Nº 50 | março / abril 2013
Entrevista

José Bueno Conti | Gerson de Freitas Júnior

Entrevista concedida ao geógrafo Gerson de Freitas Júnior, mestre em Geografia Física pela USP.

O Lince – Prof. Conti, o Sr. poderia falar um pouco sobre como eram as aulas e a postura dos professores Aroldo de Azevedo e Aziz Ab'Sáber no Curso de Geografia da USP?

Prof. Conti – O Prof. Aroldo de Azevedo era catedrático (como se dizia à época) de Geografia do Brasil, um professor no estilo tradicional, mas dava as aulas com muita clareza e profundidade de conteúdo. Ministrava também aulas práticas nas quais nos ensinava como fazer “Estudos Dirigidos”, técnica pedagógica hoje meio esquecida e que foram muito úteis nas nossas atividades nas escolas onde iríamos ensinar. O Prof. Aziz era muito mais jovem e assistente do Prof. Aroldo e nós o admirávamos por isso. Sua disciplina era Geomorfologia do Brasil, sabia nos motivar de maneira que aprendíamos os conceitos e os processos geomorfológicos sem dificuldade, fazendo gráficos no quadro negro (ainda não havia computador, nem power point!).

O Lince – De que forma os professores Aroldo de Azevedo e Ab'Sáber se referiam ao Vale do Paraíba e, especificamente, a Lorena e a São Luiz do Paraitinga?

Prof. Conti – O Prof. Aroldo sempre se referia a Lorena de forma muito especial e, em 1946, quando as Assembléias Anuais da AGB passaram a ter um caráter nacional, ele fez questão que Lorena sediasse a reunião. O encontro foi um sucesso. O Prof. Ab’Saber dizia que desde sua infância, em São Luiz do Paraitinga, despertou-lhe a curiosidade sobre os “mares de morros”, que mais tarde iriam servir de base à sua proposta pioneira sobre “Os Domínios Morfoclimáticos do Território Brasileiro”. Falava também sobre a grande escarpa da Serra do Mar que ficava entre São Luiz e Ubatuba.

O Lince – Quais os momentos que mais o marcaram durante sua convivência com os professores Aroldo de Azevedo e Ab'Sáber? Por quê?

Prof. Conti – O Prof. Aroldo foi meu orientador de trabalho de graduação (“Estudo Geográfico da Cidade de Atibaia-SP”) que correspondia ao atual TGI, e aprendi, com ele as bases da Geografia Urbana. Numa das viagens que faria ao sul do Brasil, já formado, tirei um foto de uma rua de Caxias do Sul e o Prof. Aroldo pediu-me para publicá-la num de seus livros didáticos, citando o meu nome. Fiquei feliz. A atuação docente do Prof. Aziz nos empolgava, talvez, em parte por sua juventude e também pelo entusiasmo com que interpretava geograficamente a natureza e suas interações com a sociedade. Continuávamos a conversa mesmo depois da aula terminada.

O Lince – Como era a relação deles com os estudantes, com os outros professores e com os profissionais de outras áreas?

Prof. Conti – O Prof. Aroldo tinha uma relação um pouco distante com os estudantes. Havia certo constrangimento porque ele mantinha uma postura aristocrática (no bom sentido), mas nunca se negava a nos receber em sua sala. O mesmo se passava no seu relacionamento com outros professores e profissionais da área. Todos o respeitavam como um grande mestre. Já o Prof. Ab’Sáber era, digamos, mais democrático, e permitia livre aproximação sem muita cerimônia e nós gostávamos disso.

O Lince – Como eram os “trabalhos de campo” realizados pelos professores Aroldo de Azevedo e Aziz Ab'Sáber?

