Nº 54 | novembro / dezembro 2013
Letras Valeparaibanas

Província de São Paulo
Pindamonhangaba | Augusto Emílio Zaluar

A sessenta léguas pouco mais ou menos do Rio de Janeiro, seguindo a estrada geral de S. Paulo em direção à capital desta província, a sete léguas adiante de Guaratinguetá, encontra-se sôbre uma vasta eminência formada por uma larga ondulação do terreno, e como assentada no regaço de verdejantes campinas, a formosa cidade de Pindamonhangaba.

O rio Paraíba, em uma de suas infinitas e caprichosas circunvoluções, passa docemente, espreguiçando-se em uma voluptuosa curva, e parece, segundo a frase do Sr. Homem de Melo, imprimir nas orlas da cidade namorada um ósculo de amor! As donzelas que à tarde passeiam sôbre a ponte, como é de uso aqui, atiram às águas do rio algumas flores, e êste, orgulhoso com a dádiva, foge arrebatando-as no seio, gemente e saudoso, como um amante que se despede, certo da vitória, daquela que o adora!

O lugar para sede de uma povoação não podia pois ser melhor nem mais poeticamente escolhido. A natureza calma, mas opulenta, destas imensas planícies, que se fecham no horizonte aos pés das duas grandes serras da Mantiqueira e Bocaina, tem um aspecto majestoso, e, comtemplada aos raios do sol poente ou ao reflexo pálido da lua, forma um painel arrebatador e sublime!

O solo, como o oceano em calmaria, desenrola-se em ondas de verdura, e de vez em quando, no seio de suas dobras esmaltadas, alveja ao longe uma casinha pitoresca que a vista alcança a duas outras léguas de distância, e é uma fazenda isolada no êrmo, que sorri com uma mansão de paz e um asilo de felicidade.

O firmamento arqueia-se puro sôbre êste painel encantador, e no horizonte imaculado estampa-se o vulto irregular das serranias azuladas e transparentes como as colinas da Itália e as montanhas da Grécia.

O poder das idéias que o sôpro da civilização espalha nas asas do progresso tem germinado frutos abençoados nesta terra de predileção. Ao lado da pompa de uma natureza luxuriante acelera-se o desenvolvimento material e brota como espontâneo o talento e gênio de seus filhos.

Seria curioso o estudo da influência que os lugares exercem, não digo já sôbre a imaginação do homem, o que ninguém desconhece, mas ainda sôbre a sua índole e caráter, sôbre as suas tendências, e sôbre o seu empenho nas conquistas da matéria pela inteligência e espírito.

Pindamonhangaba é uma das cidades do norte da província de S. Paulo em que estes fatos se tornam por assim dizer visíveis e palpáveis. E preciso admirar a poética arquitetura de sua matriz, concepção grandiosa de um artista quase ignorado, cujas flechas se levantam ao céu em linhas puras e suaves, como singelos pensamentos de piedade e de fé; é preciso ver as construções artísticas dos bem acabados prédios que adornam as largas e formosas ruas da cidade; é preciso gozar da confraternidade amável de seus habitantes, apreciar a sua sociabilidade, conviver com os distintos talentos que a enobrecem, para justificar uma teoria que ao menos aqui é amplamente realizada.

Vamos portanto ver se em seus detalhes esta povoação corresponde ao complexo que acabei de traçar.

Começarei pelo seu desenvolvimento material.

Pindamonhangaba foi fundada vila pelo povo no século XVII, e confirmada neste título por uma provisão régia de 10 de julho de 1705.

Antiga povoação de Nossa Sra. do Bom Sucesso de Pindamonhangaba, era a princípio uma capela em que ouviam missa os moradores daquele sitio, até que se desligou violentamente da jurisdição da vila de Taubaté, fato que refere Pedro Taques na sua História da capitania de S. Vicente, e cuja tradição hoje se conserva.

O espírito popular obrigou um ouvidor de S. Paulo, que por ali passava, a dar-lhe os seus fôros de independência, desprendendo-a da tutela estranha.

Passando por fases mais ou menos pungentes, arcando com as circunstâncias que mais de uma vez tolheram seus vôos progressistas, lutando com as necessidades gerais que têm pesado sôbre o país, sofrendo com a míngua de braços, com as faltas de comunicação, assim mesmo êste centro enérgico e produtor tem progredido, desempenhando-se, e hoje é já um pequeno empório de riqueza e civilização!

Entre os edifícios que mais temos a notar aqui deve colocar-se em primeira plana a matriz, que era uma igreja de gôsto antigo, vasta, porém sem arquitetura.

