Nº 48 | novembro / dezembro 2012
Retrato

Fêgo Camargo, o maestro do cinema mudo | Conceição Fenille Molinaro

Estou escrevendo um livro sobre Fêgo Camargo, com a colaboração da jornalista Cláudia Mello, da TV Cidade.

Não é tarefa fácil contar a vida e obra de um homem que dedicou toda sua vida à música. Segesfredo, cujo apelido era Fêgo, construiu uma sólida carreira que o transformou num dos grandes expoentes da música brasileira. Pai da cantora e apresentadora Hebe Camargo, sua figura marcante, suas composições e o seu talento ainda estão vivos na memória de todos. Neste texto, compartilho, com os leitores, parte de uma história que tanto nos tem encantado.

Nascido em 1888, em uma família de musicistas, tocava com os irmãos Arthur, Pedrinho e Waldomiro.

Seu pai, Francisco Camargo, conhecido como Chiquinho Camargo, era maestro da Corporação Musical João do Carmo, mais conhecida como Banda dos Paraguaios. Casado com Dona Esther Magalhães Camargo, teve os filhos: Fêgo, Estela, Hebe, Maria Aparecida, Paulo e Lourdes.

Nas décadas de 1920 e 30, Fêgo Camargo era uma das grandes expressões da música taubateana. Ele, seus irmãos e outros músicos abrilhantavam bailes, festas e principalmente os cinemas de Taubaté. Nesse período, o teatro e o cinema eram as grandes atrações da cidade. Como o filme era mudo, sempre havia uma orquestra acompanhando a projeção. Em Taubaté, Fêgo Camargo integrou a Orquestra do Cine Odeon e, posteriormente, a do Cine Teatro Polytheama, hoje Metrópole, acompanhando as películas do cinema.

Para a redação do livro, ouvimos muitas pessoas ligadas ao maestro. Através da saudosa pianista Geny Marcondes, amiga do Fêgo, soubemos que ele iniciou sua carreira como trompetista. Segundo ela, no ano de 1970 entrevistou Fêgo Camargo para um Jornal do Rio de Janeiro. Descrevo um dos trechos da sua entrevista:

– Com quem você estudou violino e harmonia, Fêgo?

– Olhe, nunca falo disso a ninguém. Sempre evitei tocar no assunto: poderiam pensar que estava querendo passar por muito inteligente, sei lá...

O certo é que eu nunca estudei violino; era trompetista de uma orquestra, mas o violino me fascinava. Nas horas vagas, entre um ensaio e outro, pegava o violino de um colega e experimentava o som. Isso numa orquestra em Santos. Um dia faltou o violinista de um conjunto, no Guarujá. Era urgente um substituto. Alguém se lembrou de que eu vivia a tocar violino. Chamaram-me e lá fui eu com a cara e a coragem. O maestro, italiano, me ouviu e teve uma reação engraçada: “Esse aí num toca nada, também não atrapalha. Pode ficar!” Graças a esse homem inteligente ou destituído de senso. Lá fiquei. Progredi tanto que seis meses depois o violinista titular da Orquestra de Santos quase desmaiou; quando deu comigo tocando sozinho, de pé, numa casa de chá muito elegante da cidade. Ouviu e acabou me dando parabéns. Acabei por ser violinista da Orquestra Sinfônica. Nunca mais peguei no trombone. Harmonia fui aprendendo de ler partituras e escrever”.


Esta entrevista também foi publicada no jornal a Voz do Vale do Paraíba, em 25 de maio de 1970.

D. Geny Marcondes, que acompanhava Fêgo Camargo, conta que conhecia de cor todas as músicas que ele tocava. Pois acompanhava o maestro em concertos nas igrejas, festas beneficentes, saraus etc...

Homem moderno para os padrões da época, Fêgo sucumbiu ao ritmo ágil e à musicalidade do Teatro de Revista. Em 1928, com texto de Sérgio Galicho e composições próprias, montou a Revista “Ai de Mim” . A primeira cena da Revista foi escrita pela pianista Geny Marcondes em parceria com o maestro. A estreia da peça foi no Teatro Polytheama. Posteriormente, apresentou-se no Cine Odeon e na cidade de Caçapava.

