Nº 53 | setembro / outubro 2013
História

Santa Casa de Misericórida de Cunha e o Padre Rodolfo Ignácio Schebesta | João José de Oliveira Veloso

No momento em que a Santa Casa de Misericórdia de Cunha passa por dificuldades, torna-se útil e de bom-tom levar ao conhecimento da população cunhense alguns fatos concernentes à sua criação, bem como certos empecilhos que dificultaram seu funcionamento no início de 1950.

Originalmente, a Santa Casa de Cunha fundou-se em 1911, com a denominação de Santa Casa de Misericórdia Sagrado Coração de Jesus, instalada na atual Rua Dr. Casemiro da Rocha, no espaço comercial Jeca Grill, hoje pertencente à professora Rosa Maria Bimestre Murad.

Sob a direção clínica confiada ao Dr. Alfredo Casemiro da Rocha, a Santa Casa funcionava com subvenções mensais provenientes da própria sociedade cunhense, e com ajuda externa conseguida através do médico e deputado Dr. Alfredo Casemiro da Rocha. Além disso, ela contava com o trabalho humanitário e desinteressado de seus administradores, a saber, Dona Fitinha – Astrogilda Velloso Veiga, Dona Maria das Dores Santana Coupê, e de seu esposo, Alfredo Peracine Coupê; além desses, atuavam o enfermeiro José da Laura e senhoras da sociedade, que trajando xales, trabalhavam como voluntárias, pelo simples dever ou prazer de colaborar.

Em 1930, pela dificuldade de conseguir subvenções públicas estaduais, devido às alterações políticas e econômicas à época, ausências de cooperação dos contribuintes mensais levaram a direção da Santa Casa a fechar suas portas, pondo fim ao atendimento hospitalar eficiente, extensivo não só à população carente, assim como a todos que dela necessitassem.

Recriação da Santa Casa de Misericórdia


Depois de um interregno de 13 anos, restaurou-se a Santa Casa de Misericórdia de Cunha, em 13/06/1943, ocasião em que foi aprovado seu Estatuto, tendo como sua mantenedora a Associação Beneficente Nossa Senhora da Conceição, sob a direção a cargo do pároco, Pe. Septímio Ramos Arantes.

O terreno original situava-se à Rua Coronel Macedo, esquina com a atual Rua..dos Estudantes (antiga oficina do Sr. Leandro).

A partir de janeiro de 1946, com o afastamento do pároco e provedor, Pe. Septímio Ramos Arantes da paróquia de Cunha, o novo pároco e provedor, Pe. Rodolfo Ignácio Schebesta propôs, em 28/07/1947, permutar o terreno original por outro, pelo fato de possuir área maior, pertencente à família do Sr. Miguel Elias, no atual bairro do Alto do Cruzeiro.

Com a boa vontade dos herdeiros do Sr. Miguel Elias, fez-se a escritura de permuta dos terrenos, assinada pelo Sr. Bispo Diocesano, Dom Luiz Gonzaga Peluzo, em 23/08/1947, e lavrada no primeiro Ofício, no livro, 84, fls. 30, em 17/09/1947.

Instalação da Santa Casa de Misericórdia Nossa Senhora da Conceição


A obra da Santa Casa foi concluída somente em 1954, sendo que a cerimônia da bênção ocorreu em 22 de agosto desse mesmo ano. Em 13/07/1956, por não aceitar alteração no Estatuto da Santa Casa, proposta pela administração municipal da época, o Pe. Rodolfo foi destituído da provedoria da Santa Casa. Em 14/12/1958, o Pe. Rodolfo Ignácio Schebesta afastou-se da paróquia de Cunha, sendo substituído pelo Pe. Francisco de Assis Carvalho.

De 1954 a 1959, a Santa Casa funcionou precariamente, graças à dedicação exclusiva das Irmãzinhas da Imaculada Conceição que não mediram sacrifícios ante as condições da época, além da ajuda benfazeja de alguns cunhenses.

Por desacertos políticos, a Santa Casa permaneceu, segundo informações, sem água nem luz, um curto período de tempo, nesse intervalo acima citado.

Até os últimos anos da década de setenta, a Santa Casa, mesmo com a dedicação do pequeno corpo clínico e das Irmãzinhas da Imaculada Conceição, e com a aquisição e doação de aparelhos cirúrgicos, ela necessitava ampliar e modernizar suas dependências, e de recursos hospitalares para o atendimento das populações rural e urbana, e, além disso, ela carecia de ajuda financeira.

