Nº 45 | maio / junho 2012
Republicando

Caicaco | Valdomiro Silveira

Ao receber a patente de capitão da guarda nacional, o José Lopes, chefe dos conservadores em Queluz, teve que fazer uma senhora festa: houve três dias e três noites de divertimentos, carreiras e cavalhadas, bailes e bate-pés, mesa sempre posta para quem lhe quisesse chegar, pinga a fartar e vinho branco com fartura. Os próprios contrários andavam dizendo à boca che’a:
– Home’, o diabo é ruim e miudinho, mas porém a pagodeira é grandona e boa!
Passados aqueles três dias e aquelas três noites, a fazenda aquietou-se, toda virgem outra vez com a rica florada dos cafezais, as mandaçaias e os guaripus deram de trabalhar para a feitura do mel, as taçuíras arrastaram para o formigue’ro o bandão de aleluias que haviam caído com a última chuva, e a voz macia do sabiá-gute principiou a romper da copa das árvores mais ramalhudas.
Dia-a-dia, entretanto, batiam à porta do capitão amigos mais distantes, correl’gionários do peito que não tinham sabido do caso a tempo, sitiantes e chacreiros que se arredavam dos pagodes por falta de roupa de missa, empreiteiros que estiveram às voltas com as suas barafundas, vários filhos de Adão que só possuíam de seu nome de batismo e um diploma de eleitor.
Aproximava-se o tempo da qualif’cação. O José Lopes, mais ardoroso depois da patente, com promessas de uma subida de posto na primeira vaga ou numa reforma provável, botou as manguinhas de fora, desfazendo dificuldades para os pobres, justando um professor para ensinar a ler por cima aos mais atrasados, criando rendas impossíveis àqueles que não tinham eira, nem beira, nem ramo de figueira.
Na fúria de formar um grosso eleitorado, chegou a amansar o Ernestinho, gente e criatura dos Oliveiras, que eram a farrapada mais temível de todo o termo. Arranjou-lhe a justificação de idade, mandou-lhe dar os últimos repassos na escrita, e por derradeiro, como ele fosse um calça-fecho acabado, um vagabundo de chapa, que não sabia onde cair morto, passou-lhe em confiança um crédito de três contos, ao juro louco de dois por cento mensais: e o Ernestinho, por essa maneira, pôde provar a renda necessária, como queria e determinava a lei do liberal da Pojuca...
Avisos e conselhos não faltaram ao José Lopes: que era temeridade fiar-se nas prosas dum tranca, sujeito sem qualidades e meio judeu-errante; que o tal meninote, além de muito matinada, era Oliveira sem liga, dos pés à raiz dos cabelos; que, embora vivesse apartado dos outros, em razão de seu próprios descaminho, o bom filho à casa torna, e nûa mão de aperto ele pularia com os seus, como os cabritos atrás da cabra.
Mas José Lopes era um manata cabeçudo: entendeu de fazer mais aquele eleitor, e fez. E nas primeiras eleições, pouco depois, como o Ernestinho batesse chapa firme e lhe não saísse dos lados, olhava para os mal-agoureiros, muito ancho, muito ganjento:
– Antão? O Oliveira saiu dereito ou não saiu? – P’ra vocês tombém tudo agora é diabo, não hai mais um santo p’ra remédio.
Meio amarelos, meio murchos, ainda os outros lhe responderam que um dia não são dias, e que esperasse pela pancada. Mas os cascudos ganharam por longe, fizeram suas manifestações a três por dois, festejaram ruidosamente a vitória na casa do José Lopes, que era a própria casa-do-boi, e ninguém pensou mais naquilo. Que era difícil pensar noutra coisa, estando num viveiro como ele fazia, ouvindo os cantadores de mais fama, tendo o sumo da cana a toda hora, carname num despropósito, comedorias a valer...
Ora, meses depois, a lei da abolição veio dar um xeque-mate ao José Lopes.
Forrou-lhe perto de duzentas cabeças, que não quiseram nem ouvir falar mais em trato de café, sumiram p’r o mundo, e os cafezais ficaram logo urrando no mato. A fazenda foi deperecendo num baque, e tornou-se preciso levantar um empréstimo, hipotecá-la por inteiro a um capitalista lá de baixo. Mas, obtido o empréstimo, escassearam os trabalhadores, que eram pagos a peso de dinheiro e não queriam aparecer. E a primeira safra, nos cafezais cansados e maltratados, serviu de tapar os juros mal e mal.
Certo dia, estando o José Lopes a cavalo na janela do terreiro, aborrecido e nervoso, apeou-se ao pé da porteira um meirinho, cheio de atenções e tremuras, e leu-lhe um mandado de cobrança, requerido pelo Ernestinho, com tantas coisas difíceis pelo meio, que o fazendeiro só ouviu bem o principal, as custas e os juros da mora. Franziu a testa, raivosamente. Mas logo caiu em si:
– ‘tá bom, seo oficial, vancê não tem nada c’o mais: tire uma cópia desse papel, que eu quero defender os meus dereitos. Entre, assente, dessareie o macho, que a casa é sua. Quer matar o bicho?

