Nº 51 | maio / junho 2013
Drops

Rubem Braga | Da Redação

Sou um homem quieto, o que eu gosto é ficar num banco sentado, entre moitas, calado, anoitecendo devagar, meio triste, lembrando umas coisas, umas coisas que nem valiam a pena lembrar.

Acordo cedo e vejo o mar se espreguiçando; o sol acabou de nascer. Vou para a praia; é bom chegar a esta hora em que a areia que o mar lavou ainda está limpinha, sem marca de nenhum pé. A manhã está nítida no ar leve; dou um mergulho e essa agua salgada me faz bem, limpa de todas as coisas da noite.

É flor! É inacreditável como a mulher se parece com a flor. Fixemos uma flor. Sabemos o que é, como nasceu, e que morrerá. Mas nossa botanica não explica a frescura desse milagre; nem muito menos porque nos emociona. Podemos passar diante de uma casa de flores, e ver, e achar belas as flores. Mas a flor que de repente nasce no muro familiar, que adianta prová-la? É uma aparição; algo que traz do fundo da terra uma inesperada palavra de candor. Parece dizer: eis-me aqui. E não é apenas a brisa que a estremece: é a vida.

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Desejo a todos um ano novo de muitas virtudes e alguns pecados suaves e bem aproveitados.

Fazer política é a arte de namorar homem.

No fundo, talvez não seja muito bom negócio vender a alma. A alma, às vezes, faz falta.

Se a velhice tem alguma coisa abençoada é permitir essas amizades realmente isentas de malícia. Sentimento tranqüilo, sem ciúme. Mas ainda assim com uma delicadeza toda especial, com um sabor lírico muito leve.

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Tenho uma tendência romântica a imaginar coisas.

As horas se juntam, fazem os dias, fazem os anos, tudo vai passando, e os anjos não existem mais, nem no céu, nem na terra.

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito - como não imaginar que sem querer feri alguém? Ás vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda ou uma reticência de mágoas. Imprudente oficio é este, de viver em voz alta.

Os jornais noticiam tudo, menos uma coisa tão banal que ninguém se lembra: a vida.

Mas há também, e não vale a pena esconder nem esquecer isso, aqueles momentos de solidão e de morno desespero; aquela surda saudade que não é de terra nem de gente, e é de tudo, é de um ar em que se fica mais distraído, é de um cheiro antigo de chuva na terra da infância, é de qualquer coisa esquecida e humilde — torresmo, moleque passando na bicicleta assobiando samba, goiabeira, conversa mole, peteca, qualquer bobagem.
 
 
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