Nº 52 | julho / agosto 2013
Drops

Paul Ricoeur | Da Redação

Não existimos como filósofos senão na medida em que continuamos um certo tipo de questões inauguradas pelos gregos. O que foi feito na China, na Índia, não é filosofia, é uma outra forma de pensar.

Todos os grandes filósofos do passado foram competentes numa ciência, muitas vezes em várias: Platão era geômetra, Descartes matemático etc. Por conseguinte, a filosofia não se limitava a um debate consigo mesma. Hoje em dia, é muito freqüente os filósofos apenas dialogarem com outros filósofos.

Quando eu penso em “raízes”, eu penso na nossa dupla ou tripla herança grega e judaico-cristã. Seremos capazes de reatualizar indefinidamente essas heranças ou elas estão esgotadas? Esta é uma das questões mais fundamentais da época contemporânea.

A síntese da liberdade e da instituição quebrou-se. Muitas instituições sobrevivem: elas estão como mortas, tecnocratizadas e petrificadas. Funcionam para si próprias.

Não podemos ter esperança se não temos memória. Mas é preciso refazermos uma memória que não seja repetitiva mas, pelo contrário, que seja criativa. Esta é uma das finalidades da filosofia.

Há muitos indivíduos que fazem filosofia, mas muito poucos grandes filósofos. Diria que a nossa tarefa, no intervalo de dois grandes filósofos, é manter a memória e trabalhar de forma honesta e séria, como o que Nietszche chamava de “probidade intelectual”.

O que me espanta é o fato de se viver, sobretudo, numa sociedade sem projeto, que se perpetua por velocidade adquirida. A sociedade tecnológica é uma sociedade cancerosa, como uma estrutura que se alimentaria de si própria. Acusamos os jovens de quererem destruir e de nada proporem. Seria preciso afirmar, inversamente, que é a sociedade que não tem projeto. Todo o seu projeto é o de continuar a mesma coisa, em particular, para a sociedade industrial. Esta não tem outra finalidade senão o seu próprio crescimento. A ideia de crescer todos os anos 4 ou 5%, logo de duplicar todos os 20 anos, não é um projeto. Isso faz igualmente parte do “niilismo”. Uma tal sociedade vive do nada. O niilista não é aquele que fala do niilismo, é aquele que não fala dele, que não sabe o que está em causa no niilismo, que vive no nada.

A capacidade de escavar os escombros e os destroços é um ato positivo.

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Não conhecemos o tempo em que vivemos. A atualidade é opaca para nós. Não podemos saber como será julgada a atualidade daqui a trinta anos.

O tempo como estrutura cosmológica da realidade torna-se humano quando é objeto de uma narração. Corrigi, todavia essa opinião – que foi também a minha – na conclusão de Temps e récit. Não podemos sobrestimar a narrativa, existem muitas outras articulações do tempo que não se deixam reduzir a ela.

Não pode haver uma totalidade da comunicação. Com efeito, a comunicação seria a verdade se ela fosse total.

A violência que fala é já uma violência que procura ter razão; é uma violência que se coloca na órbita da razão e que começa já a negar-se como violência.

Não se está realmente com os pobres senão lutando contra a pobreza.

A tolerância absoluta é intolerável.

Eu suporto este corpo que governo.
 
 
 
 
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