolos do evangelho os símbolos sacrossantos de sua liturgia.

Assim fizeram também nas vastas e acidentadas regiões da América do Sul os piedosos sacerdotes do novo mundo.

Entre todos êstes templos que temos vistos no interior do país, nenhum achamos tão bem colocado, tão poético, e mesmo, permita-se-nos a expressão, tão artistìcamente pitoresco, como a solitária capelinha da milagrosa Senhora da Aparecida, situada a pouco mais de meia légua adiante da cidade de Guaratinguetá, na direção de S. Paulo.

A sua singela e graciosa arquitetura está de acôrdo com a majestosa natureza que a rodeia e com a montanha que lhe serve de pedestal, e domina, moldurado em um horizonte infinito, um dos panoramas mais arrebatadores que temos contemplado em nossas digressões.
Reza a tradição que a imagem de Nossa Senhora, que se venera nesta igrejinha, foi encontrada por uns pescadores, como melhor se verá da seguinte notícia, que textualmente reproduzimos de um manuscrito que nos foi confiado:

“No anno de 1719, diz o referido documento, pouco mais o menos, passando por esta vila para as Minas o governador delas e de S. Paulo, o Conde d’Assumar, D. Pedro de Almeida, foram notificados pela câmara os pescadores para apresentarem todo o peixe que pudessem haver para o dito governador. Entre muitos foram a pescar Domingos Martins Garcia, João Alves e Francisco Pedroso, com suas canoas; e, principiando a lançar suas rêdes no pôrto de José Alves a sua rêde de arrasto, tirou o corpo da Senhora, sem cabeça; e, lançando outra vez a rêde mais abaixo, tirou a cabeça da mesma Senhora, não se sabendo nunca quem aí a lançasse.

“Guardou Alves esta imagem em uns panos, e continuando a pescaria, não tendo até então achado peixe algum, dali por diante foi tão copiosa a pescaria em poucos lanços, que os pescadores, receosos de naufragar pelo muito peixe que tinham nas canoas, retiraram-se às suas vivendas, admirando êste prodígio.

“Francisco Pedroso conservou seis anos esta imagem em sua casa, junto a Lourenço de Sá; depois mudou-se para a Ponte Alta e dali para o Itaguaçu onde deu a imagem a seu filho Atanásio Pedroso, o qual fêz um oratório para colocar a Senhora, e no sábado iam todos os devotos ali rezar o terço.

“Em uma das ocasiões em que rezavam, apagaram-se as velas repentinamente, estando a noite serena; então Silvano da Rocha, levantando-se para acendê-las, elas por si acenderam-se. Foi êste o primeiro prodígio; depois, em outro dia, viram tremer o nicho e altar da Senhora, bem como as luzes. Em outra ocasião (sexta-feira para o sábado, estando reunidas muitas pessoas para cantarem o terço), estando a Senhora guardada em uma caixa, ouviu-se dentro da mesma grande estrondo.

“As pessoas que presenciaram êstes prodígios foram propalando a notícia, até que esta chegou aos ouvidos do vigário da vara José Álvares Vilela. Êste e outros devotos edificaram uma capelinha, que depois foi demolida, sendo edificada em seu lugar a que atualmente existe.”

A fama da milagrosa Virgem espalhou-se por tal forma, e chegou a tão longínquas paragens, que dos sertões de Minas, dos confins de Cuiabá e do extremo do Rio-Grande, vêm todos os anos piedosas romarias cumprir as religiosas promessas que nas suas enfermidades ou desgraças fizeram àquela Senhora, se lhes salvasse a vida ou lhes desse confôrto nas tribulações do mundo.

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As paredes da capela quase que não têm já lugar para as figuras de cêra, troncos, cabeças, braços, pernas e mãos de todos os tamanhos e feitios que se vêem simultaneamente pendurados, ao lado de numerosos painéis, representando êste um pai salvando seu filho das garras de uma fera, aquêle um moribundo restituído à vida por haver invocado, cheio de religiosa piedade, o nome de sua divina protetora, e finalmente a simbólica epopéia de todos os martírios e de todas as dores que angustiam a existência humana.

