Nº 53 | setembro / outubro 2013
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José Honório Rodrigues | Da Redação

É certo que a historiografia dominante no Brasil trata especialmente da realidade passada, não estruturalmente, mas conjunturalmente. Daí seu caráter de crônica, revivendo aparências mortas, semimortas, ou insignificantes.

A história do Brasil continua a revelar um lado dominante, oficial, escondendo o real e concreto. Daí o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real.

A história do Brasil que conhecemos é a história do que tem se passado na área da elite: superestrutural, ela é, politicamente, uma soma de arbítrio, terror, sítios, intervenções, conspirações, alienações, militarismo, e pessoalmente o reino da mediocridade, e da exibição paranóica, com raros estadistas.

Grande parte da produção historiográfica brasileira atual não é senão o conjunto de matéria-prima factual, despida de construção interpretativa teórica.

A interpretação é o sangue da vida da história. [...] A história se torna assim o processo contínuo de interação entre o historiador e os fatos, um diálogo interminável entre o presente e o passado.

Toda historiografia está ligada às forças políticas e sociais existentes e todo pensamento histórico está ligado à posição concreta da vida do historiador.

Como a sociedade possui mais de uma ideologia, é natural que o pensamento histórico se diversifique em muitas correntes.

Tanto a metáfora quanto a ironia têm seu lugar no escrito histórico.

Devemos gastar menos tempo tentando enquadrar a história em padrões preconcebidos e construir nossas narrativas estritamente sob inspiração das fontes e da nossa capacidade interpretativa.

Os historiadores oficiais, como os escritores oficiais em geral, possuem cabeças ordeiras e bem ordenadas. A fidelidade ao governo é como a do cão de fila. A braveza e a fidelidade não hesitam: aprovam e louvam tudo.

Por mais arrogante que seja o presente, nele se inserem forças do passado, sem cujo conhecimento a compreensão do presente é incompleta.

A história não existe para distração das elites, mas para revelar ao longo do tempo a dignidade e o valor da existência humana e a necessidade de manter viva a esperança na utopia humana.

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A história não é do passado, é do presente.

A historicidade do homem está ligada à sua salvação na Terra. Daí a estreita ligação escatológica entre a história, o presente e a salvação.

São as inquietações, os problemas presentes que levantam as perguntas novas que se devem fazer aos velhos documentos. Sem a formulação do presente, o passado é morto.

É necessário criar um homem novo no Brasil, que não seja feito à imagem de sua liderança.

Uma liderança que detesta seu povo, que o oprime, que lhe nega tudo, que desejaria ter outro povo – branco, educado, culto –, não tem o direito de liderá-lo. Assim, a missão do historiador é mostrar a necessidade de derrotar a opressão, as ditaduras, as minorias elitistas, que querem tudo para si e nada dar ao povo.

O povo brasileiro é uma vítima, um derrotado político da história, embora a construção deste país a ele se deva.

A história não é a tradição. A tradição sempre cria uma ideologia com o propósito de controlar indivíduos, ou motivar sociedades, ou inspirar classes. Nada tem sido tão corruptamente usado como o conceito de tradição.
 
 
 
 
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