Em 1841 deitaram-se abaixo as paredes da frente para levantar-se novo frontispício e reconstruir-se o templo. Em 1842 lançaram-se os primeiros alicerces da monumental fachada que hoje desafia a atenção do viajante. É uma peça de arquitetura dórica, cujo risco é devido ao hábil e inteligente artista Antônio Pereira de Carvalho, e a execução ao pedreiro José Pinto dos Santos, falecido em 7 de fevereiro de 1856.

Esta obra foi exclusivamente feita à custa dos fiéis, e sobe hoje a 50 contos de réis, pouco faltando para acabar o resto do templo, no que se trabalha com afinco, sob a ilustrada administração do Sr. Dr. Miguel Monteiro Godói.

Além da matriz, ainda há em Pindamonhangaba mais outra igreja, a do Rosário, capela aldeã edificada pelo finado ajudante José Homem de Melo, e a igreja de S. José, pequena, mas bem acabada, com uma fachada singela e elegante. Foi êste último templo construído pela familia Godói.

A quatro léguas da cidade, seguindo a estrada de Taubaté, existe uma outra capela com a invocação de Nossa Sra. do Socorro, notável pelos seus milagres.

A casa da câmara e a cadeia não correspondem à beleza dos outros edifícios públicos; mas é de crer que em breve serão substituídas por obras mais perfeitas, quanto mais que muito é lícito esperar da inteligência e zêlo dos atuais vereadores, se bem que sejam muito minguados os recursos de que dispõem em presença das necessidades que reclamam a sua aplicação.

Há nesta cidade um lindo teatro, o melhor sem dúvida de todo o norte da província, que não está porém ainda acabado. É vasto, espaçoso, alegre, e adornado com três ordens de camarotes. Tem sido construído à custa dos particulares, que já gastaram para cima de 20 contos de réis nesta obra. É devido também ao risco do mencionado Francisco Antônio Pereira de Carvalho, artista de talento transcendente, que tanto mais se torna digno da pública atenção, quanto nunca fêz estudos profissionais e deve quanto sabe a sua inteligência, gôsto e louvável dedicação ao trabalho.

Grande número de prédios adorna as ruas de Pindamonhangaba, e entre êles merecem especial menção o do Sr. capitão Antônio Salgado Silva, palacete de gôsto, ainda não acabado, mas que denuncia já um brilhante edifício, devido ainda ao risco e direção do Sr. Carvalho; os prédios dos Exmos. Srs. Barão de Pindamonhangaba e Monsenhor Marcondes, o do Sr. tenente-coronel Antônio de Godói Moreira e Costa, major Ferreira, ajudante Almeida, padre Antônio da Cunha Salgado, Domingos Marcondes Homem de Melo, Baronesa da Paraibuna, e a casa do vigário, o Rev. Cônego João Nepomuceno d’Assis Salgado.

Fora da cidade existe um vasto cemitério público, e acham-se há muito tempo abolidos aqui os enterros nos templos.

Ampliar imagens

A ponte sôbre o Paraíba está em mau estado, e não corresponde também, em segurança como em beleza, ao complexo dos edifícios que aformoseiam a cidade.

A população geral de Pindamonhangaba, segundo um cômputo feito em 1854, orçava em 10.000 almas, fora o município de S. Bento. Hoje terá o município desta cidade de 14 a 16.000.

A principal cultura do lugar é café. Exporta-se por ano para mais de trezentas mil arrobas, que descem pelo porto de Ubatuba ao grande mercado da côrte.

Aqui há uma escola pública de instrução primária para meninos, frequentada por vinte alunos, e outra do sexo feminino, por sessenta educandas. Além destas, há uma cadeira de latim e francês, frequentada por doze alunos.

Existem mais de quatro aulas de ensino privado, cursadas uma por quarenta e sete discípulos, outra por trinta e seis, outra por oito, e outra por seis.

As necessidades mais urgentes do município são a fundação de um hospital de caridade, para o que já existem alguns dons e legados pios. Esta idéia não é nova, e cumpre realiza-la com perseverança.

Torna-se também nesta cidade de absoluta urgência a construção de um chafariz, pois todos os moradores bebem água do Paraíba.

A mais imperiosa, porém, de tôdas as exigências públicas, segundo penso, é, como em Guaratinguetá, remover os morféticos, que em chusmas invadem a cidade aos domingos a solicitar a caridade pública, e dando o doloroso espetáculo da mais horrível miséria.

