Nº 50 | março / abril 2013
Letras Valeparaibanas

Cidade de Silveiras
Província de São Paulo | Augusto Emílio Zaluar

Nem tôdas as estradas de S. Paulo, é força dizê-lo, são melhores do que as da maior parte da província do Rio de Janeiro. O mal vem de longe a parecer incurável! As quatro léguas que levam de Queluz a Silveiras são uma prova do que digo, pois gastei, em bons animais, para transpô-las, nada menos do que seis horas e meia!

Morros descomunais e sem número, caminhos apertados por picadas cobertas de mato, atoleiros onde os animais se enterram até às orelhas, eis fielmente desenhada qual é a via de comunicação que liga os dois municípios, e que, se não é a melhor, também não e a pior das que convergem neste sentido.
Mais de uma vez, confesso, parei desanimado no meio de uma montanha escabrosa e quase inacessível, em frente de um brejo cujas águas limosas exalavam miasmas deletérios, ou à borda de um precipício que faria recuar de espanto um inglês ou um veado, que são as duas criaturas que mais gostam de galgar despenhadeiros.

Mas dos próprios reveses tirando novas fôrças, como é meu habitual costume, continuei a caminhar, quase sem ter esperança de descobrir a encantada vila de Silveiras.

Para mal de pecados, como o caminho é todo cheio de voltas e de erradas, eu e o meu camarada, que entra em todos êstes estudos topográficos como Pilatos no Credo, viamo-nos obrigados a parar tôdas as vêzes que enxergávamos alguém que nos pudesse orientar se estávamos ou não perdidos.

Chegando a uma espécie de vale estreito e agreste, avistamos da colina, cuja senda seguíamos, um homem já idoso, com figura de sátiro, estirado ao comprido sôbre um monte de tábuas, observando o trabalho de alguns carapinas que o rodeavam debaixo de um telheiro. Dirigi-lhe naturalmente a palavra, e perguntei-lhe se aquêle era o caminho de Silveiras.

O velho Sileno, dando à fisionomia a expressão de uma caricatura de castão de bengala, desfechou-se, em resposta, uma furiosa gargalhada!

Asseguro que me desapontou o destempêro desta amabilidade cínica, e me julguei por um momento em algum dos recôncavos do inferno, frente a frente com um lobisomem!

Mas como o lugar não era próprio para um idílio bucólico, entendi que o mais acertado seria não procurar a decifração da charada do Bertoldo selvagem, e seguir o meu caminho, resolvido a fazer todos os esforços para nunca mais passar por semelhante sítio.

A única cousa verdadeiramente poética que encontrei nesta longa e espinhosa romaria, são as cruzes que de espaço a espaço bordam as beiras do caminho, e se levantam tristes e solitárias nas encostas das colinas ou nas quebradas das montanhas.

Nem sempre êstes símbolos de religião e piedade atestam um homicídio ou comemoram um crime; muitas delas são filhas da desventura, que foi ali plantá-las no êrmo como uma esperança consoladora ao viajante perdido, como a oferenda de uma promessa milagrosamente cumprida, ou como um estímulo de alento a quem na senda da vida sente o coração desfalecer-lhe e a crença vacilar.

Quantas vêzes uma cruz, surgindo de repente ante o homem a quem uma ruim tenção domina, terá no meio do deserto feito nascer de súbito o arrependimento antecipado de seu crime e a tremenda perspectiva do remorso que o deve acompanhar, obrigando-o a depor a arma sacrílega e a mudar de seu atroz desígnio!

É poético realmente e tem um não sei quê de solene e triste passar em frente dessas cruzes da solidão, madeiros toscos, abrigados em uma choupana rústica, mas enfeitados com flores e engrinaldados com ramos viventes pela mão de incógnitos peregrinos a quem a religião ou a saudade inspirou!

O caminhante tira religiosamente o chapéu diante dêsses símbolos sagrados, e continua vagarosamente a sua marcha, embedido em refexões, procurando adivinhar na mente qual seria o infortúnio que ali arvorou para memoria aquêle anúncio de consolo e de perdão para uns e de remorso ou de pavor para outros.


É sobretudo neste mês de maio que se costumam enfeitar com flores êstes singelos monumentos de religião; pois é uso no interior fazerem-se romarias noturnas a êstes lugares do descampado, onde o povo vem comemorar a festa da invenção da Santa Cruz.

Cheguei a Silveiras já de noite, e tão cansado me achava, que creio me seria impossível, caso fizesse ainda claro, descrever a primeira impressão que me produziu o aspecto desta vila.

Recomendado por alguns amigos ao Sr. capitão Francisco Félix Castro, bem conhecido pelos importantes serviços prestados ao seu município, devo-lhe não só a bondosa hospitalidade que recebi em sua casa, como a complacência de me acompanhar a visitar a povoação e ministrar-me algumas das informações de que carecia para esta ligeira notícia.

A vila de Silveiras, a quatro léguas de Areias, está edificada em uma e outra margem da estrada geral de S. Paulo. Fica reclinada em uma planície um pouco baixa, o que faz com que se não possa gozar a sua perspectiva senão de qualquer das alturas dos morros que a rodeiam, especialmente da colina onde está edificada a pitoresca capelinha do Patrocínio, e donde oferece realmente uma vista deleitosa e agradável.