Aí se mostram umas algemas de ferro que o tempo não conseguiu nunca enferrujar, apesar dos muitos anos que têm decorrido depois que servem de relíquia à veneração dos fiéis. Contam que um desgraçado (talvez dos que se costumam recrutar para o exército), chegando a êste lugar, extenuado de fadiga, devorado pela fome, exausto de fôrças por caminhar descalço e a pé por entre os sertões inóspitos, e de mais a mais acorrentado por êstes pesados grilhões, entrou dentro da capela e com santo fervor orou a Nossa Senhora: tanta fé tinha em sua alma que as correntes lhe caíram repentinamente dos braços e dos pés, restituindo-o por êste prodígio à sua liberdade!

Numerosas e mesmo avultadas são as esmolas que todos os anos entram nos cofres da bem-aventurada Senhora. As muitas curas que tem operado nos enfermos do mal de S. Lázaro, que tanto abundam neste ponto da província de S. Paulo e na de Minas, estendendo-se mesmo às outras que lhes são limítrofes, são o incentivo à maior parte das romarias que o povo faz a êste templo solitário e à protetora imagem da Senhora da Aparecida, que refulge no altar-mor, adornada com um precioso manto de veludo azul ricamente bordado de ouro, e parecendo sorrir compassiva a todos os infelizes que a invocam, e a quem jamais negou a consolação e a esperança.

Afortunados os rudes sertanejos que têm mais fé na intervenção divina do que nos resultados tantas vêzes mentirosos da ciência humana!

No entanto a caridade cristã impõe-nos o dever de mitigar os sofrimentos do nosso próximo; e neste intuito nos lembra um alvitre que nos parece merecer alguma intenção do govêrno, e mais ainda da administração provincial de S. Paulo.

Informaram-nos, quando passamos na capela de Nossa Senhora da Aparecida, que, desejando dar-se uma aplicação meritória ao produto das esmolas que os fiéis oferecem à Senhora, se resolvera edificar-lhe um templo de mais vastas proporções do que o que atualmente existe, e assim dar também mais importância ao lugar, que já é hoje uma bonita aldeia.

Respeitando o que há de religioso na intenção desta aldeia, não seria mais útil e até agradável à benfeitoria dos aflitos que, em vez de uma igreja, se construísse um hospital com a invocação da mesma Virgem, consagrado a recolher a grande quantidade de morféticos que infestam as estradas e os caminhos de quase todo o norte da província, oferecendo aos olhos do povo viandante o mais triste e lastimoso de todos os espetáculos?

Causa realmente dó, compunge o coração ver esses desgraçados dentro de suas choupanas de palha, cobertos de andrajos e de lepra, estenderem a mão a quem passa, pedindo-lhe um óbulo para matarem a fome! É realmente um quadro êste que não tem perdão nem desculpa em pleno século XIX!

Ainda mais: nos domingos e dias santificados, como muitas vêzes observamos, êstes infelizes concorrem aos mercados e andam por entre o povo esmolando, e em contacto com os vendedores e quitandeiras.

Os escravos fugidos vão ordinàriamente acoutar-se nos albergues dos leprosos, e aí se conservam muitas vêzes dias e meses, até regressarem de novo para casa de seus senhores, já inoculados do mal, que não tarda em propagar-se por seus companheiros, afetando até os próprios brancos.

A criação de um hospital de lázaros seria pois, a nosso ver, uma das obras mais meritórias à piedade divina. Assim se terá conseguido dois fins: prestar um culto à divindade e concorrer para aliviar de horríveis sofrimentos tão grande parte de nossos irmãos.

A pouca distância da capela existe na beira da estrada uma pedra já meio encoberta pelos espinheiros bravios, e a que chamam a pegada. Na sua face superior está perfeitamente gravada a planta de um pé humano.

Contam os moradores antigos do lugar que um filho desnaturado, tendo concebido o nefando intento de assassinar sua mãe, a esperara sôbre esta pedra, e que, no momento em que ela passava e êle ia perpetrar êste monstruoso crime, sentiu o pé agarrado ao lajedo, e tal foi o seu terror, que poucos momentos sobreviveu a esta tremenda punição dos céus!

Estas tradições são os melhores exemplos, as mais profícuas lições de moral que a religião e a piedade podem ensinar ao povo rude, porém impressionável e bom do interior do país.

A capela de Nossa Senhora da Aparecida foi fundada em 1743, sendo bispo desta diocese D. João da Cruz.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
 
 
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