Nº 48 | novembro / dezembro 2012
Meio Ambiente

História e natureza da Floresta Nacional de Lorena
maior e mais diversificada floresta da planície do Vale do Paraíba Paulista | Miguel von Behr

Entre a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira, a Floresta Nacional de Lorena, de 250 ha, está exatamente entre as duas maiores cidades brasileiras, à 15 minutos do centro de Lorena e 5 minutos da rodovia mais movimentada do Brasil, a Via Dutra e do lado da BR 459, uma das principais rodovias que dá acesso ao sul de Minas Gerais. Portanto, estrategicamente bem localizada.

Essa unidade de conservação federal, criada em 2001, têm por objetivo promover o manejo adequado dos recursos naturais, garantir a proteção dos recursos hídricos, das belezas cênicas e dos sítios históricos e arqueológicos, fomentar o desenvolvimento da pesquisa científica e aplicada, da educação ambiental e das atividades de recreação, lazer e turismo.

É gerida por um Conselho Consultivo formado por 22 representantes do poder público e da sociedade civil. Integra o Conselho Municipal do Meio Ambiente - COMMAM, o Conselho do Mosaico das Unidades de Conservação da Serra da Mantiqueira, o Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Cultural de Lorena e a Fundação Olga de Sá.

Um pouco de história: até 1934 funcionou no local o Campo de Sementes, conhecido como Sementeira, pois desde aquela época já havia a preocupação com a recuperação das áreas degradadas do Vale por meio de reflorestamento. Nesse período a área, onde é atualmente a Flona de Lorena, foi reflorestada com centenas de espécies, pois não existia mais vegetação. Naquele ano foi criado pelo Ministério da Agricultura, o Horto Florestal de Lorena. Durante o início da década de 1930 até 1950 funcionou também no local o Aero Clube de Lorena e até 1973 o aeródromo da cidade. Devido à localização estratégica de Lorena, entre São Paulo e Rio de Janeiro, a cidade era frequentemente visitada pelo presidente Getúlio Vargas durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Atualmente em ruínas, uma densa floresta tomou conta do local. Sempre produzindo mudas de espécies nativas e exóticas, a partir de 1974, o Horto foi transformado em Estação Experimental Florestal, anos depois denominado Estação Florestal Experimental Dr. Epitácio Santiago, em homenagem ao administrador do Horto que promoveu todo o reflorestamento da área entre 1930 e 1960. Em 1991 começou a funcionar no local o Escritório Regional do Ibama no Vale do Paraíba. Dez anos depois foi criada a Floresta Nacional de Lorena, que desde 2007 é administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e responsável pelas 312 unidades de conservação federais no Brasil.

A FLONA de Lorena, apesar de cercada em parte pela cidade de Lorena e por áreas de pecuária e plantações de arroz irrigado, ainda é conhecida pela população local como o "Horto Florestal de Lorena" sendo lembrada com saudosismo, principalmente pelos mais idosos. É recorrente o depoimento de cidadãos Lorenenses que reforçam a noção de pertencimento e referencia familiar sobre a FLONA de Lorena, tais como: “os melhores anos da minha infância foram vivenciados nos bosques do Horto Florestal”; “aprendi a amar as árvores, durante o plantio de comemorações do Dia da Árvore no Horto”, “estudei na Escola do Horto Florestal!”; “ainda existe a árvore que eu plantei quando criança”; “meu pai trabalhou no Horto”; “minha avó foi professora na Escola do Horto”; “Aquele local é maravilhoso, pena que está abandonado. – É preciso resgatar o valor do Horto Florestal para Lorena!”

O reflorestamento que começou em meados da década de 1930 e resultou simplesmente na maior concentração e mais diversificada vegetação existente na devastada planície do Vale do Paraíba Paulista. Inserida no bioma Mata Atlântica, declarada como Reserva da Biosfera pela UNESCO – um privilégio para o castigado Vale do Paraíba -a FLONA de Lorena, representa um banco genético de fauna e principalmente um reservatório de espécies arbóreas da Mata Atlântica e representantes de vegetação de outros biomas brasileiros e estrangeiros que continuam produzindo sementes.

Pelo fato da floresta ter sido utilizada somente para produção de sementes, a área foi enriquecendo-se naturalmente com formação de sub-bosques bem desenvolvidos de espécies nativas, que teve um processo de disseminação bastante influenciado pela fauna.

Principais formações vegetais: talhões de eucaliptos e pinus com espécies florestais nativas da Mata Atlântica que se formaram no sub-bosque; várzeas preservadas e degradadas com antigas plantações de arroz, que são áreas alagadas por rios ricos em sedimentos e nutrientes altamente produtivos do ponto de vista biológico. Ocorre na Flona também vegetação em processo avançado de regeneração, principalmente ao redor de um lago natural, que a exemplo dos sub bosques, também se expandiram através da disseminação de sementes pela fauna(roedores e aves).

Até o momento, foram levantadas na Flona 19 espécies da flora brasileira em diferentes graus de extinção, entre elas o palmito juçara, o xaxim, o jacarandá-da-bahia e o pau-brasil. Isso demonstra a importância desta unidade de conservação para a flora do Vale do Paraíba.

Algumas das espécies florestais que ocorrem na Flona de Lorena são carrapeta, ingá branco e amarelo, ipê verde, ipê tabaco, cassia manduirana, quaresmeira, canafístula, jacatirão, pau-viola, maricá, canudo-de-pito, marianeira, jurubeba, sendo que estas últimas cinco ocorrem nas várzeas, ecossistemas extremamente ricos.

