Nº 53 | setembro / outubro 2013
Entrevista

Genésio Nogueira interpreta Dilermando Reis | Da Redação

O Lince – Estamos com o músico, instrumentista, compositor e escritor, biógrafo de Dilermando Reis, Genésio Nogueira. Boa tarde, Genésio.

Genésio Nogueira – Boa tarde.

O Lince – A primeira pergunta que gostaria de te fazer, é sobre o porquê de uma biografia de Dilermando Reis?

Genésio Nogueira – Eu, depois de anos de Dilermando falecido, eu cai na realidade que eu, como violonista, que eu que eu tinha tocar, na condição de violonista, que ninguém queria tocar Dilermando Reis, então eu optei: eu vou tocar Dilermando Reis até porque eu o conheci pessoalmente. Não tive o prazer de gozar da sua intimidade, mas tive com ele profissionalmente, então eu comecei a estudar a obra dele, (tocava música clássica, eu tenho a formação clássica, mas as nossa música, nosso choro, nossa valsa não deixam de ser clássico), então, eu adorei, fiz e lancei meu CD, depois eu tomei um amor tão grande pela obra de Dilermando Reis, e a importância que ele tinha para a nossa música brasileira, que resolvi escrever sua biografia porquê ...eu vejo cada gente boba aí, que eu não vou citar o nome para não comprometer, mas o Dilermando Reis não podia [deixar de] ter uma biografia escrita e bem feita como eu fiz, até porque eu sou violonista, posso até opinar nas suas composições, na sua interpretação. Se no seu caso, você fosse escrever, muita coisa você não ia poder passar para o livro porque você não é violonista, não é músico, você ia contar a história do Dilermando, então eu entrei nos preâmbulos das suas composições, assim como eu fiz com o Baden Powell também, a biografia do Baden Powell e eu na condição de violonista foi bom, porque é meu instrumento, e nós instrumentistas, principalmente no violão, é um ciúme, rapaz, um do outro, Nossa Senhora, e como ter ciúme se ele já faleceu, o negócio era tocar Dilermando, era homenagear e foi realmente uma glória para a música brasileira, pro Dilermando e pra mim. E um livro tem uma importância muito grande, porque já começa, foi prefaciado por Ricardo Cravo Albin, uma das maiores autoridades da música brasileira no momento, há anos foi o fundador do Museu da Imagem e do Som Esse livro foi citado no Congresso Nacional pelo Senador Artur da Távora, uma obra importante e esse livro está no Mausoléu JK, em Brasília e também está registrado na Biblioteca Nacional do Rio. Jamais esse livro deixara de estar presente na literatura brasileira.

O Lince – O senhor como músico, sabe muito bem que Dilermando além de um grande compositor, foi um grande instrumentista. Que características o senhor considera as principais de Dilermando compositor e de Dilermando instrumentista.

Genésio Nogueira – O Dilermando teve uma sorte de selecionar bem as músicas que não eram de sua autoria e adaptou ao violão, muita coisa, como por exemplo, [...] Fascination (Fascinação), maravilhosamente bem. Essas músicas que eram sucessos nos filmes, a gravadora sugeria: ó Dilermando toca isso aqui que vai vender disco, mas ele não estava nem aí para vender disco, ele fazia uns arranjos muito bem feitos, e com isso ele imortalizou muitas músicas, que não foram feitas para violão, no violão.
Agora como compositor ele foi muito bom, bom mesmo, nas valsas e nos choros, são as melhores composições dele, nesse estilo, choros e valsas. [...] mas ele compôs cateretê, compôs guarânias, até bolero ele compôs, que tava na onda esse bolero, no tempo do [...] Carlos Gardel, esse pessoal, mas não foi feliz como foi feliz fazendo shows de valsa, que era o que mexia com seus sentimentos.

O Lince – Sobre a vida pública de Dilermando, sabemos que existe um episódio dele com JK, com a família de JK, isso de certa forma impulsionou um pouco a carreira de Dilermando. O senhor acha que não teríamos Dilermando se não fosse essa passagem histórica?

