Nº 50 | março / abril 2013
Entrevista

Profa. Dra. Luiza Lobo | Da Redação

O Lince – No início de seu livro Terras Proibidas: a saga do café no vale do Paraíba do Sul (Rio de Janeiro, Rocco, 2011, 494 p.), à guisa de prefácio, há uma epígrafe da Condessa de Barral dizendo “O Brasil tem um visgo...”. Qual era o visgo do Brasil?

Luiza Lobo – Creio que o maior desejo de todos, no Brasil, desde o fim da colônia, era encontrar alguma marca de desenvolvimento, de diferenciação em relação ao passado. Nem todos encontraram essas marcas aqui, como deve ter sido o caso da condessa de Barral, uma mulher cultíssima, viajada, que foi governanta das filhas de Dom Pedro II, além de sua amiga íntima. Ocorre, em consequência da frustração dessa expectativa, um repúdio ao país, à vida social e cultural daqui. No caso da condessa, diante do patriarcalismo e do atraso cultural resultante de uma realidade atávica própria das ex-colônias, principalmente se confrontadas à Europa, deveria ocorrer uma condenação; aliás, a palavra “visgo” é um tanto pejorativa. No entanto, percebemos que a condessa se encontra dividida na sua opinião sobre o país. Creio que o visgo é a cola que liga os cidadãos a sua pátria, pelo lado sentimental. O Brasil tem o perdão dos brasileiros porque é uma terra quente, na qual “em se plantando tudo dá” – segundo a notícia divulgada por Pero Vaz de Caminha na sua Carta da descoberta, mas que não tem qualquer respaldo na prática agrícola do país. No Brasil os laços familiares e relacionamentos em geral são mais unidos e informais do que nas relações hierárquicas e tradicionais que vigoram no mundo europeu. Nota-se uma relação afetiva com o Brasil semelhante por parte de Maria Graham, também governanta da família real, cujo primoroso diário sobre sua vida no Rio e em Pernambuco eu li, ao escrever este livro.

O Lince – Que razões a fizeram começar o seu livro com a cena da maldição de um escravo?

Luiza Lobo – Essa ideia de maldição na família não foi minha. Tia Laura Maia, a primeira que me estimulou a escrever este livro sobre a nossa família (Teixeira Leite), numa carta que me escreveu, em 1987, sempre relacionou as infelicidades ocorridas na família como possivelmente resultantes da maldição de algum escravo da fazenda (da Cachoeira Grande). Não sei se falava a sério... À medida que eu pesquisava para escrever o livro, fui percebendo que os proprietários de terras e de escravos, os fazendeiros, não eram verdadeiros heróis, pois mantinham seres humanos sob seu poder. Achei que os heróis tinham de ser os oprimidos, os escravos e as mulheres. Com efeito, antes eu planejara escrever um romance feminista, e inseri um pouco desse projeto na escrita definitiva. No entanto, foram os fazendeiros e patriarcas que colonizaram a terra, fundaram as cidades, construíram igrejas e estradas, plantaram café e criaram a primeira linha férrea econômica do Brasil. Por isso, inicio o livro com uma maldição de revolta devido à repressão violenta de um quilombo, de Santa Catarina, na região de Vassouras (1838). E volto à escravidão nos capítulos finais, mostrando que a “libertação” dos escravos desde a década de 1870, em diversas leis que foram se acumulando até 1888, tinha também como objetivo tirar a responsabilidade do Estado sobre os escravos idosos. Relato vários casos da câmara de Vassouras com processos relativos a escravos e a relação da sociedade com eles, sendo a mais emblemática a do preto Rufino (1877). Nota-se que a liberdade lhe é dada para que o governo economize no seu sustento na prisão, onde vive, em Vassouras, na qualidade de incapaz, pois perdeu a memória.
Aliás, o governo mostra até hoje imensa dificuldade em se responsabilizar pelos aposentados. É um país muito sem compromisso com os seus cidadãos, talvez porque a aposentadoria oficial date apenas de Getúlio Vargas. Antes disso eram os patriarcas que mantinham seus agregados e parentes pobres.

