Nº 54 | novembro / dezembro 2013
Entrevista

Maurício Pereira
Literatura fantástica e folclore brasileiro | Da Redação

Quando o assunto é a produção de textos que fazem uso de elementos inverossímeis, ficcionais, sobrenaturais até, há duas vertentes bem definidas na recente produção literária brasileira. Uma delas, buscando elementos da cultura europeia, tende ora ao medievalismo e todo o universo de seres e histórias que ele comporta, e ora ao macabro que carateriza o gênero gótico com todas as suas derivações. Outra tendência, embora alicerçada em mesma base, privilegia elementos da cultura brasileira revisitando estórias e conferindo a elas um toque de atualidade que as torne interessantes para um público infanto-juvenil herdeiro de um mundo profanado.

Maurício Pereira abraça a tradição regional das redondezas de Redenção da Serra-SP e imprime-lhe a verve do "contador de causos", o que bem aprendeu a fazer ouvindo seu pai. Eis que ele assim coloca a quintessência da sabedoria popular: esta precisa ser contada para sobreviver. E precisa ser contada de modo a persuadir, visto que sem convencimento o saber vivido torna-se discurso e morre. A lógica é a grande rival da vida saborosa.

O Lince – Alguns de seus livros, traduzidos para o inglês, foram expostos na maior feira de livros do ocidente: a Feira Internacional do Livro de Frankfurt. Como isso se deu?

Maurício – Quando publiquei o “Asa Branca”, em 2008, fui indicado para melhor capa na Feira de Bolonha e isso me animou muito, pois, mesmo não ganhando, já foi muito gratificante “apenas” ter sido indicado. Isso indicava que eu estava no caminho correto.

Dai em diante fui fazendo meus livros e, em 2010, “Contos de Assombração” – que já havia escrito e ilustrado anteriormente – entrou para o PNBE, um programa do governo que coloca livros em escolas públicas. E em 2011, o “Causos Assombrosos em Quadrinhos” também entrou no PNBE.

Depois disso, a mulher/editora que cuidava de minhas publicações na DCL e na Jujuba foi morar na Índia e, na sequência, na Alemanha. E uma vez lá fora, uma das grandes lutas dela tornou-se justamente valorizar e divulgar a nossa cultura. Como hoje ela tem sua própria editora e morando na Alemanha, ela leva meus livros e todos os outros de sua editora para Feira. Este ano ela negocia a publicação dos livros na China. Vamos ver se emplacamos por lá!

Sempre me dizem que o fato de eu escrever contos populares e usar a linguagem popular enriquece e valoriza nossa cultura e divulga isso no exterior. Eu gosto disso, me identifico mesmo, pois jamais me afastei do interior, sempre tive raízes bem profundas em minha terra.

O Lince – Por que você escolheu escrever sobre o folclore do Vale do Paraíba?

Maurício – Na verdade eu comecei desenhando desde cedo e com o sonho de fazer um livro com as histórias de assombração que meu pai me contava desde criança. O intuito inicial era de registrar tudo aquilo para que meu filho um dia pudesse ler os causos de seu avô. O que eu não imaginei era que essas histórias não seriam apenas para meu filho e sim para milhares de “filhos” em todo o Brasil, e mais longe ainda no exterior.

Como disse, mesmo morando na capital por mais de quinze anos, onde trabalhei no mercado publicitário e editorial, mantive minhas raízes vivas e “fincadas” na terra onde nasci. E como as histórias que me fascinavam desde garoto eram típicas de todo o Vale e região, nada melhor do que agora registrar tudo isso para as gerações futuras. Ainda tenho muitas histórias para contar. A vida na roça é cheia de um imaginário próprio, rico e deslumbrante. Temos muito que mostrar aos moradores das grandes cidades.

O Lince – Como é estar junto ao fogão a lenha, à noite, ouvindo histórias de assombração? E na hora de dormir?

Maurício – Passei toda a minha infância em um sítio entre Redenção da Serra e Natividade da Serra. Era comum meu pai me contar histórias de assombração, de disco voador, de pescarias etc.

Agradeço muito a ele por me oferecer tudo isso, pois sempre ficará em minha memória esses anos maravilhosos que passei lá na roça.

E tinha essa coisa de contar as histórias à noite mesmo, ao redor de fogueira ou fogão de lenha. Essas histórias aliadas a escuridão da noite alimentavam nossa imaginação e despertavam nossos medos, tornando mais fácil de se acreditar em seres de outro mundo, almas penadas, alienígenas etc.

Dormir era difícil, eu confesso! Mas valia muito! Todos queriam ficar juntos temendo que algo dessas histórias pudesse sair das sombras a qualquer momento. E grande parte da graça dessas histórias era justamente “provar” do medo que elas causavam. Todos tinham medo, mas queriam continuar ouvindo sempre.

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O Lince – As crianças que leem suas histórias reagem de que maneira?

Maurício – Pelos livros estarem nas bibliotecas de escolas públicas, muitos alunos já conhecem meu trabalho, e quando vou em alguma escola para divulgar esse trabalho eles gostam de compartilhar as histórias em comum, que eles também ouviram de pais e avôs. O legal de ir em escolas é ver a alegria e o fascínio que essas histórias causam nessas crianças. E também por que ao meu ver eles nem sempre acreditam que um escritor/ilustrador pode ir na escola que eles estudam e falar para eles de um livro que eles leram na biblioteca. Essa proximidade, esse contato com eles é muito gratificante e serve de bússola para meus futuros trabalhos.

Mês passado fui em Lagoinha divulgar meu trabalho e fazer uma oficina de desenho com a criançada da escola Padre Chico. E um menino veio me intimar que ele já tinha lido todos os meus livros e queria saber quando lançaria outro. Outros se fascinam com o desenho e fixam seus olhos em tudo o que faço naquele momento. É muito bacana mesmo!

O Lince – Quem tem medo de assombração?

Maurício – Creio que todos nós temos nossos “medos de assombrações”, pois toda criança, até a mais valente, tem medo, e nos adultos, nem que seja bem lá no fundo, bem no fundo mesmo, ainda existe uma criança, e essa criança é medrosa. E se não for “medo” a palavra correta. Sempre nos lembraremos de um pai, ou avô, ou ainda de algum conhecido mais velho que nos contou um conto de assombração algum dia e esse causo é um elo com a infância e dai a palavra correta seria “saudade”, seja da infância ou de um ente querido, e essa saudade, é uma palavra eterna.

O Lince – Você diria que o que você escreve é literatura fantástica? Por quê?

Maurício – Creio que sim, pois dentro da definição de Literatura fantástica habitam três subgêneros: Ficção Científica, Fantasia e Horror. E minhas histórias se localizam entre a tênue divisão da fantasia e do horror.

Mortos que caminham entre os vivos, almas penadas, animais e objetos que falam etc. Fatos e seres que não pertencem a nossa realidade, mas que são, de certa forma, aceitos como verdade. Tudo oriundo do nosso folclore, ao meu ver, um dos mais ricos do mundo.

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