Em breve exporei neste sentido o modo que me parece mais fácil para mitigar a sorte destes desgraçados, bastando talvez para o conseguir uma simples medida legislativa.

O comércio de Pindamonhangaba não é dos menos florescentes. A indústria está, porém, em decadência. Apenas aqui se nota uma fábrica de velas de cêra de terra e duas padarias. Houve antigamente uma fabrica de chapéus de palha nacional, mas já não existe.

Tendo dito quanto é bastante para se fazer idéias do desenvolvimento material do município e de sua população, parecerá que o número de alunos que frequentam as escolas não está em proporção dos habitantes nem em paralelo com a ilustração e progresso dêste importante centro; porém é preciso observar que a maior parte dos filhos das famílias mais distintas e abastadas não cursam as aulas do lugar, mas vão educar-se em S. Paulo, onde o ensino público tem mais recursos, e onde ao mesmo tempo se habilitam para os estudos superiores e para entrarem na Faculdade de Direito.

Agora, quanto à convivência social dos habitantes de Pindamonhangaba, é êste um fato que surpreende agradàvelmente o viajante! Distante sessenta léguas da capital do império, e mais de trinta da capital da província, encontram-se os costumes, a ilustração, a amabilidade e o bom gôsto das brilhantes reuniões do Rio de Janeiro, no seio dessa população escolhida e fina, e crer-vos-eis transportados por encanto aos ruidosos salões do Catete ou às vivendas deliciosas de Botafogo e Andaraí.

É êste sem dúvida o ponto mais animado de todo o norte da província.

Se bem que não tenha tido a fortuna de relacionar-me com dois dos mais ilustres moradores desta cidade, os Exmos. Srs. Barão de Pindamonhangaba e Monsenhor Marcondes, por se acharem ambos gravemente enfermos, acontecimentos que encheu de pesar um grande número de famílias aparentadas com estes cavalheiros, tive ocasião de apreciar em algumas reuniões íntimas e prendada educação de muitas senhoras distintas, e a conversação amável e espirituosa das pessoas mais notáveis desta pouco numerosa, mas brilhante sociedade.

Fazem parte dêste grupo alguns amigos, cujos nomes me é doce recordar nestas toscas, porém sinceras, impressões de minhas viagens. O Dr. João Marcelino de Sousa Gonzaga, juiz de direito da comarca, cuja ilustração, probidade e independência o tronam uma das mais justificadas glórias da magistratura brasileira; o Dr. Manuel Marcondes de Moura e Costa, atual juiz municipal do Bananal; o Dr. Américo de Moura Marcondes de Andrade, e finalmente o meu jovem e talentoso amigo Dr. Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo, inteligência superior, que a pátria já conta como um de seus filhos mais ilustres e a imprensa como um dos mais nobres pelejadores nas lutas do pensamento, e outros, formam aqui uma plêiade brilhante que traz à memória esses círculos animados da mocidade do Rio de Janeiro, onde o mérito, a nobreza de caráter e as elevadas aspirações do futuro são os títulos que os recomendam ao apreço de seus concidadãos e ao lugar que lhes compete nos destinos gloriosos do Brasil.

Além das reuniões particulares e do teatro, assisti em Pindamonhangaba às festas religiosas e populares do Espírito Santo e do Rosário. Falta-me tempo para descrever estas festividades, em que duas realezas efêmeras são aclamadas em um dia, para descerem no outro, resignadas e tranquilas, do pedestal do poder em que por um momento as colocou o sôpro... da sorte!

No entanto é curioso observar o cerimonial dêstes dias de festejo: as folias, ou uma espécie de bando que anuncia a festa, composto de uma orquestra de flautas de taquara, um tambor, e de uma cantilena monótona cujas letras é impossível perceber no meio daquela algaravia semibárbara; as procissões, os jantares aos pobres, o banquete e o baile do festeiro, e finalmente uma quantidade de outras particularidades que não seriam sem interêsse para a história dos costumes populares, e que porventura escreverei um dia, quando me não vir assaltado por outras e mais graves preocupações.

O meu interêsse todo cifra-se neste momento em que o leitor, percorrendo estas linhas, se convença, como eu, de que Pindamonhangaba, esta mimosa filha do Paraíba, é também um dos centros mais brilhantes da civilização da província.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
Valle e Azen Sociedade de Advogados Supermercados Leão
 
 
  © 2007 • 2014 Jornal O Lince, tem o que ler  | Tel.: (12) 9 9138 5576 | redacao@jornalolince.com.br
  Rua Alfredo Penido, 101, Jardim São Paulo
  Aparecida, SP | CEP 12570-000