O Lince – Podemos dizer que o Barão de Vassouras, seu tetravô materno, é um típico caso de pobre que virou nobre com a riqueza do café? Por quê?

Luiza Lobo – A história dá muitas voltas. Em um século, ricos viram pobres, e novos ricos viram ricos. É por isso que afirmo na epígrafe, metaforicamente, por certo, que do barão de Vassouras só herdei as vassouras... O barão, Francisco José Teixeira Leite, provinha de uma família extremamente abastada, do barão de Itambé, e Francisco Teixeira Leite e de sua mãe, Francisca Leite Ribeiro, que era prima do marido em primeiro grau. Os pais do barão de Itambé tinham recebido datas – minas de ouro – para explorar no rio das Mortes. Os pais de Francisca possuíam imensas sesmarias na mesma região do rio das Mortes. No entanto, as minas de ouro se esgotaram e o barão de Itambé percebeu isso bem antes de outros, transformando uma de suas fazendas em produtora de alimentos para os exploradores do ouro – uma vez que os alimentos vinham do Rio de Janeiro, pelo Caminho Velho, através de Parati. Francisco José também negociava com gado. Então, houve um empobrecimento temporário da família numerosa, em relação aos tempos dourados (literalmente). Mas logo Francisco José, com o irmão mais velho e o tio materno Custódio Leite Ribeiro, o barão de Aiuruoca, construíram a estrada da Polícia, praticamente fundando a vila de Vassouras, ali obtendo sesmarias, e iniciaram o plantio e a venda do café; o tio Custódio Leite Ribeiro construiu também a igreja matriz de Vassouras (seu retrato está lá, no corredor lateral que leva à sacristia); também fundou Barra Mansa (doou terras do bairro Ano Bom, onde estava sua sesmaria, dando início à cidade). Ao casar-se com sua prima materna Maria, Francisco José Teixeira Leite obteve terras onde construiu a fazenda Cachoeira Grande, e em breve construiu um enorme numerário, baseado no comércio, nacional e internacional do café, com casa de venda e empréstimo de café para financiamento das safras, com filial na Corte, fundando, sempre com os irmãos do clã Teixeira Leite, um banco, localizado em quatro cidades, e dominando a política conservadora de Vassouras, através de membros da família no poder, praticamente até a república.
Com seu tirocínio político e tino financeiro, logo tornou-se riquíssimo. Mas a quantidade de filhos, e a viuvez, que o obrigou a lacrar a riqueza por ordem do juiz, por ter muitos filhos menores de idade, impediram a continuação da vida na fazenda. No entanto, sua vida como banqueiro e comerciante, com filial na Corte, e atuação política – junto com todo o clã Teixeira Leite – mostram sua importância na economia do estado do Rio. Isso pode ser demonstrado por sua importância na criação da primeira estrada de ferro com valor econômico – escoação do café do Brasil – quando a região de Vassouras era a primeira exportadora mundial do produto. Só muito mais tarde foi tornado barão de Vassouras, já viúvo e casado com outra prima, Ana Esméria. Dizem que isso não ocorreu antes porque a Corte confundiu seu nome com o do seu pai, barão de Itambé, muito parecido, Francisco Teixeira Leite.

O Lince – De forma resumida, poderia nos dizer o que representou a fazenda Cachoeira Grande durante o ciclo do café fluminense?