A proteção desse mosaico de vegetação possibilita a sobrevivência de diversas espécies da fauna. Somente de aves, são 103 espécies como as marrecas irerê e a pé-vermelha, além da saracura-sanã, jaçanã e do martim-pescador-grande. Também ocorrem mamíferos como cotia, saguis-de-tufo-preto, tatus, gambás, preás, preguiça-de-três-dedos, cachorro do mato, capivara, lobo-guará (ameaçado de extinção), catetos e várias espécies de morcegos.

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Apesar da relativa infraestrutura e das casas abandonadas de funcionários construídos na década de 1930/40, que foram se aposentando e não substituídos, a FLONA recebe anualmente cerca de 3 mil visitantes. Em 2011 recebeu a visita de centenas de alunos da rede de ensino dos municípios da região. Dezenas de instituições, em especial escolas e entidades sem fins lucrativos, recebem gratuitamente mudas para eventos de educação ambiental. É considerada por muitos como local ideal para pesquisas científicas, lazer - muitas famílias a utilizam para o convívio familiar, para fazer caminhadas, jogos de futebol, passeios de bicicleta, brincar, observar animais silvestres, fotografar e filmar, fazer pique-nique, jogar bola, orar e meditar, pesquisar e estudar.

Não é permitido na Flona de Lorena:
- Usar fogo e praticar qualquer ato ou se omitir de forma que possa ocasionar incêndio; retirar plantas, frutas, flores, sementes, areia e pedra exceto nos casos autorizados pela administração da Flona; entrar com animais domésticos ou exóticos exceto cães-guias; caçar, pescar, portar estilingue, arma branca ou de fogo, alimentar, capturar ou molestar animais silvestres; fumar em recinto coletivo fechado; acampar e fazer fogueira; usar aparelho de som em volume alto e soltar fogos de artifício; consumir bebidas alcoólicas e entorpecentes; pichar ou realizar outros atos de vandalismo; soltar qualquer espécie animal ou plantar espécie vegetal na Flona exceto se autorizado pela administração; percorrer as vias laterais à estrada que cruza a Floresta Nacional; realizar pesquisa científica e visitação de grupos sem autorização; impedir ou dificultar a regeneração natural da vegetação; portar instrumentos de caça, pesca ou exploração de produtos florestais e minerais; fotografar profissionalmente sem autorização da administração; trafegar de moto pelas trilhas.

Recomendamos e apoiamos:
- Manter os espaços limpos; falar baixo, não gritar; evitar buzina; observar atentamente as placas de sinalização; tratar a todos com educação, cortesia e respeito; transmitir ao próximo os princípios de mínimo impacto ambiental; praticar atividades físicas conforme seu condicionamento e nível de experiência.

A principal prioridade da unidade é a aprovação do Plano de Manejo já elaborado pela equipe da Flona de Lorena e voluntários e transformá-lo em um verdadeiro instrumento de gestão e apenas documento um técnico-científico. Atualmente o Plano encontra-se em fase de reformatação para ser apresentado ao Conselho Consultivo e encaminhar para Brasília e ser publicado no Diário Oficial da União.

Outra prioridade é o “Projeto Revitalização e Uso Público – os mensageiros da biodiversidade na Floresta Nacional de Lorena”. Este projeto pretende dar um novo uso aos prédios históricos da Flona de Lorena, transformando cada casa abandonada de ex-funcionários nas casas dos biomas brasileiros. Cada casa será um espaço para Mata Atlântica, Caatinga, Cerrado, Amazônia, Pantanal, Pampa e Zona Costeira e Marinha. Uma oportunidade para os visitantes e alunos conhecerem – de forma didática, com monitores treinados - um pouco da riqueza natural do Brasil. No final da jornada, cada visitante receberá um certificado como “mensageiro da biodiversidade”.

Assumimos a Chefia da Floresta Nacional de Lorena há exatamente ano com o objetivo de fazer com que este espaço seja mais conhecido com melhores condições de visitação e ter a comunidade Valeparaibana aliada na implantação da unidade. Aumentamos a quantidade de reuniões do Conselho Consultivo – antes eram uma ou duas reuniões por ano – em um ano já realizamos cinco reuniões do Conselho. Estamos na fase de resgatar junto à comunidade o nome do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e o valor que esta área possui para o Vale do Paraíba, realizando parcerias, com a FATEA – principalmente com o Curso de Arquitetura e Urbanismo - com o INPE, com o Instituto Oikos, com a MRS, temos ótima relação com o Ministério Público Federal de Guaratinguetá. Portanto, se aproximando cada vez mais dos principais segmentos da sociedade regional. Apesar da área estar aberto à visitação de segunda a domingo, estamos também começando a organizar o Projeto das Trilhas da Flona.

Já temos nosso site www.icmbiogov.br/flonalorena, nossa logo, temos um Programa de Voluntários envolvendo as diversas Faculdades de Lorena, temos um levantamento de aves em andamento – até o momento já foram identificadas 123 espécies, além da pesquisa sobre nova metodologia para o monitoramento do risco de fogo. São muitos projetos, são muitas idéias para reerguer este espaço para Lorena e para o Vale do Paraíba. Estamos muito próximos da mais movimentada rodovia do Brasil, entre as duas maiores cidades brasileiras. Que visibilidade! Que vitrine para o ICMBio e parceiros. Venham nos visitar! Potenciais parceiros e parceiras serão sempre muito bem vindos!

flonalorena.sp@icmbio.gov.br
www.icmbio.gov.br/flonalorena
Telefone: (12) 3157.2449

Miguel von Behr é Analista Ambiental, Chefe da Flona de Lorena (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodivesidade-ICMBio/MMA)

 
 
 
 
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