Nº 54 | novembro / dezembro 2013
História

Chico Barbosa - O Jornalista da Literatura |

"Simples reportagens se tornam clássicas nas mãos do operoso e incansável Assis Barbosa, alcançando a perenidade da literatura" Otto Lara Resende

Com a aproximação do centenário de nascimento do acadêmico Francisco de Assis Barbosa, que ocorrerá em 2014, fica perceptível a necessidade de renascer das cinzas o personagem e suas obras, pela fundamental importância que teve no cenário cultural brasileiro entre as décadas de 1930 e 1970. Notadamente por suas obras enfeixadas em livro, como pelos seus escritos esparsos pela imprensa brasileira, particularmente na carioca, que foi o berço da comunhão entre a imprensa e a divulgação literária, no período em que fervilhavam, em certo sentido, os suplementos litero-culturais (1940-1960). E o presente texto, entre outras finalidades, pretende sinalizar sua representação e provocar os colegas valeparaibanos para o desenvolvimento de uma biografia consistente e digna desse importante intelectual.

O Jornalista e a Literatura



A grande área na qual Chico Barbosa se dedicou imensamente foi o jornalismo, cuja labuta alicerçou o seu nome no panteão dos grandes escritores. Atividade que exerceu desde os bancos universitários, passando pelos grandes jornais e revista do país: “A Noite” (1934), “O Imparcial” (1935), “A Noite Ilustrada”, “Vamos Ler”, “Carioca”, “Diretrizes” (1936-1942). Foi, também, colaborador da Revista “Globo”, redator do “Correio da Manhã” (1944), do “Diário Carioca”, da “Folha da Manhã” e da “Última Hora”, (1951-1956). E editor do Jornal do Brasil por ocasião do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, em 1965.

E foi no exercício dessa profissão que provavelmente aproximou-se da literatura e do meio literário do Rio de Janeiro no decorrer das décadas de 1930 e 1940. Isso resultou no brilhante papel que desempenhou, reunindo grande série de entrevistas sobre renomados autores brasileiros, registrando as contribuições e resgatando a memória de muitos personagens esquecidos da literatura brasileira. Tendo sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Escritores e membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI).

Dentre as reportagens e entrevistas mais destacadas e polêmicas, merece destaque foi aquela que ele teve como entrevistado, em novembro de 1941, o Coronel Dilermando de Assis, que foi o assassino de Euclydes da Cunha.

No desenrolar dessa matéria, fica a ideia que na “tragédia da Piedade” não houve inocentes, e que todos pareceriam réus e vítimas, mas que certamente a “opinião pública” estaria entre as mais culpadas. E que teria sido ela que, na pessoa do delegado Oliveira Alcântara, teria feito uma investigação inteiramente facciosa, ignorando todos os fatos que apontavam para a legítima defesa, passando premeditadamente a acusar de homicídio o aspirante Dilermando de Assis, que na época contava com 17 anos. (ROUANET in MOREIRA, 1996).

"A opinião publica sabia o que queria: acusar a priori o assassino de Euclides, que cometera o erro de defender-se do seu agressor, em vez de permitir que a lógica da sociedade machista chegasse às últimas consequências – a punição do amante pelo marido enganado".

Com essa matéria Francisco de Assis Barbosa foi um dos primeiros a defender o ponto de vista da mulher, mostrando como Ana sofrera perseguições e omissões de um marido neurastênico, e por tabela o ponto de vista de Dilermando, duas vezes absolvido pelos tribunais, mas implacavelmente condenado pela opinião pública (ROUANET in MOREIRA, 1996).

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Outra importante entrevista realizada foi com um dos representantes do modernismo no Brasil e incentivador da Semana de Arte Moderna de 1922, o escritor Mário de Andrade, registrada na obra “Testamento de Mário de Andrade e outras reportagens”, publicado em 1954 pelo. Ministério da Educação e Cultura.

"O escritor então é responsável até pela grafia das palavras quanto mais pelo que transmite por elas. Se a sociedade está em perigo, conclui-se que o escritor tem a obrigação indeclinável de defendê-la. Infelizmente não são muitos os que entre nós se capacitaram disso. Uns por não possuírem consciência profissional. Outros por não possuírem consciência de espécie alguma. Não há por onde fugir. Ninguém pode cruzar os braços e ficar acima das competições sociais. É assim com a guerra, na luta das democracias contra o fascismo de todas as categorias".
Trecho de entrevista de Mario de Andrade (BARBOSA, 1954 p.11).

Nesse trecho, assim como o seu entrevistado, vê-se a preocupação do jornalista em buscar isenção e imparcialidade nos seus trabalhos:

"É bem possível que eu nunca tivesse publicado uma só linha se não tivesse a certeza de que minha literatura poderia ser útil. Não pretendia, de fato, publicar nenhum poema de Paulicéia desvairada. Até que um dia percebi que minhas poesias tinham capacidade para irritar a burguesia. Foi o bastante. Pelo resto da minha carreira literária, observei a mesma linha de conduta. Só publico o que pode servir. Todas as minhas obras têm um intenção utilitária qualquer. As coisas de pura preocupação estética que fiz durante algum tempo, eu destruí. Só me interessavam a mim, como aquisição de técnica pessoal".
Trecho de entrevista de Mario de Andrade (BARBOSA, 1954: 13).

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