Nº 51 | maio / junho 2013
Letras Valeparaibanas

Cidade de Lorena | Augusto Emílio Zaluar

Quem visita as povoações de S. Paulo desde o Bananal até Silveiras não encontra em seus usos e costumes diferença alguma das da província do Rio de Janeiro, na qual estão encravadas estas treze léguas de território. Os hábitos de vida, as relações e natureza do comércio, o gênero de cultura são os mesmos, e só de Silveiras em diante é que se começa a observar algumas ligeiras modificações, tanto nos usos do povo como na variedade do cultivo. Ao lado do café, que até aqui temos vistos quase exclusivamente ocupar a atenção do lavrador, vemos agora, como em Campos, abundantes plantações de cana alastrarem vastas campinas, e da aliança destas duas culturas nascerem resultados profícuos para o desenvolvimento da produção local.

É só nos contornos de Lorena, perto de 22.v’ e 46’ da latitude sul, como observa o sábio Saint-Hilaire, que o terreno, pantanoso e misturado de areia, apenas oferece uma vegetação menos opulenta, mas que todavia pertence ainda, até em seus menores detalhes, à flora do Rio de Janeiro.

O solo, montuoso até êste ponto, principia a desdobrar-se daqui em diante em ligeiras ondulações, descobrindo ao viajante uma larga zona de planícies limitadas no horizonte pela majestosa serra da Mantiqueira.

Esta alteração topográfica explica-nos também a modificação da cultura. Se bem que de Resende para cima já se encontre uma ou outra choupana dessa espécie de Boêmios americanos a quem na província de S. Paulo se chama Caipiras, só de Silveiras em diante é que se vê crescer esta população quase nômade, e se encontram de espaço a espaço os seus toscos e mesquinhos albergues.

A casa do Caipira é semelhante à tenda do Árabe. No repartimento da frente, que algumas vêzes é formado apenas por uma espécie de alpendre sustentado por duas vigas, à maneira de colunas, vêem-se pendurados o lombilho e as rédeas, as esporas, a garrucha, e ao lado a viola, instrumento inseparável dos povos indolentes.

Os compartimentos inteiros compõem-se habitualmente de uma cozinha e um quarto, separados por uma cortina de chita servindo de porta, e onde vivem a companheira dêstes novos Samaritas, e os filhos, se os têm. O Caipira, se não anda nas suas aventurosas excursões, encontrá-lo-eis sentado à porta do lar, fumando o seu cigarro de fumo mineiro, e olhando o seu cavalo, que rumina, tão preguiçoso como êle, a grama da estrada.

Esta gente, mais guerreira do que agricultora, não trabalha, lida; e a sua atividade não produz, consome-se. Filhos das raças ardentes do meio-dia, grande parte dêles mestiços, trazem estampado no rosto varonil, na côr requeimada pelo sol americano, e nos olhos negros e chamejantes, a impetuosidade das paixões, o ódio à sujeição e a intrepidez na luta. Mal dirigidos, serão talvez criminosos; aproveitados, serão heróis.

É quase uma tribo de Beduínos, que vive de caça e da pesca, e ama sobretudo a independência e o sol! Há raças que são como certas plantas: recebem do solo os elementos de sua nutrição, e definham e morrem quando transplantadas do torrão natal para a atmosfera de outro clima. Assim os Caipiras, tipo que não se reproduz em nenhuma outra parte do império.

Nas sete léguas que separam Silveiras de Lorena, além da freguesia do Sopé, em que já tive ocasião de falar, nada mais se encontra de notável senão as choupanas que mencionei, e a diferença do terreno por onde corre a estrada, que é quase todo plano ou ligeiramente ondulado.

A cidade, edificada em uma planície mais baixa do que a estrada, não ressalta à vista do caminhante, que a procura na direção que eu seguia. Aparecem apenas de longe os telhados acamados e as flechas de um ou outro edifício no meio de uma campina a perder de vista. Entrando porém na povoação, descobrem-se extensas e bem alinhadas ruas, soberbos e elegantes prédios, abundantes lojas, e o movimento que já denuncia a atividade de um importante centro. A posição topográfica de Lorena não podia ser melhor escolhida, e tem todos os elementos para um dia vir a ser uma das maiores cidades do interior. É pena porém que os edifícios públicos não condigam com o bom gôsto de suas construções particulares.