Genésio Nogueira – Teria sim. Quando Dilermando, eu participei da minissérie JK, eu sou o Dilermando na minissérie, e eu só apareço na minissérie quando o Juscelino é o José Wilker, porque antes é o Wagner Moura, que ele estava em Belo Horizonte, médico, oficial da polícia militar, depois que ele foi lá para a Presidência da República, daí é que eu entro, como Dilermando, na novela, Já existia Dilermando, já era força. Dilermando já tinha sido consagrado nos Estados Unidos [...] agora você há de convir, não é mole o cara ser admirado pelo Presidente da República, viver a tira colo do Presidente da República, de um Presidente carismático, um dos maiores presidentes, me perdoe, mas dentro da minha pouca formação política, mas um dos maiores presidentes desse país, revolucionou, cavou buraco pra tudo quanto foi lado, trouxe a indústria automobilística, fez o Brasil crescer, aproveitou o gancho do Getúlio e tocou pra frente. Então, discutir o JK, o democrático, o justo, às vezes, rigoroso às vezes e democrático. Então não é mole você ser amigo do Presidente. Olha, pra você ter uma ideia, muitas vezes o Dilermando tinha mais liberdade com ele, com o Juscelino que os próprios ministros dele. Porque os Ministros tem a formalidade, e o Dilermando era violonista (rsrsrs), era professor da Maristela Kubitschek no Rio, e além disso o Juscelino gostava de violão, era fanático pelo violão, pela seresta, e bateu tudo. A propósito, o Presidente Juscelino já tinha tido uma grande amizade com Nelson Piló, lá em Belo Horizonte (violão também) e quando ele veio pro Rio, como Presidente, o Rio era a capital federal, então, Dilermando morava no Rio, já dava aulas de violão, já tinha programa na Rádio Nacional, já tinha gravado não sei quanto ... era um sucesso. Mas o Juscelino procurou Dilermando pela música, pelo sucesso, pelo homem, integro que é o Dilermando Reis, haja vista que ele passou essa trajetória toda e nunca se candidatou nem a fiscal de quarteirão, ele teria sido facilmente um vereador como Ari Barroso foi, teria sido, posteriormente, com o apoio de Juscelino, um deputado federal. Nunca quis saber disso. E um dos últimos atos do Juscelino, foi nomeá-lo fiscal da receita federal e aí ocasionou impacto. A turma caiu de pau no Juscelino, porque ele, não sei, ele tinha pena, a música estava caindo, já estava entrando num declínio, e músico sempre viveu com dificuldade, então para amenizar o sofrimento do seu [ídolo} ele fez isso que era normal, não era anormal isso não. Ele, como presidente podia fazer isso naquela época e ele fez. Não só ele como ao Bené Nunes, o pianista Bené Nunes, também foi nomeado na mesma época como fiscal da Receita Federal. Isso não adiantou nada pro Dilermando Reis porque ele foi cumprir o dever dele como fiscal, estudou pra ser fiscal, isso até atrapalhou a vida dele, praticamente largou o violão, e criou uma cortina estranha de admirador [...]
Muita gente pensou assim, mas não, eu reputo como um momento de integridade ímpar de Dilermando Reis.

O Lince – E quanto à importância de Dilermando pra história da música e especial à história do violão no Brasil?

Genésio Nogueira – Ah! Muita. É muito importante, pra você ter uma ideia, o Dilermando Reis, não só ele como os de sua época, como Pixinguinha, como Bonfiglio de Oliveira que é também daqui de Guaratinguetá, eles foram praticamente os fundadores do rádio, porque o rádio no Brasil você só sintonizava o rádio se você fosse sócio daquela sociedade, porque não existia o aparelho de rádio, era tudo importado e a evolução do rádio o Dilermando foi que acompanhou. Com 20 anos de idade o Dilermando já trinta minutos de rádio, e já no rádio que sintonizava, não tinha essa potência toda, mas sintonizava em todo o Rio de Janeiro, depois foi crescendo, e o rádio progredindo ele acompanhou todo o progresso do rádio, e com 20 anos ele gravou “Noite de Lua” e “Magoado” e estourou [...] muitos brasileiros tocavam violão porque ouviam Dilermando, mas não para querer ser um Dilermando não. Isso foi muito importante, ele foi uma pessoa que influenciou culturalmente o violão no Brasil, ao ponto das fábricas de violões Del Vecchio, Gianini e Di Giorgio crescerem assustadoramente vendendo violões em função do solista Dilermando Reis.

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O Lince – Existe uma passagem sobre Dilermando dizendo que ele nunca assinou um contrato para gravação dos discos dele. É verdade isso?

