Nº 52 | julho / agosto 2013
Letras Valeparaibanas

Guaratinguetá | Augusto Emílio Zaluar

Guará, ou guaraz, é o nome de um pássaro do Brasil, branco em pequeno, cinzento depois, e que se torna por fim vermelho. E’ a íbis rubra dos naturalistas. Os indígenas enfeitam com as penas de suas asas as canas de guerra, que ficavam como empavesados com a vívida plumagem.

Tinga quer dizer branco, e eté, muito; destas três palavras compôs-se o nome Guaratinguetá, ou guará branco, que se deus no norte da província de S. Paulo a uma de suas mais populosas cidades.

Fica esta povoação a duas léguas e meia adiante de Lorena, seguindo a estrada geral da capital.

O caminho que atravessamos desdobra-se por terrenos ligeiramente ondulados, e a vista descortina as mais agradáveis disposições do solo, indo fechar-se o leito dos vales aos pés das duas grandes serras da Mantiqueira e Bocaina, que estampam o seu dorso recostado nos últimos limites do horizonte.

A vegetação que em todo êste espaço se observa é menos opulenta do que a da província do Rio de Janeiro, ao menos nos pontos que visitamos, e apenas em um outro ponto se vêem levantar tufos de arbustos e alguns grupos de árvores mais ou menos corpulentas.

Depois de duas horas de marcha regular e suave, entramos em uma espécie de viela estreita e tortuosa, orlada de velhos e mesquinhos casebres, que desemboca em uma calçada ladeirenta e pedregosa, a qual vai dar a uma praça de aspecto desolador e quase repugnante, e estávamos na cidade de Guaratinguetá!

Êste é o plano geral do sistema adotado até hoje para o aformoseamento da povoação, e norma das construções prediais, que pouco tem sido alterada.

As ruas quase tôdas do mesmo gôsto, e da mesma desagradável aparência as suas praças e largos, a quem com razão se deve chamar pátios.

No entanto existe atualmente neste município, fazendo um cálculo aproximadamente sôbre a estatístiva de 1855, que computava a população em 32.000 habitantes, talvez muito para cima de 34.000 almas!

Parece uma cidade esta que acordou de um letargo de alguns séculos, e se envergonha, em presença de suas irmãs elegantes e garridas, do papel que representa de anacronismo de taipa!

Até a sua municipalidade, ao inverso da de Lorena, dorme o sono da inércia, enquanto os bois, as vacas, os carneiros e os porcos ruminam tranquilamente nas praças públicas os despojos do último mercado, e parecem rir da fidelidade com que se cumprem as posturas da câmara!

Os edifícios públicos correspondem aqui perfeitamente às construções particulares.

A matriz, templo de vastas proporções, está edificada em um alto, no meio de outras propriedades, sem ter uma praça onde sobressaia a sombria, mas severa arquitetura de sua fachada!

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Foi ela edificada pelos fiéis, e limitadíssimo auxílio tem recebido até hoje dos cofres provinciais. Tem por padroeiro a Santa Antonio. Uma das cousas mais dignas de admiração que ali se observa é a capela do SS. Sacramento, tôda dourada, obra de bastante gôsto e arte, mandada construir a expensas do finado alferes Antônio de Paula e Silva, cidadão distinto por suas virtudes, e que ainda hoje é chorado pela pobreza, de quem foi sempre infatigável protetor.

Além da matriz, existem na cidade as igrejas do Rosário, de S. Gonçalo, Santa Rita e a capela de S. Miguel.

No município há mais seis capelas, que, à exceção da consagrada à Senhora da Aparecida, estão em abandono.

A cadeia e a casa da câmara, juntas em um mesmo edifício, são sofríveis, se bem que a primeira reclame urgentes reparos.

Esta povoação é uma das mais antigas da província, pois a sua fundação data de 1651. Jacques Félix, segundo Pedro Taques, penetrou aqui, estando ainda em sertão inculto êste lugar, e com gentios habitadores dêle, pelo rio Paraíba, que vai correndo a introduzir-se nos campos dos Goitacazes, em 1646.

“Era o intento principal desta expedição, continua o citado autor, o descobrimento de minas, para cujo efeito obteve provisão, data do Rio de Janeiro no mesmo ano de 1646, de Duarte Corrêa Vasques Anes, como administrador das minas. O capitão Domingos Leme foi o fundador desta vila, na qual tendo levantado pelourinho por ordem do capitão-mor ouvidor Dionísio da Costa, em nome do donatário D. Diogo de Faro e Sousa, a 13 de fevereiro de 1651, lhe fêz as justiças em 5 de julho de 1656 o capitão-mor ouvidor em nome do donatário Luís Carneiro, conde da Ilha do Príncipe.”

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Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
 
 
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