Prof. Conti – Nunca participei de trabalhos de campo com o Prof. Aroldo, aliás, não me lembro de que ele tenha, algum dia, realizado. Era um professor de sala de aula. O Prof. Aziz, ao contrário, sentia-se muito bem no campo e ficávamos encantados com suas aulas. Vou lhes contar um fato pouco conhecido: quando terminou a Assembléia da AGB em Santa Maria (Rio Grande do Sul, julho de 1958), um grupo de alunos voltou a São Paulo de trem porque naquele tempo o transporte de passageiros por via ferroviária entre São Paulo e Porto Alegre funcionava regularmente. A geração de hoje nem sonha que isso um dia existiu. O percurso durava quatro dias e o Prof. Aziz veio conosco. Imagine o que é atravessar todo o Planalto Meridional, a região das araucárias, das depressões paleozóicas, etc. ao lado do Prof. Aziz que ia interpretando tudo. Deu-nos até uma aula sobre a Guerra do Contestado. Considero o maior privilégio que tive durante meu curso de graduação.

O Lince – De que forma o senhor considera a contribuição das obras dos professores Aroldo de Azevedo e Ab'Sáber para a História do Pensamento Geográfico brasileiro e mundial?

Prof. Conti – Considero que um dos grandes méritos do Prof. Aroldo foram seus excelentes livros didáticos. Começou a publicá-los em 1936, quando ainda era aluno da Faculdade e nunca mais parou até sua morte em 1974. Durante esse tempo seus compêndios praticamente monopolizaram o setor didático sendo adotados em todo o Brasil. Foram vendidos mais de 12 milhões de exemplares, conferindo-lhe uma posição de absoluta primazia nesse importante setor e o seu trabalho aproximou a geografia acadêmica da geografia escolar. Contudo, contribuiu com inúmeros outros trabalhos, como por exemplo, formulou a primeira proposta de classificação do relevo brasileiro, além de pesquisas muito relevantes na área de Geografia Urbana. Por manter estreito relacionamento com as universidades francesas, sua obra era muito conhecida naquele país. O Prof. Ab’Saber, sem demérito a outros estudiosos, foi o maior nome da geomorfologia brasileira de seu tempo, por sua ideias inovadoras sobre os processos presentes na evolução do relevo das regiões tropicais, da fisiologia da paisagem e pelas propostas metodológicas pioneiras. Por isso tudo era reconhecido internacionalmente, especialmente na América Latina. Seu estudo sobre o Sítio Urbano de São Paulo é valiosíssimo e se transformou numa obra antológica. Tanto o Prof. Aroldo quanto o Prof. Aziz tiveram participação ativa no XVIII Congresso Internacional de Geografia, que se realizou no Rio de Janeiro, em 1956, do qual o Guia de Excursão nº 4 (“Vale do Paraíba, Serra da Mantiqueira e Arredores de São Paulo”) foi de autoria de Aziz Ab’Sáber com Nilo Bernardes.

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O Lince – Quais as principais influências dos professores Aroldo de Azevedo e Aziz Ab'Sáber na sua carreira?

Prof. Conti – O Prof. Aroldo teve forte influência na minha carreira, porque além de ter sido meu orientador do trabalho de graduação, estimulou-me a fazer um estágio na França, logo depois de formado. Isso ocorreu na Universidade de Clermont-Ferrand, onde o Prof. Aroldo conhecia o Prof. Max Derruau, a quem me recomendou e que se transformou, lá, em meu orientador de estudos. Permaneci no exterior 15 meses e isso enriqueceu significativamente minha formação. Foi meu inspirador nos livros didáticos que escrevi (poucos). O Prof. Aziz foi meu primeiro orientador da tese de doutorado que analisou a distribuição das chuvas, na Serra da Mantiqueira, Vale do Paraíba, e litoral norte de São Paulo, tema sugerido por ele. Por se tratar de estudo de climatologia, recomendou-me que o concluísse sob orientação do Prof. Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro.

O Lince – Como foi a atuação do Prof. Aroldo de Azevedo na Associação dos Geógrafos Brasileiros - AGB?