A vila tem cento e tantas casas regularmente construídas, e muitas outras cobertas de sapé. Tem algumas ruas e três praças. A primeira é a da Matriz, cujo edifício é de arquitetura pesada e está agora em reparos, pois havia chegado a um estado lamentável de ruína.

O govêrno provincial apenas tem fornecido para os reparos dêste tempo a exígua quantia de 900$000 Rs., excedendo a despesa a mais de 14:000$000 Rs. Os habitantes do lugar solicitam do govêrno geral o adjutório de uma loteria para conclusão da obra, e é de esperar que lhes seja concedida, porque nada parece mais justo e razoável, visto que esta povoação é também uma daquelas que parecem deserdadas da proteção que se lhes deve, pois tem existido até hoje, e medrado, sem quase receber auxílios dos cofres da nação!

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A casa da câmara é um edifício de mau gôsto, de arquitetura singular, e teve uma colocação inconveniente no centro da praça, a que dá o nome, pois a enfeia e quase inutiliza.

Interiormente é melhor e tem um salão vasto e preparado com decência. A cadeia, estabelecida na parte térrea do edifício, é sofrível quanto ao seu arranjo, mas pouco segura.

A terceira praça é adornada por um pequeno, mas singelo e bonito chafariz, que, se tivesse água, prestaria um bom serviço aos habitantes; mas o povo, que fêz à sua custa esta obra, pede ao govêrno que lhe forneça ao menos o encanamento, e não se sabe ainda como será decidida esta pendência.

O município de Silveiras não é rico, mas a maior parte de seus moradores está remediada.

A sua lavoura principal é o café, e exporta por ano, segundo um cálculo muito aproximado, 150.000 arrôbas. Colhe alguma cana, e os seus gêneros alimentícios, que nos anos anteriores chegavam para exportar, neste não chegam para o consumo local!

Existem na vila duas escolas públicas de instrução primária: uma do sexo masculino, freqüentada por vinte e seis alunos, e outra, do sexo feminino, por poucas educandas.

Além destas, há uma escola de instrução secundária, onde estudam dez alunos, alguns dos quais com muito aproveitamento, e é paga pelos cofres provinciais, que lhe fornecem 800$000 Rs., e a municipalidade, que entra com 400$000!

Raro e louvável exemplo de filantropia dado por uma população em favor de sua mociade!

O caráter do povo de Silveiras é ameno, progressista, e o seu espírito de fraternidade é digno de louvor e da estima daqueles que o visitam. Os homens de opiniões contrárias vivem nas mais íntimas relações, e só na urna eleitoral é que existe para êles o campo da dissensão.

Entre as pessoas com quem me relacionei aqui, devo notar o Sr. João Henriques de Azevedo e Almeida, digno juiz municipal de Silveiras, tão apreciável pela sua imparcialidade como autoridade e zelo no serviço público, como pelo sue trato franco e polido; bem como o Sr. José Teixeira Leite de Abreu, inteligente fazendeiro, e outros não menos merecedores de serem recordados.

Travei por esta ocasião amizade com o Sr. Vicente Félix de Castro, moço de modesto e aproveitável talento, cujo nome é já vantajosamente conhecido do público pelos seus romances publicados no Correio da Tarde.

É com prazer que faço menção de nossas relações, e oxalá que êste insignificante tributo do meu aprêço pela sua inteligência seja um incentivo eficaz para o animar na carreira que temeroso, mas com tanta esperança, encetou!

Silveiras possui um teatrinho regular, que é propriedade do Sr. capitão Félix de Castro. É uma das úteis distrações do lugar, e aí representam mensalmente alguns curiosos. O seu guarda-roupa é excelente, e todos os pertences estão em muito boa ordem.

Não deve também deixar de notar-se, entre as obras públicas de Silveiras, o espaçoso cemitério da vila, todo murado em roda e fechado por um grande portão. Oxalá que outras povoações maiores e mais prósperas tivessem um cemitério assim!

O comércio, que até agora tem sido muito ativo nesta localidade, está hoje estacionário por falta de recursos pecuniários, para o que muito tem concorrido a escassez das últimas colheitas de café e a dificuldade de obter-se o meio circulante que anima as transações.

Parti de Silveiras para a fazenda do Sr. Agostinho da Fonseca Rodrigues, que fica na estrada de S. Paulo, duas léguas adiante daquela povoação. Esta fazenda é notável por ser uma das que produzem mais abundantes colheitas de café no município, e por uma linda rua que apresenta ao lado da casa, formada por uma ala de majestosos pinheiros. É realmente uma alameda cuja perspectiva encanta.

O dono desta propriedade teve a bondade de acompanhar-me até à freguesia do Sapé, e mostrar-me a capela e alguns estabelecimentos do lugar, que deve a êste cidadão benemérito grande parte do progresso e desenvolvimento que tem tomado ùltimamente. A nova freguesia tem já bastantes moradores, e é de crer que em poucos anos será mais um núcleo de povoação rica de comércio e lavoura.

Pouco adiante desta freguesia cessam os morros e começa a estrada a desdobrar-se pelo centro de vastas planícies; espero, portanto, que já me será menos penosa a viagem que tenho de fazer daqui a Lorena, e para onde parto amanhã.

Do Livro “Peregrinação pela Província de São Paulo (1860-1861)”, de Augusto Emílio Zaluar.

 
 
 
 
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