Nº 50 | março / abril 2013
Educação

A Literatura Infantil de Malba Tahan: um caleidoscópio interdisciplinar | Juraci Conceição de Faria

Introdução



O universo literário de Malba Tahan é um verdadeiro caleidoscópio e, como tal, a cada movimento de análise e compreensão de suas obras, uma infinidade de desenhos regulares vão sendo definidos e multiplicados entre os espelhos da trajetória histórica do professor de matemática, escritor e conferencista Júlio César de Mello e Souza (1895-1974). Buscando trazer à luz a interdisciplinaridade presente nas histórias infantis da coleção Malba Tahan Conta Histórias, publicadas pela Editora Brasil-América Ltda em 1968, redirecionamos nosso olhar para uma questão central de nossas pesquisas: em plena década de 60, seria a intenção de Malba Tahan contrapor-se ao momento educacional brasileiro, fortemente marcado pela disciplinaridade, e explorar distintas esferas do saber em suas histórias destinadas ao público infantil? Tendo como fundamento teórico a prática educativa interdisciplinar de Ivani Fazenda, este artigo tem a intenção de apresentar uma breve história da vida do autor, contextualizar a literatura infantil de Malba Tahan, analisar o diálogo interdisciplinar presente nos seis volumes desta coleção (A Girafa Castigada; O Rabi, o Cocheiro e os Anjos de Deus; A Pequenina Luz Azul; Os Sonhos do Lenhador; O Tesouro de Bresa e A História da Onça que queria acordar cedo) e, quem sabe, apresentar algumas considerações para a prática de leitura e escrita das crianças do nosso tempo.


Malba Tahan



Júlio César de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 6 de maio de 1895. Filho de João de Deus e Carolina de Mello e Souza, passou a infância em Queluz, município paulista no Vale do Paraíba, onde seus pais exerceram a carreira do magistério.

Em 1906 retorna ao Rio de Janeiro para prosseguir os estudos, inicialmente no Colégio Militar e, após 1908, no Colégio Pedro II. Neste colégio iniciou sua carreira de escritor (vendia redações para os colegas de classe) e de professor. Ao longo de sua vida, exerceu outras atividades, tendo destacado-se como conferencista, jornalista e defensor da causa dos hansenianos.

Desde menino, adotava o uso de pseudônimos em seus escritos: Salomão IV, na Revista ERRE; R. S. Slady, nos artigos de jornais e, finalmente, Malba Tahan para suas obras literárias. Só assinava seu nome verdadeiro nos livros relacionados ao ensino de matemática.

Em 1954, por um decreto especial ao Ministério da Justiça, Getúlio Vargas autorizou a presença do pseudônimo Malba Tahan na sua carteira de identidade. Desde então, assume o falso nome em todas as suas obras.

Autor de mais de uma centena de obras, Malba Tahan divulgou a cultura oriental no Brasil e na América do Sul, defendeu a matemática do algebrismo, que imperava no ensino desta disciplina em sua época, propôs o diálogo desta ciência com outras áreas do saber, especialmente a Literatura (Faria, 2004).

O Homem que Calculava é, sem dúvida, sua obra-prima. Lançado em 1938, ganhou o 1º Concurso de Contos e Novelas da Academia Brasileira de Letras e, como profetizou Monteiro Lobato em carta ao autor : “obra que ficará a salvo das vassouradas do Tempo como a maior expressão do binômio ciência + imaginação”. No Brasil, é editado pela Record e encontra-se na 75ª edição. No exterior, foi traduzido e publicado em mais de cinqüenta países.

Júlio César de Mello e Souza Malba Tahan faleceu em 1974, aos 79 anos , ministrando dois cursos a professores da Rede Municipal do Recife: “A Arte de Ler e Contar Histórias” e “Jogos e Brincadeiras no Ensino de Matemática”.

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A Literatura Infantil de Malba Tahan



Na obra A Arte de Ler e Contar Histórias, Malba Tahan destaca que a história Infantil não resulta de trabalho elaborado por crianças, mas fruto de inteligência já cultivada e amadurecida, de quem conhece, por estudo ou intuição, as qualidades ou requisitos que devemos encontrar numa narrativa destinada a crianças. Fruto de sua prática educativa no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, esta obra de cunho didático apresenta aos professores sugestões de histórias para serem lidas, contadas e musicadas .

Do ponto de vista pedagógico, temos nesta obra um exemplo admirável: nela Malba Tahan, ao mesmo tempo que elucida conceitos e teorias sobre a história infantil, apresenta orientações fundamentadas em sua experiência de contador de histórias, em domínio de auditório e em técnicas de contação de histórias. Aponta que “a finalidade precípua da história Infantil é divertir a criança, estimulando-lhe a imaginação e a inteligência” (Tahan, 1964: 69) e que o professor, ao escolher uma história para ser lida, contada ou musicada em sala de aula, não pode esquecer de buscar atingir os objetivos da história infantil: educar, instruir, preparar a criança para uma certa atividade, desviá-la de uma corrente má de pensamentos, confortar a criança (caso da criança enferma), torná-la otimista para a vida, atender ao psiquismo infantil, atrair a criança para um ambiente sadio (biblioteca, sala de leitura, etc.) e ocupação agradável para as horas de lazer. Enfatiza ainda que “a história, bem escolhida e bem orientada, pode servir como viga-mestra na grande obra educacional” (Tahan, 1964: 15).

As seis histórias que compõem a coleção Malba Tahan Conta Histórias , ilustrada por Eliardo França e publicada pela Editora Brasil-América em 1968, têm um valor inestimável e, mesmo algumas décadas após sua primeira edição, abre, para quem quiser perspectivas fecundas, não só para a prática de leitura e escrita das crianças do nosso tempo, mas principalmente para as questões de pluralidade cultural e ética que atualmente permeiam o âmbito das escolas: “em todos os recantos do mundo civilizado, os contos e as fábulas foram empregados no ensino de Ética; são formas populares, condensadas, da sabedoria popular” (Tahan, 1964: 19).

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Juraci Conceição de Faria é Doutora em Educação Matemática pela UNICAMP e do Instituto de Estudos Malba Tahan.

 
 
 
 
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