Nº 45 | maio / junho 2012
Republicando

Perto do fogo | Valdomiro Silveira

– Você já caçou peixe com cachorro?
Como a noite fosse fria, depois de um teimoso peneirar de bruéga pela tarde inteira, rodeavam todos os fogo, atiçando-o de vez em vez e com as mãos abertas voltadas para ele. Ouvindo a pergunta do Rufino, assim à queima-roupa, o Simão apertou o cigarro entre os dentes, abriu de súbito os lábios, rasgou uma risada seca, e fechou-se sem outra resposta.
A parceirada não tirava os olhos de cima do Rufino, esperando por alguma: e o Rufino, muito sério, quase estomagado, passando a mão pela barba rala, repetiu a pergunta. O Simão fechou um dos olhos, aborrecido da pergunta ou da fumaça:
– Ora suma! Vá cantar noutra freguesia!
O outro, contudo, fitava nele o grande olhar indagador e um tanto irritado:
– Não caçou, antão? Nem viu dizer?
O Simão era homem de respeito: não gostava de prosa à toa, nem de zombarias fora de tempo:
– Olhe, seo Rufo, que eu não sou nem um pau de amarrar égua!
O Rufino tomou o pião na unha:
– Hã! Você cuida antão que é mais verdadeiro que os outros, e mais assentado? Pois eu não sou contador de parola, nho Simão!
Interveio na demanda quem podia intervir:
Isso tudo vale tanto como farelo: bamos a ver como é que você deslinda a coisa, seo Rufo!
O Rufino amaciou o semblante e assossegou a voz:
– Só o que eu não quero é que duvidem da minha palavra. Diz que não hai quem pregue mais que caçador, não é? Mas contanto que eu, indas que seja um caçador endemoninhado, não queimo campo nem por brinquedo.
“Vocês tudos sabem que eu afundei p’r’ esses centros de Guaiais, que fui um sertanista couro-n’água, tocador de boaiadas e de tropas, e vaqueano desses estradões de meu Deus. E não sabem nem a quarta parte dos apuros que eu passei!
“Um dia, verbi-grácia, cheguei c’uma ponta de gadinho pesado na beira do Meia-Ponte (aquilo chama ribeirão, mas porém é largo ver o Turvo), cheguei no Meia-Ponte e vi logo que não havia passage’: as águas tinham remontado e trepado p’r’arriba das linhas da ponte.
“Eu era o capataz da boiada, vi meus camaradas murchos de repente, não me dei por achado: falei que água é água e Deus é Deus, botei-me a nado p’r ali a fora, levando na cacunda, de mais a mais, os home’s que ‘tavam parados, e despois empurrei um araçá, que foi varando, e o resto da boizama logo atrás...”
Houve uma interrupção:
– Você ‘tá mas é enchendo lingüiça. Deixemo’ de volta e de meia volta: agora a caçada do peixe é que voga, não é reponta de rio nem varação de gado!
O Rufino pegou num tição de guaraiúva, ateou o fumo do pito, encostou-lhe a unha do dedo grande:
– É que eu, quando me alembro daqueles tremedais e daqueles cordões de serra, a mó’ que não sou mais senhor de si!
“Ora pois: certa vez, o dia já tinha rompido a alvorada, e eu e minha gente saímos p’r’um espigão macota, numa caçada de trato antigo. Minha cachorrada era daquelas que não esfrega’ calcanhar: assim que bambeemos cada trela no fundo duma sofralda, saiu tuda empaçocada, num embrulho, c’uma disposição dos trezentos.
“Que foi um sôlte bonito, isso foi mesmo! O Trumenta, que era um rajadão sacudido, roncou cheirando as moitas da beirada do caminho, e suspendeu; a Batuíra, uma vermelhinha desabot’nada, deu seus guinchos de arrelia, e sumiu; o Vinagre (eu penso no Vinagre, e inté me vem um fernesim de chorar!) rebolou-se na folharada seca, e abriu; o Barão, que tinha uma bandeira deste tamanho, sacudiu a bandeira com entusiasmo, e fez sertão: o resto dos veadeiros, miuçalha, é verdade, mas porém já bem inclinada e calorosa, derreteu-se também.

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“A minha buzina velha chorou naqueles ermos; a minha goela ficou seca, de tanto grito de estumação; o meu pangaré suou em bica, de andar comigo por trilhos e por fora de trilhos: e eu disse firme p’r’a companheirada que o quebrar argum mateiro era coisa certa e recerta.
“Paremos horas e horas, cada qual em sua espera: só eu é que mexia p’r um lado e p’r outro. O sol esquentou, ficou p’r o meio do céu, e nem notícia dos cachorros: eu cheguei a apear do cavalo, a grudar o ouvido no chão, e não escuitava o mais pequeno ganhido. E esta, padre?
“Comemo’ o virado, toquei a buzina com tudo o talento, virei o mato daquela sofralda, qual cachorro nem meio cachorro! Por fim das contas, um pouco passado p’r amór de um fiasco ansim (quando eu tinha posto os meus veadeiros na cacunda da lua), tratei de remontar o espigão e dar fé, ‘o menos, do que acontecia ou não acontecia.
“Pois não lhes digo nada! Dobrei o assente do espigão, já muito enfezado e, ansim que dobrei, ‘vi logo um grito grosso, bem longe, bem apagado. Falei logo consigo mesmo: ê! Rufo, temo’ argum cambucica enredeiro, que o Trumenta, quando acoa, é jogo certo! não truca de falso! Enveredei p’r rumo do som, fui logo divulgando a voz dos outros cachorros, que era mesmo mais franzina, dei minhas carreiras no meio duma cipoada tirana, arrebentei num limpo, a par dum furado estreito.
“Ué! – foi o que eu pensei naquela horinha – quer ver que minha cachorrada levou quebrante e ficou tonta? O que é que ela há de ‘tar acuando neste craro, santo Deus? E senti que o sangue me subia p’r cara acima, de avexado que me vi...
“Mas porém cheguei p’ra perto do ramo da cachorrada. Ah! meus filhos! Vocês nunca não viram coisa daquele feitio! C’a vazante do rio, um canal pedrento tinha secado quaji por em cheio, a boca tinha tapado, a capituva apontou outra vez de banda a banda, e na rasoura, entre duas pedras, pretejava o lombo de um jaú de sete palmos.
“O Trumenta dava umas avançadas inté pertico do peixe, arrecuava, tornava a querer cangotear ele, falava feio: e tudo quanto era veadeiro, erado e novo, fazia o mesmo. O jaú rabejava na miserinha d’água e, p’ra dizer uma verdade esquisita, mas porém verdade, fungava que nem peba com tosse.
“Afastei a cachorrada, fiz o meu ponto, com tudo o sossego, barreei de chumbo grosso a cabeçona do jaú: a miserinha d’água rebojou de repente, ficou uma pura lama, depois um puro sangue, depois amansou e serenou de tudo. Torei uma forquilha de guaiabeira, limpei a forquilha, ponhei a forquilha na guerra do peixe, puxei...
“Agora, nho Simão: você que sabe gramática e também filosofia, me diga se o peixe foi ou não foi caçado a poder de cachorro?
Um rápido rumor passou pelas taquaruvas, que estralaram; aquietou-se e apareceu outra vez: e começaram a fazer tamanha matinada, por ali além, os quijaras sem sono e andejos, que o rápido rumor, cada vez que voltava, parecia uma vaia.
 
 
 
 
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