Prof. Conti – A atuação do Prof. Aroldo na AGB foi da maior relevância. Basta lembrar que foi um dos fundadores do Boletim Paulista de Geografia e durante o período em que foi seu diretor (1949-1961) fez publicar 39 números da revista, número até hoje não igualado. Assinale-se que era uma época onde não havia o apoio da informática e tudo era muito mais difícil. Essa demonstração de vitalidade do Boletim nunca mais se repetiu e constitui um desafio aos agebeanos atuais. Com todos os computadores e demais recursos ainda não conseguiram igualar o desempenho do Prof. Aroldo. O Prof. Aziz participou de inúmeras Assembleias anuais da AGB, além daquela de Santa Maria, atrás citada e vários de seus artigos mais importantes foram publicados no Boletim Paulista de Geografia.

O Lince – O que a AGB representava para os Geógrafos na época de atuação do Prof. Aroldo de Azevedo?

Prof. Conti – A AGB, fundada em 17 de setembro de 1934, representava na época dos professores objetos desta entrevista a entidade científica principal da geografia brasileira pelo destaque e valor de sua contribuição aos conhecimentos geográficos, pelas inúmeras publicações (Anais das Assembléias Anuais e Boletins Estaduais dos quais o Paulista sempre foi o mais importante) e pela presença marcante entre as entidades cientificas do país. Durante as comemorações do Quarto Centenário da cidade de São Paulo (1954) realizou uma obra em quatro volumes intitulada “A Cidade de São Paulo, estudo de geografia urbana” que, pelo seu valor, recebeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Infelizmente tudo isso iria sofrer uma mudança radical nas reformas realizadas em 1978/79, quando a entidade passou a privilegiar à Geografia Crítica, de inspiração marxista, que desviou a verdadeira Geografia de sua orientação séria e específica tornando-se uma entidade muito mais política e muito menos científica. Essa é minha opinião.

O Lince – O que o legado da vida e da obra dos Profs. Aroldo de Azevedo e Aziz Ab'Sáber pode contribuir para a Geografia de hoje e para o futuro que se desenha para o Brasil?

Prof. Conti – As obras desses dois grandes mestres falam por si mesmas. O Prof. Aroldo fundou o Instituto de Geografia da USP e foi seu diretor de 1963 a 1967. As obras do Prof. Aroldo continuam sendo consultadas, após quase quarenta anos de sua morte, especialmente aquelas com conteúdo de abrangência nacional, tais como “Brasil, a Terra e o Homem” cujo primeiro volume foi publicado em 1964 pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo e o segundo, pela mesma editora, em 1970 e “Geografia do Brasil. Bases Físicas, vida humana e vida econômica”, também editada pela Companhia Editora Nacional, em 1969, e várias vezes reeditada. As obras do Prof. Aziz foram editadas num único volume, acompanhada de um CD pela Editora Beca, de São Paulo, em 2011, com patrocínio da Petrobrás, e aí estão para consulta e desfrute da comunidade estudiosa do país. Pelos anos afora continuarão a demonstrar o que é a Geografia feita de maneira séria e competente, ciência que realiza a análise integrada de duas categorias indissociáveis, o espaço terrestre e a atividade nele operada pela atividade humana ao longo do tempo histórico, enunciado que por si só aponta para a enorme dimensão e alcance de seu conteúdo. A tarefa da Geografia é da maior relevância no universo do conhecimento humano.

José Bueno Conti (Doutor e Livre Docente em Geografia Física pela Universida-de de São Paulo, onde foi Professor Titular, é especialista em Climatologia e fez estudos sobre o Vale do Paraíba. Ex-aluno de Aroldo de Azevedo e de Aziz Nacib Ab´Saber, fala de suas vivências enquanto estudante e da admiração pelo trabalho dos professores com os quais aprendeu parte de seus ofícios de geógrafo e de professor.)

 
 
 
 
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