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O meirinho não quis matar o bicho, nem nada. Fez-lhe pena o fazendeiro. Montou o cavalo, prometeu mandar a contrafé pelo primeiro portador, e afastou-se. E o José Lopez, como tivesse passado uma nuvem preta sobre o sol, já esteve mais que aborrecido e nervoso, completamente aflito. Recolheu-se, pensou no caso:
– Mas será possive’ que um papel daquele tenha valia na justiça? Qual! O meu dereito é tão certo, que inté nem não sóco um devogado no patife. Pois se a questã é ganha de tudo! Pois se a questã é crara como a luz do dia!
Não se defendeu, encafuou-se em casa, até que um dia foi intimado para pagar os três contos, as custas e os juros em vinte e quatro horas, ou nomear bens à penhora. Chegou a rir-se amarguradamente:
– Pagar nas vinte e quatro horas uma coisa que eu não devo, que eu não comi nem não bebi, que eu passei de confiança p‘r’um inleitor ingrato e ladrão? Só seu eu não tivesse mesmo miolo! E indas que tudo fosse lisinho e muito bom: como é que eu havéra de alumiar bens p’ra penhora, se tudo que vancê ‘tá vendo aí pertence, a bem dizer, p’r’o meu hipotecário?
Entretanto, a penhora fez-se, os bens foram à praça e arrematados, brigaram seu tanto ou quanto o dono do crédito e o dono da hipoteca, e afinal o José Lopes ficou duma vez nas embiras, sem um palmo de chão. Quando saiu da fazenda para o sítio de um parente, num matungo de empréstimo, falou sozinho consigo:
– Agora ‘tou olhando p’r’a lua... Não tenho nem isto de meu. Os amigos, que me arrodeavam tuda hora, sumiro’ que nem bando de coatis escorraçados. A gente do meu partido nem olha mais p’r’a minha banda, porque p’r’um caicaco, como eu, que foi tudo e não é nada, só outro caicaco mesmo é que pode olhar com bons olhos.
Bateu com o relho na bardana:
– E eu já tive cada caçambeiro de se lhe tirar o chapéu!
Deu um chascão ao freio, o matungo estacou:
– O melhor, no fim das contas, quando se ‘tá neste auto, é nem amostrar mais a cara numa terra ingrata ansim! Eu tóro daqui p’r’essas morrarias da outra província, negoceio em cachaça e em fumo, giro a minha vida suzinho (que eu já ‘tou mesmo suzinho no mundo há tanto tempo!), e ninguém não se importa comigo, nem não sabe notícia de mim.
Torceu, de feito, as rédeas e foi subindo o morro. Quando chegou no alto, fez parar o cavalo, cruzou as pernas nos arreios e ficou longo tempo a olhar a cidade, e a fita do Paraíba, e os verdes angolais, e a palha amarela das sócas da cana. Tremiam-lhe os olhos. Mas não chorou; sacou dos coldres uma garrucha, pôs-se de jeito no animal, estribou firme, e voltou-a para o ar, numa salva de despedida:
– Adeus, Queluz ingrata!
Mas a escorva da salva quebrou-se toda, uma casquinha cravou-se-lhe num dos olhos, e ele caiu pesadamente ao chão, desacordado, enquanto o cavalo procurava, com sossego, uma touceira verde de erva-de-formigueiro.

E fo’ assim que o José Lopes, triste e desesperado com a terra que lhe tinha sido madastra das piores, voltou, do alto do morro, a cuidar um pouco da vida na mesma terra em que a vida só lhe estava sendo tortura e saudade...

Valdomiro Silveira, do livro Nas Serras e nas Furnas...

 
 
Valle e Azen Sociedade de Advogados Escritório Contábil Dico
 
 
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