Neste mesmo ano, Fêgo Camargo participou do Festival organizado em homenagem a Santa Terezinha, e compôs com Gentil Camargo o Hino à Santa Terezinha, até hoje executado.

A participação na vida da sociedade taubateana era tão intensa, que no ano de 1929, ele fez parte da Comissão de Carnaval e compôs com Gentil Camargo várias marchinhas de sucesso: Maria, Taubaté tem Visgo e Pinhão Cozido.

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Em 1929, com o advento do cinema falado, foi lecionar música na Escola Normal Livre Municipal de Taubaté. Lecionou, durante vários anos, música e solfejo, e regeu “O Orfeon”, um dos mais afamados corais do interior do Estado de São Paulo. O coral recebeu muitos elogios do maestro e compositor Villa-Lobos, quando este visitou a cidade em 1931. Ainda em 1931, a Orquestra Odeon, sob a regência do maestro Fêgo, inaugurou a primeira emissora de Rádio do Vale do Paraíba, a PRD-3 – Rádio Bandeirante de Taubaté.

Fêgo Camargo foi um dos fundadores do “Ginásio do Estado”, hoje E.E. Monteiro Lobato. Segundo D. Geny Marcondes, durante os trâmites para o reconhecimento do ginásio, os professores, entre eles Fêgo, trabalharam pelo período de dois anos sem vencimentos com a promessa de que seriam efetivados assim que saísse a oficialização. Ocorreu que quando o ginásio foi oficializado, organizaram o corpo docente e dispensaram Fêgo Camargo. No seu lugar assumiu o maestro Souza Lima. Uns dizem que ele não pode ser contratado por ser autodidata e não possuir diploma, outros por questões políticas, enfim...

“Fêgo sentiu-se humilhado. Para a família foi um desastre, pois ele era o único que tinha emprego fixo, ou melhor, esperança em assumir o cargo de professor de música do Ginásio do Estado”, disse Geny Marcondes

Segundo a pianista, o acontecimento foi um escândalo, pois todos amavam Fêgo Camargo. Mesmo aqueles que julgaram a decisão uma injustiça, não lutaram o suficiente pela permanência do maestro como professor de música do Ginásio do Estado.

A família, em 1943, foi para São Paulo. Fêgo Camargo ingressou na Orquestra da Rádio Difusora Paulista e fez muito sucesso executando músicas do passado.

Na Rádio Tupi de São Paulo, foi primeiro violino da Orquestra que tocava no programa “Brigada da Alegria”. Essa orquestra, para felicidade do Fêgo, esteve em Taubaté apresentando o programa no Cine Palas. Quem assistiu disse ter percebido a emoção de Fêgo ao tocar novamente na sua cidade.

Mesmo morando em São Paulo, Fêgo nunca deixou de frequentar Taubaté.

Ele sempre participava da Semana Monteiro Lobato. Em abril de 1970, com 82 anos de idade, esteve em mais uma comemoração da Semana no Taubaté Country Club. Na ocasião, tocou no violino várias músicas e emocionou-se ao ouvir o público cantando suas inesquecíveis composições.

Faleceu no dia 7 de outubro de1971, aos 83 anos de idade, no Hospital São Camilo, em São Paulo.

Em 19 de novembro de 1971, o Prefeito Guido Miné aprovou o Decreto 2.371, que deu a denominação de “Maestro Fêgo Camargo” à Escola de Artes de Taubaté.

FONTES:
Arquivo Histórico Municipal de Taubaté - Colaboração: Lia Carolina.
Depoimento: D. Geny Marcondes.
Foto: Acervo Museu da Imagem e do Som de Taubaté.

Conceição Fenille Molinaro é integrante da Academia Taubateana de Letras, da Academia de Letras de Lorena e do Instituto de Estudos Valeparaibanos

 
 
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