Genésio Nogueira – É tem umas lendas né. Eu acho o seguinte, a Continental, primeiro gravou com eles, depois ele passou da Continental pra Copacabana, uma empresa brasileira, e lá ele praticamente era o maior vendedor de discos, então não precisava de contrato, (rsrsrs) os cara (rsrsrs) “pelo amor de Deus, Dilermando, fica aqui” e dava tudo o que ele queria. A propósito disso, a Copacabana, eu falo no meu livro, não que tenha sido desonesta, mas não foi fiel à obra, ao caráter do Dilermando Reis, porque eles pegavam as músicas que já tinham sido gravadas e editavam com capa diferente, isso pra mim é crime, e o Dilermando coitado, nem sabia o que estava acontecendo, e fizeram isso umas três ou quatro vezes, eu cito no meu livro, é uma denúncia que já [...] se perdeu no vácuo da história, mas é uma denúncia que eu fiz no meu livro, pegar as músicas dele, já gravadas, e montar um LP com capa diferente, como é que pode! Então as pessoas passavam, “oh! um disco novo do Dilermando”, e compravam. Quando chegavam em casa eles já tinham em outra gravação, isso não foi bom não. Ele quando soube ficou possesso, ele queria era mais disco novo para o seu currículo, quanto mais disco novo, melhor. Mas foi o maior vendedor de discos que você pode imaginar, de violão no Brasil, foi Dilermando Reis. Pra você ter uma ideia o disco “Abismo de rosas” edição em 78 rotações foi vendido 1 milhão de discos naquela época, década de 50, que até pra ter o aparelho pra rodar era difícil [...] mas tinha gente que comprava cinco de uma vez, porque quebrava facilmente aqueles discos, bateu no chão, quebrava, era que nem vidro, então comprava logo cinco e levava pra casa e tinha também um problema técnico que era a agulha que estragava o disco. Creio que por isso, ele atingiu uma cifra de 1 milhão de discos na década de 50.

O Lince – Mas a rádio teve papel fundamental. E o programa dele na Rádio Nacional?

Genésio Nogueira – Era o programa “Sua majestade, o violão”, na Rádio Nacional, que era uma rádio que foi projetada e inaugurada e idealizada por Getúlio Vargas, com finalidade de divulgar o Brasil, nas fronteiras. A Rádio Nacional tinha potência para pegar na Argentina, Bolívia, esses países todos que são fronteiriços com o Brasil, [...] então tocar na Rádio Nacional era que nem tocar na famosa, na poderosa que tá aí, a Globo de hoje, porque era sério, era diariamente o programa dele e virava como se fosse um hábito religioso, as pessoas diziam “hoje ouvi Dilermando”, “Não posso perder o Dilermando”, era assim. Dilermando Reis naquela simplicidade, caipira daqui de Guaratinguetá, ele viveu pouco aqui também, acho que passou quinze anos, foi embora e nunca mais voltou pra morar, mas ele nem sabia avaliar a importância dele, ele nem se tocava, não queria nem saber, queria tocar violão, tomar sua cachacinha e depois tomar whisky. E infelizmente ele foi vítima de dois hábitos que não tem nada a ver com a saúde: fumava e bebia, e fumava muito. Ele morreu com 61 anos incompletos, foi no dia 22 de setembro de 77, quando ele faria anos 61 anos.

O Lince – Sobre a relação dele com a terra natal, com Guaratinguetá.

Genésio Nogueira – Ele saiu daqui na companhia de Levino Albano da Conceição, um professor muito sério, que foi o maior musicista do Brasil, naquela época de 20...

O Lince – No fim o professor o deixou no chão duro?

Genésio Nogueira – Ele saiu com esse professor, passou dois anos viajando com ele, aprendeu muito com o professor, posso dizer que toda aquela técnica que ele tinha na mão direita e na mão esquerda, aprendeu com o professor, e daí ele foi pro Rio e lá o professor logo foi diretamente pra casa do mais famoso violonista da época, João Pernambuco. Então, foi a estrela, só mudando de galáxia cada vez maior, cada vez mais importante, aí João Pernambuco tinha que dar uma ajuda a ele porque o Levino não parava, viajava pelo Brasil afora, ele era espírita, e ele na condição de cego [...] ele esteve na Alemanha, esteve nos Estados Unidos num Congresso de Cego, ele criou a Associação São Rafael, que ainda tem por aí, São Paulo, Minas ainda tem. Foi ele que fundou e todo dinheiro que ele arrecadava, ele ajudava a Sociedade do Cego, então o negócio dele era viajar, e Dilermando parou no Rio [...] ficou pelo Rio e Levino foi e ele ficou, mas ele ficou em boa companhia, na companhia de João Pernambuco, e depois rapidamente Dilermando se tornou independente, até financeiramente, [...] porque eram muitas oportunidades que surgiam pra ele, era impressionante as oportunidades, ele foi amigo do Osvaldo de Azevedo que foi o primeiro a ouvir o “Brasileirinho” foi ele e o Braguinha, e por incentivo do Braguinha que o Dilermando Reis se tornou solista. Pra você ver, é muita coisa para um homem só, um baixinho só, ele era baixinho eu não sou alto, ele era mais baixo que eu, 1,60m talvez, e com essa estátua chegou a pesar 103 kg, depois fez uns exercícios, essas coisas, e baixou, mas ele era gordinho, e muito simpático, muito humano [...] As mazelas que por ventura ele fez é inerente ao ser humano. Santo só Frei Damião, São Francisco (rsrsrs). É isso aí.
 
 
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