Cabe mencionar aqui um ensaio colonial que tem produzido até hoje os mais felizes resultados. O Sr. José Novais da Cunha organizou uma colônia de Alemães em sua fazenda denominada de Santa Cruz, perto de Lorena, no bairro de Mato-Dentro, núcleo que se compõe já de setenta e dois indivíduos, entre adultos e crianças, o qual trabalha pelo sistema de parceria adotado pelo finado senador Vergueiro, com algumas alterações feitas pelo proprietário. Esta gente vive satisfeita, entrega-se com dedicação à cultura do café, e está animadíssima com a presente colheita. O govêrno deve olhar para êste estabelecimento, e parta o ativo fazendeiro que, à custa de tantos sacrifícios, tem conseguido fornecer uma prova tão satisfatória em favor do problema de colonização. O comércio de Lorena é florescente, e existem na cidade mais de setenta lojas diversas, tôdas bem fornecidas, e grande parte girando com avultados cabedais.

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Além destas lojas, encontra-se aqui a de um hábil relojoeiro, uma excelente fábrica de chapéus, e alguns indivíduos que entrançam com tôda a perfeição rédeas e chicotes de couro, indústria conhecida com o nome de arreios de Sorocaba. Na Rua dos Ourives, onde moram os indivíduos desta profissão, trabalha-se em prata com muita arte e gôsto, sobretudo em facas, freios, arreios de luxo, e finalmente tôdas as obras dêste metal. A instrução pública está representada nesta cidade por quatro escolas, divididas do modo seguinte: uma régia, de instrução primária, do sexo masculino, freqüentada por cinqüenta e um alunos, e outra de sexo feminino, que conta umas trinta educandas; uma aula de latim e francês, também pública, concorrida por uns seis alunos, e uma outra particular, de instrução primária, por uns trinta e tantos. Os professores são aqui, como em quase tôda a província, mesquinhamente recompensados.

O caráter dos Lorenenses é franco, inteligente e caprichoso na realização dos melhoramentos locais. As suas habitações são cômodas, bem mobiliadas; mas falta-lhes ainda êsse espírito de sociabilidade que se estabelece pelas relações das famílias, defeito sensível na maior parte das povoações do interior, e que tanto concorre para o seu viver monótono e concentrado. As senhoras raramente aparecem na sala, onde os homens sòmente recebem as visitas e conversam para entreter o tempo. Esses costumes ir-se-ão perdendo pouco a pouco, como já vão desaparecendo as mantilhas, que apenas figuram hoje para ocultar as rugas de alguma sexagenária matrona, ou são usadas pela gente das classes menos abastadas. As Lorenenses são notáveis pela sua formosura e pelo bom gôsto com que se vestem, além de sua educação apurada e natural talento. É pena que não animem os salões nem dêem mais vida às reuniões, em que o seu espírito devia ser justamente apreciado.

Na entrada da cidade é digna de admirar-se uma majestosa figueira, brava, virente e enramada, cuja sombra pode servir de abrigo a umas poucas de famílias. É este o ponto habitual dos passeios da tarde, e é pena não se ter dado a êste largo um aspecto mais aprazível, pois seria um excelente lugar de recreio. Três estradas importantes se cruzam em Lorena. A estrada geral de S. Paulo, a de Mambocaba a Parati, por onde se faz o transporte dos produtos tanto dêste município como do de Silveiras, ambas em péssimo e lastimoso estado, por medonhas serras e caminhos, e a de Minas, que é de tal importância que consta dos registros aí passarem por ano para cima de vinte mil animais, que transportam desta província os seus produtos para os grandes mercados de côrte.

A questão que mais preocupa na atualidade o espírito dos habitantes de Lorena é a nova direção que se pretende dar, quanto ao seu limite terminal na província do Rio de Janeiro, à estrada de ferro de Pedro II. Estudarei em outra ocasião êste assunto, limitando-me hoje a fazer votos para que a diretoria realize a segunda e terceira seção de modo que possa auxiliar o mais breve possível os interêsses desta parte da província de S. Paulo.

Antes de findas estas linhas, cumpre-me agradecer a proteção que a emprêsa do Paraíba encontrou nos cavalheiros desta localidade, e em particular ao meu amigo o Sr. padre Manuel Teotônio de Castro, em cuja companhia estive morando em Lorena, e de quem conservarei a grata recordação que sabe inspirar a todos que têm tido a fortuna de conhecê-lo e apreciá-lo.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
 
 
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