Luiza Lobo – Houve fazendas imensas e tradicionais, como a Pau Grande e a Secretário, que começaram no século XVIII, ainda no ciclo do açúcar. A fazenda Cachoeira Grande tinha todos os traços arquitetônicos coloniais brasileiros constantes das casas senhoriais da região cafeeira do Médio Vale do Paraíba do Sul – área social, alcovas, escritório, área íntima, senzala, enfermaria. Isso após a reforma que o barão fez nela, por ocasião do seu casamento, a partir de uma casa de lavrador. Abriu 67 janelas, que depois se transformaram, com a reforma dos Caffareli, em 1987, em 73! Mas não era uma fazenda de enorme porte ou produção de café, apenas 10.000 arrobas anuais, enquanto os Breves, que tinham terras desde a restinga de Marambaia até Mangaratiba, subindo pelas serras de Barra Mansa, produziam 160.000! O grande feito do barão em suas terras foi perceber a escassez de comida que atingiu Vassouras (assim como tinha atingido São João del Rei, na época de seu pai), e produzir alimentos para a cidade, além da comercialização do café em toda a região produtora, levando-o ao porto do Rio de Janeiro e dali até Nova York. Tinha um cadastro de 200 clientes, no Brasil e no exterior. Seu olhar pioneiro também percebeu a necessidade do trem. Com o irmão Joaquim, o mais preparado intelectualmente da família – que se formou financiado pelo barão – criaram o projeto do trem depois chamado Pedro II, mas seus trilhos foram desviados de Vassouras, prejudicando o comércio da região e mergulhando-a em decadência.

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O Lince – Poderíamos dizer que sua opção pelo entrelaçamento da literatura com a história tem o pedagógico como pano de fundo? Qual sua preocupação maior ao escrever romances históricos?

Luiza Lobo – Passei minha vida ensinando, desde os dezessete anos, para não citar aulas particulares, anteriores a esta idade, portanto nunca me senti na obrigação moral de escrever literatura didática ou pedagógica. Publiquei muitos artigos e livros de ensaios, que podem ter servido alguma coisa, no ensino de Letras e para o público interessado em obras literárias. Mas a literatura sempre foi, para mim, um espaço da liberdade criativa. Este romance histórico surgiu realmente desse projeto a longo prazo, retomando histórias ouvidas na infância, principalmente de tia Laura Maia, que já mencionei aqui. Também não posso deixar de mencionar a importância da presença de minha mãe, a historiadora Eulalia Lobo, que sempre se destacou na história, viveu a história, e encarnou a história, em todos os momentos.

O Lince – Que riscos e vantagens há na aproximação entre história e literatura?

Luiza Lobo – Sob a inspiração da Nova História ou história das mentalidades, ou história dos vencidos, que afirma que a história não é uma disciplina científica mas sim uma narrativa como outra qualquer, muitos historiadores e jornalistas começaram a publicar obras sobre fatos da nossa história com interpretações livres e inovadoras. A escola dos Anais, uma revista francesa de 1929 reformulada na década de 1960, permite o uso de fontes orais e grande liberdade interpretativa, o que abre para escritores e leitores uma gama infinita de interpretação histórica, sem uma necessidade de se prender apenas ao que se presume ser o real. A ideia é de que o real só poderá ser descrito por uma interpretação ou narrativa, a partir de um ponto de vista. A maior dificuldade esta interpretação é que os leitores brasileiros ainda não se acostumaram com o romance histórico ou da metaficcionalidade histórica – um termo introduzido na obra de Hayden White, muito divulgada no Brasil, nesta mesma linha. É um público que se forma aos poucos. Atribuo essa falta de hábito à grande oralidade do Brasil, levando ao pouco hábito de leituras mais densas, falta de cultura geral, devido à má qualidade do ensino, tudo isso levando àquele provérbio de que o brasileiro não tem memória. Ora, a memória é escrita. A memória oral só conserva o que foi ouvido em três gerações. Esta é a vantagem dos livros: fixar para o futuro o conhecimento que se tem do passado.
A vantagem do romance que liga literatura e história é contar com um novo tipo de público. Com base na Nova História, tivemos muitos alunos de história fazendo teses na Faculdade de Letras com uso de autores realistas. O pressuposto é que a narrativa de historiadores era já dirigida para um ponto de vista ideológico prévio, enquanto o escritor seria mais isento na descrição de fatos do passado. Autores utilizados foram, por exemplo, Machado de Assis. Ao ser contratado para acompanhar o trabalho da Câmara de Deputados do Rio, redigiu diversos volumes de crônicas que contêm comentários primorosos sobre a política da época e os embates entre conservadores e progressistas. Alguns desses aspectos também estão presentes nos seus romances Brás Cubas, Quincas Borba e Memorial de Aires. Outro autor que reconstituiu um importante momento do início da república através de um relato de guerra jornalístico transformado em obra literária foi Euclides da Cunha, com sua obra prima sobre a revolta de Canudos. A literatura traria uma mimese mais fiel da realidade, embora ficcional, portanto, do que um manual de historiador que deseja provar uma tese ou ideologia, sem conseguir ver o real como ele é – se é que se pode realmente captar a realidade.