Padre Rodolfo Ignácio Schebesta


Dentro do panorama histórico da Santa Casa de Misericórdia de Cunha, torna-se útil conhecer alguns dados sobre Padre Rodolfo:

“Padre Rodolfo Ignacio Schebesta nasceu em Kremetschau, na Alemanha. Foi casado. Exerceu as funções sindicais e políticas na sua cidade. Após a morte da esposa, ingressou na Congregação dos Missionários Sacramentinos de Nossa Senhora. Fez o noviciado em Praga. Nos começos de outubro de 1939 chegou ao Brasil. Em 1940 foi ordenado como sacramentino e designado para Bom Despacho (MG). Não resistindo às propostas amigas do bispo, acabou deixando o Instituto em maio de 1940. Mais tarde veio a ser pároco da paróquia Nossa Senhora da Conceição de Cunha (SP), desde 16.3.1946 a 14.12.1958. Era um europeu altamente urbanizado. Consta que ele foi bem educado, polido e muito trabalhador, porém profundamente adverso à tradição folclórica. Proibiu qualquer manifestação dela na cidade. Por esse motivo, ele ficou malquisto entre a população. Uma das maiores obras do padre Rodolfo em Cunha, foi a construção de um hospital, a Santa Casa, em 1955...” (1)

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Congregação das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing


A partir de 25/03/1977, a Congregação das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, Alemanha, assumiu a administração da Santa Casa de Misericórdia de Cunha, dando alento a essa entidade assistencial – sempre carente -, não apenas pela construção de novas dependências como instalação de aparelhagens modernas, melhoria do corpo clínico, além de obtenção de auxílios financeiros substanciais conseguidos no exterior.

Ao assumir a administração de determinadas entidades hospitalares, quando são solicitadas, em alguns países, a congregação das Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing, pelo envolvimento que tem com entidades religiosas, associações filantrópicas e pessoas influentes no exterior, ela consegue desenvolver os hospitais e santas casas – sempre carentes – que administram.

Entre as décadas de 1980 e 1990, foi impressionante a modernização da Santa Casa de Cunha, no que tange a aparelhagens cirúrgicas modernas, à ampliação do corpo clínico e de funcionários, à construção de blocos cirúrgicos e de outras dependências necessárias ao bom atendimento desse nosocômio, tudo oriundo de doações de entidades religiosas beneficentes e de particulares da Alemanha, Suíça, Estados Unidos, Principado de Liechtenstein, além de entidades assistenciais cunhenses, da prefeitura municipal, desde a década de 1990, até a atualidade, e de alguns políticos, também.

O ideal seria que a cidade pudesse contar com médicos especialistas residentes, e que utilizassem a ampla e moderna estrutura da Santa Casa de Misericórdia. Para tanto, há de se fazer algum esforço, não só político, como também proveniente da própria população, no sentido de planejamento estratégico, em consonância com Órgãos federais e estaduais para superar os impasses existentes, tendo como meta primordial o atendimento mais especializado à população cunhense, na Santa Casa de Misericórdia de Cunha, administrada pelas Irmãs Beneditinas Missionárias de Tutzing.

É importante frisar o valor que tem tido a Santa Casa para o atendimento à população rural e urbana cunhense, em seus quase setenta anos de existência. Deve-se ter como meta primordial o seu funcionamento, com recursos médicos e hospitalares disponíveis ao tratamento de determinadas moléstias. Para tanto, ela necessita da colaboração, da boa vontade e, mais do que nunca, da união de todos.

Centro de Cultura e Tradição de Cunha – João José de Oliveira Veloso - janeiro de 2013


(1) Padre Demerval A. Botelho. História dos Missionários Sacramentinos. Vol. 1, pp. 347 e 357: Cartório de Registro Civil, 20º ( Jardim América, SP), Livro 115, n. 125793, fl. 279, apud Padre José Francisco Schmitt, scj. O Conventinho de Taubaté. História dos Dehonianos no Vale do Paraíba. 1919-1997. CED, 1997, Taubaté, p.138.

Obra Consultada:


Veloso, João José de Oliveira. A História de Cunha – 1600-2010. Freguesia do Facão. A Rota da Exploração das Minas e Abastecimento de Tropas. Centro de Cultura e Tradição de Cunha. JAC – Gráfica e Editora, São José dos Campos, SP, 2010.

João José de Oliveira Veloso é Diretor do Centro de Cultura e Tradiição de Cunha e autor do livro História de Cunha.

 
 
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