O Lince – Há uma teoria da história que conduza suas investigações? Qual?

Luiza Lobo – Creio que já mencionei bastante a Nova História, na pergunta anterior. Mas também utilizei todos os estudos que fiz ao longo da vida sobre feminismo. Minha ideia inicial era escrever um romance feminista. Mas, ao final, fiquei fascinada pelo meio social, o que se tem descoberto sobre a escravidão – inclusive estudando nos arquivos da câmara de Vassouras, incluindo testamentos e relações com os escravos (atualmente estão sendo digitalizados), e terminei por escrever uma história mais ampla, que não deixou de mostrar o aspecto feminista das personagens, e noutros momentos a ausência de feminismo naqueles tempos patriarcais.

O Lince – Em sua opinião, é possível distinguir em seu livro as fronteiras entre o que é fato e o que é ficção? É possível fazer isso de maneira intuitiva? Ou é preciso ter algum conhecimento de história para fazê-lo?

Luiza Lobo – Tudo que é pensamento, diálogo, foi imaginado por mim. Até as cartas entre Dom Pedro II e o chefe da escola maçônica francesa, Gobineau (cap. 11), a quem o imperador muito apreciava, foram lidos por alguns como verdadeiros, mas na realidade foram inventados como paródia, a partir de cartas e dados que eu li a respeito. Já as datas e fatos são pesquisados, baseados em bibliografia e entrevistas, e obedecem aos registros sobre o real. Creio que isso de um modo geral é facilmente percebível pelo leitor.

O Lince – Em sua opinião, que atributos deve ter quem se dispõe a escrever um romance histórico?

Luiza Lobo – Conhecimento do assunto, disciplina para pesquisá-lo e aprofundá-lo, organização e precisão com os dados pesquisados, e ao final capacidade de se desprender dos dados históricos para romanceá-los, criando um enredo.

O Lince – Qual o perfil do seu leitor?

Luiza Lobo – O leitor formado em universidade, culto, que aprecia literatura, não a paraliteratura ou a literatura de ajuda.

O Lince – A pesquisadora Márcia Cavendish Wanderley chama seu livro Terras Proibidas de “Casa Grande & Senzala do Vale do Paraíba”. Você concorda com ela?

Luiza Lobo – É desnecessário dizer quanto fiquei lisonjeada com um elogio tão rasgado a minha obra. Marcia Wanderley (e também o saudoso Jorge Wanderley) foi sempre extremamente receptiva a minha obra. Só gostaria que muito mais pessoas tivessem a mesma opinião! Mas cada escritor tem sua quota de terra no latifúndio literário e o sucesso de grandes nomes dificilmente pode ser repetido. Como disse um amigo com relação à magnificência da obra de Machado de Assis e à inutilidade de se escrever uma única palavra a mais na literatura em língua portuguesa após ele, cabe aos pósteros colocar mais um tijolinho no muro...

O Lince – Há algo que gostaria de dizer e que não te foi perguntado?

Luiza Lobo – Só gostaria de agradecer-lhe por suas inteligentes perguntas e seu interesse por meu livro.

Luiza Lobo é Professora de Teoria Literária e Literatura Comparada do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tradutora, poeta, contista, cronista, e ensaísta, é autora de dezenas de livros e traduções. Em entrevista exclusiva, fala de seu recente romance sobre a saga do café no Vale do Paraíba fluminense e das relações entre Literatura e Histór

 
 
 
 
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